
O repórter cinematográfico da televisão tirou os olhos da lente, colocou a câmera no ombro e observou o cadáver no chão.
"Tênis bom, hem?", perguntou ao policial militar, encarregado de "preservar" o local do crime até a chegada do rabecão do IML. Olhando para os calçados do morto, acrescentou: "Posso pegar?"
"É mala, mesmo... Por mim...", respondeu o policial. (Nota: mala=malandro, bandido)
O repórter arrancou os tênis dos pés gelados e saiu todo feliz.
— Você tá brincando. Isso não existe.
— Tõ te falando. Foi assim mesmo. O Nóia era foda.
Os saques do repórter cinematográfico foram lembrados pelos jornalistas após a boquinha livre oferecida pela polícia com os despojos apreendidos em um cassino estourado no centro da cidade. Era o dia da inauguração e, além das mesas verdes de carteado e roleta, havia um bufê coberto de doces e salgados, para os quais a polícia precisava dar um destino. Como não fazia sentido apreender, pensaram em levar a comida para os presos da delegacia.
(Todo mundo sabe que um policial só estoura um cassino quando é deixado de fora do esquema. "O delegado só pode ter ficado puto porque resolveram inaugurar um cassino no quintal dele e não o chamaram para cortar a fitinha", comenta um repórter. Esse é o tipo de informação que não sai no jornal, porque é difícil de provar. No dia seguinte, jornais e TVs todos vão puxar a matéria por "cassino inaugurado a 500 metros de delegacia", "ousadia dos bandidos" e frases de efeito indignadas da autoridade policial.)
- Como vamos fazer?— o delegado assistente conversa com um investigador. — Se a gente levar essa comida para os presos agora, eles vão acordar.
Um repórter se revolta:
— Ô doutor, o senhor vai dar essa comida para vagabundo, com a gente aqui morrendo de forme?
— Não seja por isso... Pode pegar.
— É pra já.
Enquanto crupiês, gerentes e clientes depõem na delegacia, de onde serão liberados sem problemas dali a pouco, os jornalistas saqueiam a mesa até as migalhas.
O banquete no cassino fez a galera lembrar outras histórias de saque. Locais de crime são prato cheio para alguns jornalistas e policiais, dois tipos mortos de fome, encherem os bolsos e a barriga. Pegam ferramentas em desmanches, CDs piratas em apreensões, comida e bebida em casas de bandidos.
— E tinha o Nóia — lembra um repórter. — O Nóia que era foda.
O Nóia era um repórter cinematográfico que descobriu o lado "prazeroso" da profissão quando foi filmar a casa de um traficante que havia acabado de ser preso. Os policiais estavam enchendo as viaturas com comida e uísques importados, e ofereceram a mercadoria aos jornalistas.
"Pode pegar, é de vagabundo, mesmo."
Do primeiro uísque, Nóia passou a buscar presentinhos em todas as cenas de crime que visitava. Um fotógrafo de jornal uma vez estranhou o peso da mochila ao sair de um desmanche "estourado" pela polícia, até que o Nóia se aproximou para falar: "Obrigado, parceiro, usei sua bolsa para moquear uns toca-fitas que eu peguei ali, beleza?"
Nóia não poupava nem os mortos. Surrupiava tênis, óculos escuros e até um boné furado de bala de um cadáver.
A casa caiu, ou le chateau desabeau, como dizem os franceses, quando a mãe de um rapaz assassinado foi reclamar com a polícia do sumiço dos tênis do filho. No mesmo dia, ela telefonou para a TV e perguntou:
"Será que vocês podem devolver o tênis do meu filho? A polícia disse que ficou com um cinegrafista de vocês..."
— Aí mandaram ele embora. O Nóia era foda.
(Texto originalmente publicado em 2003, no meu falecido blog Longa Jornada Noite Adentro, sobre os bastidores da reportagem policial)
3 Metendo a boca:
Uma vez eu comentei que queria comprar um Ipod e um conhecido oficial dos Bombeiros me disse que se quisesse ele arrumava um pra mim barato, quase todo mês ele tinha um em mãos que pegava de algum acidente enquanto socorria a vítima.
Manoel, essa é muito baixa e difícil de acreditar. Ou seja, tem tudo para ser verdade.
Cacete :O
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