4 de junho de 2008

As várias faces de Kelly

Foto Bruno Fernandes

— Se você fizer uma matéria que acabe com a minha vida, eu acabo com a sua — ela dispara com voz grave, firme. Segue-se um instante de silêncio, que a própria Kelly interrompe com uma risadinha infantil. Sua voz ao telefone rejuvenesce dez anos quando acrescenta: — Estou brincando. Eu tenho 19 anos. Não faço mal para ninguém.

É meu primeiro contato com duas das muitas facetas de Kelly Samara. Uma é a Kelly que no ano passado estourou nos jornais como “a golpista dos Jardins”, a “falsa socialite”, a “bonequinha de luxo” das roupas de grife e unhas bem feitas, procurada por furto e estelionato em três estados, acusada de usar cheques e cartões de crédito alheios para se hospedar em hotéis cinco estrelas, alugar automóveis com diárias de R$ 1.300, fazer compras em lojas da moda, almoçar no Fasano, badalar no Café de la Musique e alugar jatinho no Aeroporto de Congonhas. Ela é Kelly Tranchesi, Daniela Delgado Garcete, Alessandra Tranchesi ou Kelly Gelleni; veterinária, dermatologista, negociante de cavalos, amiga de políticos e jogadores de futebol, filha de um dono de cassino no Paraguai - algumas das identidades que, segundo a polícia, ela teria usado em seus golpes. É a Kelly que faz do seu figurino uma coletânea de grifes caras e afirma passar os dias entre um dúplex no Jardins e compras na Daslu e no Shopping Iguatemi.

A outra face, bem menos glamorosa, é a de Kelly Samara Carvalho dos Santos, nascida há 19 anos na zona rural de Amambaí, município de 33,4 mil habitantes em Mato Grosso do Sul. Abandonada pela mãe aos 3 meses, foi criada pelos avós, que precisaram de uma vaca emprestada para amamentar a menina. Essa é a Kelly lado B, que hoje tenta retomar a vida após oito meses nada luxuosos na cadeia. Presa em 22 de agosto do ano passado pela acusação de furtar um talão de cheques, foi absolvida na Justiça por falta de provas — a vítima, doente e com 84 anos, recusou-se a depor no processo. Kelly saiu da Penitenciária de Tremembé, no interior de São Paulo, em 2 de abril, e desde então mora de favor no apartamento de um quarto e 57 metros quadrados de um investigador da Polícia Civil divorciado, no Bexiga. “Ele tem 58 anos, é como se fosse meu avô”, diz. Deve passar seu aniversário de 20 anos, em 10 de julho, em um espaço pouco badalado: a 8.ª Vara Criminal de Cuiabá (MT), onde tem audiência marcada para responder à acusação de furtar uma Pajero.

A Kelly Samara que encontro pela primeira vez é uma garotinha de rosa e branco e que me espera sentada à mesa de madeira de um restaurante do Shopping Paulista. Ela usa chapéu com laço, ambos rosa, blusa de malha branca com detalhes em rosa, calça jeans com cinto dourado, tênis branco e meia rosa.

— Um amigo meu me chama de Barbie — ela conta, num sotaque cantante de “es” bem marcados, herança da colonização gaúcha no sul-matogrossense.

Foto Bianca Alves

São onze da manhã, e a “Barbie” beberica um copo de Johnnie Walker 12 anos, sem gelo, diante do chaveiro de pelúcia rosa sobre a mesa. A bebida hoje não está descendo bem, de modo que ela faz um gesto ao garçom para afogar o uísque em Red Bull. Alta (1,78 m) e magra (52 kg), Kelly tem queixo curto, covinhas bem marcadas, boca pequena e aparelho nos dentes. Os olhos, grandes e rasgados sobre a face, permanecem ocultos por um par de óculos Gucci (ou “Gussi”, como ela diz) que cobrem metade do seu rosto.

— Pintei meu quarto de rosa com desenhos da Barbie e da Xuxa. Eu adoro a Xuxa! — afirma.

Ela está acompanhada do seu advogado, Gilson Roberto Ancel, um sessentão negro de terno alinhado e óculos na testa. Advogados gostam de moldar seus clientes para a imprensa e é fácil notar o rosto que Kelly foi orientada a exibir: uma menina doce e sofisticada, que não precisaria dar golpes para circular pela alta sociedade. Ao defensor, cabe o papel de paizão diante da filha sapeca.

— É uma menina, olha para ela. Poderia ser modelo — diz Gilson.
"Ela é inventiva e megalomaníaca", diz delegado.
Mas a sofisticada Kelly lado A também não se sustenta por muito tempo. A outra Kelly dá um jeito de se mostrar, seja nos constantes erros de português, seja no modo como ela limpa as unhas com as chaves enquanto fala.

Durante a conversa, Kelly volta e meia esquece a menininha de rosa, para desespero de seu advogado.

— O que é dela está guardado — dispara Kelly a respeito da delegada Aline Martins Gonçalves, autora do inquérito que a levou à prisão. Diante dos olhos arregalados do advogado, ela acrescenta: — Por Deus! Está guardado por Deus, ô!

