5 de agosto de 2008

Ela não quer ser princesa

Maria Leopoldina cresceu sabendo que podia ser fruto de um caso extraconjugal de sua mãe com o cantor Roberto Carlos. Mas nunca quis tirar a prova

Maria Leopoldina, a Madhavinha, no seu chalé (foto minha)

Debaixo de um céu azul até demais, em um chalé rústico cercado de mata atlântica, Maria Leopoldina Splendore Pamplona de Abreu abraça o netinho de dois meses e pergunta rindo: "Será que você é bisneto do Roberto Carlos?". O assunto para ela é motivo de piada. Leopoldina quer de uma vez por todas deixar para trás a identidade de suposta filha do Rei. "Eu sou muito mais do que isso", diz. De fato, a vida de Maria Leopoldina não cabe numa coluna de fofocas. Esta avó de 41 anos escolheu um jeito próprio de conduzir a vida. Vegetariana radical, garante que o grande amor de sua vida foi o dono de um frigorífico. Mãe solteira de quatro filhos, foi sempre segunda esposa ou amante. Mergulhou fundo nas drogas, mas nunca abandonou os quatro filhos. De família rica, vive desde 2004 na fazenda Nova Gokula, uma comunidade hare krishna de Pindamonhangaba, a 145 km de São Paulo.

Mas não adianta nem tentar esquecer o suposto caso envolvendo o Rei e a mãe de Leopoldina, a socialite Maria Stella Splendore, na época casada com o estilista Dener Pamplona de Abreu (1936-1978). Maria Stella, hoje com 60 anos, teria servido de musa para Namoradinha de Um Amigo Meu, canção da fase rebelde de Roberto que começava com versos "estou amando loucamente/ a namoradinha de um amigo meu/ sei que estou errado,/ mas nem mesmo sei como isso aconteceu".

A socialite conta que conheceu Roberto nos bastidores do programa da Hebe, em 1966, quando estava grávida do primeiro filho. Eles voltaram a se encontrar meses depois e tiveram um caso rápido que causou escândalo nas rodas dos ricaços, embora tenha levado décadas para chegar ao grande público. "As pessoas próximas comentavam, até porque o Brasil naquele tempo tinha só três celebridades: Pelé, Dener e o Roberto", recorda o estilista José Gayegos, que na época trabalhava como assistente de Dener. "Mas esse assunto nunca passou do boca-a-boca, até porque a mídia era muito mais discreta do que hoje."

O boato de que Maria Leopoldina, nascida em 1967, seria filha de Roberto veio à tona vinte anos depois, num livro de memórias lançado por Carlos Imperial. Até pouco tempo, contudo, o caso era pouco mais do que um buchicho, a ponto de nem aparecer em Detalhes, a biografia censurada pelo Rei — seu autor, o jornalista Paulo César de Araújo, afirma que preferiu trabalhar apenas com "fatos comprovados".

No ano passado, a história do amor antigo voltou para ficar quando Maria Stella resolveu falar publicamente do caso para promover sua autobiografia, Sri Splendore - Uma História de Vida. “O potencial de Roberto ser pai da minha filha existe”, afirma Stella.

Maria Leopoldina ao lado da mãe, Maria Stella, e do irmão Frederico (foto do livro Sri Splendore)

Fumando um cigarro indiano de canela sentada no chão de sua casa, Leopoldina relembra como as cicatrizes do caso falaram por toda a sua infância. “Quando eu era pequena, minha mãe me usava para tentar se reaproximar do Roberto. Ela fechava o carro dele, me levava aos shows, me punha no palco, me levava ao camarim...”, enumera, enquanto beberica café num “copo de vidro de geléia vagabunda”, do jeito que ela gosta.

O encontro definitivo entre o Rei e a princesa relutante ocorreu em 1979, dias após a morte de Dener. Leopoldina tinha 12 anos. Levada pela mãe, ela tomou um café da manhã com o cantor no hotel Copacabana Palace, no Rio.

"Ele disse que me amava muito, como amava o Segundinho [Roberto Carlos II]", afirma Leopoldina. "Disse que não tinha certeza se era meu pai, mas de qualquer forma achava que isso não deveria se tornar público por causa da carreira dele." Leopoldina nunca o procurou. Tinha como certo que seu pai seria sempre Dener, independente da origem biológica. "Meu pai é o Dener, que me amou e me registrou, a quem amei e com quem convivi." Para encerrar, afirma que, com a morte de Dener, seu pai agora é o guru norte-americano Srila Acharyadeva — um dos sucessores de Srila Prabhupada, que criou em 1966 o Movimento para a Consciência de Krishna.

Leopoldina, que hoje prefere ser chamada pelo nome espiritual de Madhavinha, diz que só faria exame de DNA se Roberto pedisse. O que é improvável, já que o Rei recusa-se a comentar o assunto. Na casa de Madhavinha, Roberto Carlos é só mais um músico que ela gosta de ouvir, cujas canções como Todos estão surdos e O Homem dividem espaço no seu computador com mantras indianos. As filhas não curtem muito Roberto; preferem Bob Marley. Dener, por seu turno, está presente em livros e fotos na estante, numa imagem de Nossa Senhora restaurada por ele e nos planos futuros de Leopoldina, que pretende produzir uma cinebiografia sobre o pai. Para retratar a trajetória do primeiro estilista brasileiro, famoso tanto pelas criações que fizeram história quanto pela “frescura” que ele próprio definia como “fora de série”, Leopoldina sonha com um filme que misturasse Cazuza e Gaiola das Loucas, estrelado por Daniel de Oliveira.

