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    Sigam-me os bons

    23 de janeiro de 2009

    Papai papudo

    Shannon, com o vibrador na mão, seu pai Sady Baby e a "madrasta" Inglid

    O telefone tocou. A bancária atendeu e quase se desmanchou em choro diante da fila de clientes que aguardavam na entrada de uma agência da Caixa Econômica Federal, em Louveira, cidade de 30 mil habitantes no interior de São Paulo. Era um recado do pai que ela nunca tinha visto, dizendo que queria conhecê-la. Feliz como estava, a menina de 17 anos, zagueira do time de futsal, a virgem que tinha vergonha de tirar a roupa diante das outras jogadoras no vestiário — nunca poderia imaginar que o pai reaparecido queria era levá-la à capital para estrelar um filme pornô.

    — O nome dele é Sady Baby. Ele não presta — era tudo o que a mãe de Shannon (vamos chamá-la pelo nome artístico que recebeu do pai pornógrafo) havia falado sobre o pai da garota. No Google, Shannon descobriu que seu pai, um homem de cabelos louros encaracolados de ovelha, havia trabalhado como produtor, ator e diretor em filmes como “Emoções Sexuais de um Jegue” e “O ônibus da suruba”. Nos anos 80, fase final da Boca do Lixo paulistana, quando o sexo explícito dominou o mercado cinematográfico, Sady tornou-se o cineasta mais polêmico do grupo. Foi acusado de filmar com menores de idade e de induzir um deficiente mental a boquetear cães e cavalos.

    “Manhêê, ela não qué dá a buxetinha dela pá eu comê...”

    O que o Google não contava era que Sady, após vender um teatro erótico que mantinha em Balneário Camboriú (SC), vinha tentando retomar sua carreira de pornógrafo, mas não encontrava espaço nas produtoras para o tipo de sacanagem filmada que gostava de fazer, com enredo, personagens e longos diálogos de humor escatológico. Resolveu que daria a volta por cima montado num escândalo: um filme pornô protagonizado por alguma das dezenas de filhas que espalhara ao longo da vida entre o Rio Grande do Sul e o Mato Grosso. Em Shannon, encontrou a candidata perfeita. Era virgem e menor de idade, o que aumentaria o escândalo. Morava no interior e precisava de dinheiro, o que ajudaria a atraí-la.

    Sexo não era um assunto real para a cabeça de Shannon, que continuava mergulhada na adolescência. Gostava mesmo era de jogar bola; o jeito de falar e as roupas eram de uma moleca. Havia se assumido como lésbica para a família, embora nunca tivesse ido além dos beijos. As coisas em casa iam mal. Sua mãe bebia cada vez mais, o padastro a incomodava e o salário mínimo que recebia como atendente no banco não lhe permitia sonhar com escapatórias. Quando o pai que ela tanto queria conhecer apareceu em sua cidade, em julho de 2007, e lhe ofereceu a chance de “aparecer num filme”, parecia o final feliz de um conto de fadas.

    Shannon: "Sou filha de um cabacinho que você tirou"

    A vida mudou bastante para Shannon quando passou a morar no apartamento de Sady, no centro de São Paulo, ao lado da mulher dele, Inglid Becker, e do filho de cinco anos do casal. Sady só pensava em sexo e vivia cercado de atores e produtores pornôs; Inglid falava o tempo todo em aumentar os peitos e sonhava em sair pelada em alguma revista. O filho recebia reclamações na escola por pedir boquetes à professora e vivia correndo atrás de Shannon para fodê-la, mesmo sem saber exatamente o que isso significava. Diante da recusa de Shannon, saía choramingando para Inglid: “Manhêê, ela não qué dá a buxetinha dela pá eu comê...”. Era como viver na casa da família Addams após o casamento com os Bórgia.

    — Você é cabacinho? Então vem cá — afirma Sady para Shannon em uma das cenas de “A Filha do Diretor”, em que interpreta a si mesmo, misturando ficção e realidade.

    — Não! Pai! — ela reage. Sady hesita, sem entender. Entre lágrimas bastante reais, ela explica: — Eu sou sua filha de verdade. Sou filha de um cabacinho que você tirou. Agora estou aqui. Posso te abraçar pelo menos uma vez?

    — Minha filha... — murmura Sady, e os dois se abraçam de olhos úmidos. A emoção em cena, autêntica, logo é quebrada por uma piada de Sady: — Se você não falasse, eu ia te comer.

    O ambiente mexeu com a cabeça de Shannon. Num final de semana em que voltou para Louveira, dormiu na casa de uma colega de time e, tarde da noite, foi até a cama dela, onde pela primeira vez recebeu sexo oral.

    — Nossa, você está tão diferente — comentou a amiga, pouco antes de cair de boca. Shannon não sentiu lá muita coisa, mas gostou da experiência.

    Sady dá uma mãozinha ao dirigir um pornô

    Em São Paulo, Sady gravou as cenas em que o diretor pornô ensinava a filha a fazer sexo. Ele não precisou de muita lábia para convencer a filha a transar com uma menina do Paraná, loira de peitos siliconados e cara de atriz pornô, tão mulher quanto Shannon era menina. O filme terminava com Sady anunciando que a filha perderia a “virgindade de pau” na continuação.

    Próximo projeto era um pornô gay protagonizado por Maomé

    Difícil saber se Sady teria convencido Shannon a transar com um homem num segundo filme — a menina não tinha a menor intenção de diversificar sua carteira de investimentos sexuais, até porque havia quase vomitado ao ver um ator ejacular em cena. Os planos do produtor começaram a perder a rigidez diante das dificuldades em encontrar distribuidores interessados em seus filmes. Ele já havia rodado “O tesão dos krentes”, sobre surubas de evangélicos, e pretendia dirigir um pornô gay protagonizado por Maomé, mas o dinheiro começou a minguar.