Cliente e advogado vão fundo na tentativa de vender uma imagem ainda mais positiva, e logo trazem à mesa uma outra Kelly, a benemérita. Questionada sobre alguns de seus hobbies, ela solta:

— Gosto de conversar com os mendingos. Distribuo bolachas, dou dinheiro. Mesmo quando eu morava nos Jardins, conversava com o pessoal que carregava lixo.

— Os mendigos adoram ela — diz o advogado.

Em troca da entrevista, pede uma roupa da Daslu e um terno para o advogado.
Converse com outras pessoas que a conheceram e lhe falarão de uma outra Kelly. Os funcionários do edifício onde ela atualmente mora a consideram arrogante, por nunca cumprimentar ninguém. Na Penitenciária de Tremembé, um funcionário a descreveu como “insuportável”. “Ela dizia que conhecia muita gente, mas nunca recebeu visitas”, afirma. Gianpaolo Gelleni, o ex-namorado que a acusou de furtar um quadro de Juan Miró no valor de US$ 18 mil, contou em depoimento que ficou constrangido ao levá-la ao Jockey Club e ver como ela maltratava os empregados.

Maltratar funcionários subalternos e armar barracos em ambientes finos seriam justamente algumas das táticas usadas por Kelly para se passar por socialite e aplicar seus supostos golpes, segundo a polícia. Os problemas da menina com a lei começaram aos 13 anos, quando ela foi acusada de furtar cheques. Em 2003, aos 15, se passou por veterinária e tentou vender cavalos que não existiam, segundo o delegado Claudineis Galinari, titular de Amambaí. Três anos depois foi parar na Unidade Educacional de Internação de Dourados (MS), uma espécie de Febem sul-mato-grossense.

— Ela tem mente inventiva e é megalomaníaca — afirma Galinari.

Sentada à mesa do shopping, Kelly lembra dos delitos da adolescência, mas afirma que seu único crime foi despejar detergente no chafariz da praça de Amambaí. Sobre as outras acusações, ela não falará hoje — porque isso não é uma entrevista, apenas uma conversa, diz o advogado. Entrevista e fotos, só na semana que vem. No final, é ela quem paga a conta, com um cartão de crédito.

Dois dias depois ligo para Gilson, que me faz uma proposta. Segundo ele, Kelly só aceitará fazer a entrevista se a CRIATIVA der uma roupa nova para ela e um terno para ele.

— Para ela ir toda bonitona. Ela vai lá na Daslu e você compra a roupa — diz.

Ao telefonar para Kelly, a notícia de sua libertação já está nos jornais. Pergunto sobre a exigência de roupas novas e ela afirma que não será necessário:

— Isso é coisa do doutor.

Foto Bruno Fernandes

Finalmente, no dia marcado, Kelly concede a entrevista no local ideal para combinar com a imagem de sofisticação que ela pretende passar: um escritório na Avenida Paulista, emprestado por um amigo de seu advogado. Hoje, ela encarna a Kelly celebridade. Está ocupadíssima: diz que logo em seguida tem um encontro no programa de Olga Bongiovanni. As unhas parece que acabaram de ser feitas. Muito maquiada, veste casaquinho rosa e camiseta pólo listrada da Lacoste, óculos “Gussi”, calça jeans Diesel, bolsa Victor Hugo e tênis Nike Shox.

— Todas originais — afirma. — Hoje em dia ando com nota fiscal de tudo.

Diante dos flashes do fotógrafo, Kelly tamborila os dedos com impaciência e boceja com ar blasé. Espalhando a fumaça adocicada de cigarros de cravo L.A. e Djrum, Kelly fala sobre os “oito meses de inferno” que passou na prisão, onde chegou a pensar em suicídio e levou uma tesourada de uma outra detenta na testa. Segundo ela, as presas tinham inveja porque Kelly fumava Marlboro e comia peito de peru defumado e chocolate enviados via Sedex por seu advogado, enquanto as demais detentas fumavam Vila Rica e comiam a ração da penitenciária.

A tal tesourada não deixou cicatriz em seu corpo e nem registro nos documentos da Secretaria da Administração Penitenciária, que afirma não ter qualquer informação sobre agressões contra Kelly ocorridas nos dois presídios por onde ela passou (a Penitenciária de Sant'anna, na zona norte de São Paulo, e o presídio de Tremembé).
"Sou católica. Sempre rezo e se ajoelho."
Nem tente entender as histórias que Kelly conta para explicar sua vida. Penetrar nessa região significa atolar no emaranhado de contradições e incoerências formado pelo mosaico das diferentes Kelly Samara. Embora o próprio advogado afirme que a Justiça aceitou o pedido de prisão preventiva contra Kelly por ela não ter residência fixa, a menina continua a falar sobre o dúplex que mantém nos Jardins.

— Volto para lá assim que terminar a reforma.

Mas, afinal, onde ela arruma dinheiro para tanto luxo?