Maria Leopoldina e o irmão Frederico, crianças, com Maria Stella e Dener (foto do livro Sri Splendore)

Longe do ronco barulhento dos carros, Leopoldina leva hoje a vida que pediu a Krishna. Vivendo de pensões e heranças deixadas pelos antigos namorados, passa os dias estudando a literatura védica e cuidando da família. Atualmente, prepara-se para presidir a seção brasileira da Food for Life, ONG hare krishna que distribui comida vegetariana para populações carentes em mais de 60 países.

O despertador da casa é o netinho Francisco, que com seu choro acorda todo mundo às seis da manhã. Leopoldina é uma avó-mãezona, a ponto de sentir os peitos se encherem de leite quando Francisco nasceu, em 18 de abril. "Um dia antes do aniversário do Roberto." Ela divide o chalé com o neto e três dos quatro filhos: Mariana, de 20 anos, que é mãe de Francisco, Maria Clara, 15, e Maria Giullia, 11. O único que não mora lá é Juan, 19, que há três anos saiu para viver no mundo dos "carnívoros" ao lado do pai, o publicitário Frederic Zaragoza, na agência de publicidade DPZ.

Na mesma fazenda, fica a casa cor-de-rosa de Maria Stella, bem mais luxuosa do que o chalé de Leopoldina. Apesar da proximidade, as duas raramente se encontram. Elas nunca tiveram relação de mãe e filha, nem na infância. Como militantes de uma religião que prega o amor entre todos os seres vivos, elas se sentem desconfortáveis por não conseguirem se amar como mãe e filha, por mais que tentem, e atribuem o problema ao carma de vidas passadas.

Leopoldina e suas filhas diante do templo de Krishna (foto de Bruno Fernandes)

"Que liiindas! Hare Krishna!", diz Leopoldina, a caminho do templo, ao passar por algumas das dezenove vacas que passeiam pela comunidade. Fiel aos princípios do movimento, ela não come carne, ovos e não veste couro. Seu chalé tem o zumbido permanente de um enxame de abelhas africanas que um dia invadiu o local. Nem pensa em tirá-las, já que todos os seres carregam uma partícula de Krishna. Para proteger as filhas, Leopoldina uma vez matou uma cobra que apareceu no chalé, mas gritou duas vezes "Hare Krishna" antes de esmagá-la com uma pá de ferro - para dar ao bicho a oportunidade de reencarnar como gente.

Leopoldina conheceu o movimento hare krishna na adolescência, quando foi levada pela mãe para morar numa comunidade em Boston. Mas Leopoldina, broto displicente, queria conhecer mais do mundo material. Após ser punida por fugir escondido com outro devoto para shows de rock, ela se revoltou. Acabou com tudo e escapou para o Brasil, onde abandonou a vida krishna e se uniu a Zaragoza, com quem teve dois filhos, Juan e Mariana.

Ela sorri ao lembrar que o maior amor da sua vida foi o pai de Maria Clara, Júlio Bordon, dono de um frigorífico e do restaurante Esplanada Grill. Ela o conheceu quando tinha 17 anos e o amou, entre muitas idas e vindas, até sua morte. Leopoldina até pediu a autorização de Julinho para cumprir uma promessa feita a seu melhor amigo, um advogado chamado Fergus Luiz, que ameaçava se matar após perder a filha de oito anos num acidente. À beira do túmulo da menina, Leopoldina jurou: "eu vou dar uma filha para você". Bastou uma relação sexual para ela entregar ao amigo o presente, batizada Maria Giullia. Fergus só conviveu com a nova filha também por oito anos. Ele morreu de ataque cardíaco em maio de 2003, na mesma semana em que Júlio faleceu após se engasgar com um pedaço de carne (suas últimas palavras foram "Esta picanha está muito dura", segundo Leopoldina).

Leopoldina no templo hare krishna, ao lado de uma estátua de Srila Prabhupada, fundador do movimento (foto minha)

Ao perder de uma só vez o amigo de fé e seu amor camarada, Leopoldina mergulhou numa fase de autodestruição. Com raiva de Deus, mergulhou numa fase de auto-destruição. Vivendo com os hippies de Paraty (RJ), onde morava, passou a consumir doses cada vez maiores de cocaína e álcool. Numa manhã de 2004, exausta da loucura, sentou na cama e gritou para o céu: “Krishna, me salva!”. Telefonou para a mãe, com quem não falava há dois anos, e disse que estava pronta para viver em Nova Gokula.

Leopoldina e as filhas chegam ao templo para o trabalho do meio-dia e meia. Os devotos cantam mantras diante das imagens de Krishna. “Minha mãe está lá”, Leopoldina comenta ao entrar. É olhar para Maria Stella e entender porque as duas não conseguem se dar bem. Diante da filha de chinelo de dedos, camiseta e calça de malha, Maria Stella desfila pela fazenda com chapéu Valentino, exibindo o rosto carregado de plásticas. Difícil imaginar duas mulheres mais diferentes.

Mas é hora de esquecer o mal e pensar só no bem. Leopoldina entrega Francisco para a mãe. De macacãozinho azul, o bisneto é a bandeira branca da trégua entre as duas. Avó e bisavó conversam e andam pela fazenda. Quando se separa de Stella, Leopoldina está feliz por as duas terem conseguido, ainda que por apenas algumas horas, desfrutar de um momento como mãe e filha. Ela pede ao repórter que esqueça algo negativo que tenha comentado sobre Stella. Como numa canção do Rei, elas são apenas seres humanos, tentando buscar a vida mais linda. E não são perfeitas. Ainda.

(Versão ligeiramente ampliada da matéria publicada na revista Criativa deste mês)

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