    Na virada do ano, Shannon voltou para sua cidadezinha, onde, segundo ela, descobriu que seu pai havia estourado várias contas bancárias abertas em seu nome. Ao mesmo tempo, passou a ser evitada pelas amigas que descobriram sobre sua atuação pornô.

    — Tenho medo que você tenha pegado alguma doença — justificou uma delas.

    Shannon desistiu de voltar para São Paulo e passou a rezar todas as noites pedindo a Deus que não deixasse “A Filha do Diretor” ser lançado. O Criador atendeu ao pedido de Shannon utilizando algo melhor do que uma horda de anjos: em julho, entrou em cena uma operação antipedofilia da Polícia Federal, que indiciou Sady e Inglid por infringir o Estatuto da Criança e do Adolescente e ainda apreendeu as matrizes do filme. A ação da PF foi motivada não por causa de Shannon, mas em razão daquela loira siliconada que, aparentemente tão madura, tinha apenas 16 anos. Abalado, Sady tratou de criar seu próprio The End e desapareceu um mês depois.

    — O Sady se matou. Pulou no rio Uruguai — disse Inglid para Shannon quando ela o procurou.

    Os olhos de Shannon brilham quando ela conta seu segredo

    Shannon está de volta à sua cidade natal, mas as coisas já não são as mesmas. Ela não tem mais o emprego na Caixa, perdeu algumas amigas e seu nome ficou sujo em vários órgãos de restrição ao crédito. Perdeu, ainda, boa parte do antigo ar de moleca. De tudo o que passou, há apenas uma lembrança que Shannon guardou com o carinho de quem acalenta um presente: um orgasmo. Um brinde que recebeu da adolescente loira siliconada, em um minúsculo estúdio improvisado, diante de lentes, microfones e olhares curiosos.

    — Foi a única vez que alcancei um orgasmo — conta. Seus olhos verdes, que o sol às vezes deixa azuis, brilham. — Alguma coisa tinha que ser boa nessa história.

    A história da virgem de 17 anos transformada em atriz pornô pelo próprio pai, publicada no site da Ele Ela , é uma palinha da biografia de Sady Baby, que eu e o Gio Mendes estamos escrevendo.

    16 Metendo a boca:

    Gabriel Carneiro disse...

    O livro promete, Fausto.

    André Maleronka disse...

    cara, essa história é LOUCA DEMAIS, pelamor... parabéns!

    Anônimo disse...

    Oi Fausto. Parabéns pela matéria, tenho certeza que vai chamar bastante atenção. Sady Baby é o mais extremo dos cineastas brasileiros. A entrevista que deu a Zingu é histórica.
    Matheus Trunk
    www.revistazingu.blogspot.com

    Fausto Salvadori disse...

    E acredite se quiser, André, mas é só uma das várias histórias loucas que cercam a vida do Sady. O Matheus sabe.

    Anônimo disse...

    Esse cara é doido, ainda por cima fui chamado para figurar um dos filmes dele, mais um pouco tinha ido parar na cadeia..

    Daíza disse...

    Que história! Sinceramente tenho dúvidas se esse cara morreu mesmo... cadê o corpo? Em todo caso, fiquei com pena da filha.

    PD disse...

    Muito prazer! É a primeira vez que visito seu blog, por indicação de uma amiga.
    Seus textos são excelentes. Parabéns!

    Fausto Salvadori disse...

    Valeu, PD. O seu blog também é bem bacana. Mas você sabe disso.

    Fausto Salvadori disse...

    Daíza, acho que o Sady morreu, sim. Assim como o Capitão América e o Batman.

    Maria disse...

    Olá...primeira vez por aqui e gostei do que li...voltarei sempre...bjs

    Luis Xavier disse...

    Fausto, foi como se você tivesse atendido a um pedido meu. Gostei muito do texto. E me sinto livre pra dizer que ficou melhor escrito que os textos anteriores publicados. Fluiu muito bem. Ficou perfeito. Muito legal ler esse trecho da história do Sady Baby. O cara que me trouxe ao seu blog meses atrás. Parabéns a você e ao seu parceiro pelo trabalho de investigação e de jornalismo eficiente!!!

    Luis Xavier

    Chester disse...

    No aguardo do livro. Fará barulho, com certeza. :-)

    Jonathan a. Diaz disse...

    Enfim, foi realmente uma vitória para a humanidade a -pressumida- morte deste canalha.
    O mundo respira um pouco mais leve.
    Ir procurar a filha que ele nunca viu, só pra fzr filme pornô é podre.

    Anônimo disse...

    E a doida da minazinha loira virou Miss! Só dar uma procura rápida no google e orkut! parece q ela não tem nenhum receio do passado.

    Fausto Salvadori disse...

    Caro Anônimo,
    fiquei curioso com seu comentário. Pode mandar mais informações para o meu e-mail? É fausto@botecosujo.net. Obrigado.

    Elias/SC disse...

    Cara fiquei pasmo com o que vi agora, é lamentável que um canalha desse não esteja apodrecendo atrás das grades, e após fazer uma rápida pesquisa por ele no google, fiquei ainda mais assustado vendo como as pessoas cultuam ele, é no mínimo abminável. Estou postando isso agora, porque acabei de conhecer o blog lendo a reportagem sobre a "puta" de SP e resolvi ler alguns dos seus posts, que por sinal são ótimos e bem escritos, parabéns