— Eu faço pátina — diz.

Como assim?

— Assim, por exemplo, eu pego uma mesa normal e faço uma arte barroca. Pego antiguidades e restauro. E isso rende dinheiro, sabe?

Talvez não renda tanto, pois o advogado diz que trabalha de graça para Kelly porque ela “não tem condições de pagar”.

— Eu perguntei se ela acreditava em Deus. Foi a única condição que impus — diz Gilson.

Kelly conta que é católica:

— Sempre rezo e se ajoelho.

Sobre a acusação de furtar o Miró de uma galeria, Kelly responde prontamente que foi usada pelo então namorado, Gianpaolo, filho do dono do estabelecimento, para levar a peça. A Justiça foi favorável a Kelly e recusou a denúncia neste caso, afirmando não haver indícios de furto. Já quando perguntada sobre o furto da idosa de 84 anos, Kelly começa a contar como comprou o cheque de outra pessoa, mas no meio da explicação se confunde e diz apenas:

— Ah... nem sei mais.

Kelly ainda responde a um outro processo em São Paulo, por conta de mais de R$ 6 mil em cheques sem fundo repassados para uma locadora de carros importados. Mais algum?

— Já foi levantado em outras cidades, mas não tem nada— responde o advogado, categórico.

Delicadamente, informo que minha apuração levantou pelo menos outros dois processos: um em Ponta Porã (MS), no qual Kelly é acusada de furtar R$ 30 mil de uma idosa paraguaia, e outra acusação de furto em Cuiabá (MT).

O advogado arregala os olhos:

— Isso é quando ela era menor — diz.

Kelly faz uma careta, aperta os olhos debaixo dos óculos escuros e admite:

— Não, eu já tinha dezoito.

A essa altura, surge outra Kelly, que troca os adocicados cigarros de cravo pelo sabor mais acre e forte do Marlboro.

— Ponta Porã... Foi uma menina que roubou as jóias da avó e depois botou a culpa em mim — relembra Kelly. — Esse de Cuiabá eu não sei o que é.

Foto Bianca Alves

A revelação de outros processos dos quais nem seu advogado tinha conhecimento perturba Kelly. Dali a pouco, ela desaba no choro ao contar a história de como foi obrigada a deixar uma escolinha infantil onde vinha desempenhando uma função administrativa depois que o pai de um aluno viu uma entrevista dela ao “Jornal da Tarde”.

— Ele falou que, se eu continuasse trabalhando lá, ia tirar a filha dele da escola — conta. — Isso machuca a gente — continua, já com duas lágrimas escorrendo das lentes escuras do “Gussi”. — Tratada como se eu fosse um bicho, sabe? — e se enxuga com as costas das mãos.

Com o choro de Kelly, não há mais clima para continuar a entrevista. Silêncio e soluços no escritório. Não deve ser fácil ser Kelly Samara. Qualquer uma delas.

(Versão ligeiramente ampliada da matéria publicada na revista Criativa deste mês)

10 Meteram a boca:

Ana disse...

Muito boa, Fausto.

Fernando disse...

Excelente a matéria. Deve ter sido um encontro bizarro e fiquei com a impressão de que não é só cara-de-pau, acho que a mina deve ser meio esquizo. Ou não?

Daniela disse...

Demais. Parafusos a menos. Mas sacadas (suas) a mais.

Martha Alves disse...

Gostei muito da matéria, mas nem tinha reparado que era sua. O Gio que me contou. Mas devo confessar que gostei mais das fotos dessa nova fotógrafa (kkkkkk) do boteco sujo...kkkkk....a dona bianca vai longe!!!

Lívia disse...

De você ela não escapou. Cada vez melhor. Dá-lhe Fausto.

Damine disse...

Excelente!
Mas fico com pena... a menina tem problemas psicológicos. Deveria passar por tratamento.

Sentilavras disse...

Essa menina deve mentir tanto, mas tanto que nem ela deve saber direito o que sente quando finge um sentimento. É engraçado e triste ao mesmo. Dá pena dessa palhaça.

Dr. Wallace e equipe disse...

Essa coitada é efetivamente doente; sofre de uma patologia psicológica por ter sido abandonada pela mãe e, além de tudo, por ter sido muito pobre! Faço claro que tal fato não a justifica, porém sua doença, seu ódio pelo seu passado, enfim, sua "vergonha" de ser digna, tendo então boa conduta moral, a induz ao feito_ para tanto, vive de "teatro". Hoje, 03/04, foi presa novamente mas, deta vez, no Rio de Janeiro.

Rafael disse...

Simplesmente surreal esse encontro, os pequenos detalhes e a eloquência torta são dignos de filme de suspense do Supercine.

Muito bom.

Fernando Alves disse...

Cara, essa menina é bizarra!
Até me lembrou uma antiga personagem da ariz Glória Pires: Maria de Fátima da novela VALE TUDO! hahahahahaha
É.... a vida real e a fantasia estão cada vez mais se confundindo...