4 de setembro de 2009

A vida de quem vive da morte - parte 1

Texto baseado em uma reportagem que publiquei
no "Agora SP" em julho de 2002


A mulher é jovem e nua. Os cabelos são vermelhos e há maquiagem no seu rosto, sombra azul nas pálpebras fechadas. Ainda é possível ver nela a moça atraente, a pele branca e os seios bonitos — mesmo com a mancha escura que cobre o seu ombro esquerdo, a marca vermelha ao lado da boca e um rastro de costura que ziguezagueia até o seu pescoço.

Ruiva, linda, nua e morta, a jovem perdeu seu nome. Há dois anos, ela se tornou 432/ 01, o número do seu registro no livro de mortos não identificados do Instituto Médico Legal (IML) Leste, em Artur Alvim.

O rosto dela não ficaria mal nas páginas de uma revista, mas a única página que lhe coube foi a de um livro amarrotado de capa preta cartonada, com o título Indigentes 1999 2000 2001 2002 2003. O grosso álbum contém milhares de fotos de indigentes mortos de modo violento e nunca identificados, fotografados sobre as mesas de metal do IML.

As fotografias servem para que eventuais parentes de mortos não identificados possam fazer o reconhecimento das vítimas mesmo após elas serem sepultadas. Cada código corresponde ao número de uma sepultura no Cemitério Vila Formosa, onde os indigentes ficam enterrados por três anos. Depois disso, eles são exumados e enterrados numa cova comum.

Folhear o álbum é ver uma sucessão de rostos disformes e identidades mortas. A maioria ali não foi reconhecida por ninguém e não será nunca. Os corpos são fotografados do peito para cima, com os mais variados tipos de ferimento e em todos os estágios da putrefação.

Alguns, os mais raros, são mortos recentes e parecem gente viva, adormecida. Outros têm a pele azul coberta por pequenos vermes brancos, parte da chamada "fauna cadavérica". Há lábios imensos, olhos de órbitas saltadas, rostos inchados no limite do caricato. As feridas são grandes e escuras. Nos casos mais extremos, não há nada que possa ser reconhecido como humano, só uma massa marrom.

Todos estão mortos. Quem eram, o que sonharam e o quanto sentiram morreu com eles naquelas páginas. Uma frase banal é corriqueira entre os funcionários do IML:

— A gente não vale nada, mesmo.

Em 2002, acompanhei 24 horas do trabalho de dois funcionários do carro de cadáver (o "rabecão") do IML Leste divididas em dois plantões, nos dias 14 e 23 de julho. A bordo de uma caminhonete Silverado turbo diesel, a dupla recolheu e descarregou doze cadáveres ao longo de 400 quilômetros na periferia de São Paulo.

É uma jornada que se inicia com uma caveira entre as matas de um parque público, segue por ruas enlameadas de favelas e paredes brancas de hospitais, passa por sete velas acesas e desemboca em pratos abarrotados de arroz e filés à milanesa num bar do centro.

O plantão de doze horas começa na sede da subfrota dos carros de cadáver, junto ao IML Oeste, no Ceasa. São 19h do dia 23, um domingo, e o motorista do rabecão (chamado de agente policial) Rogério, 31 anos, lava o sangue deixado no chão do pátio pelos corpos do plantão anterior.
Os ossos vestem calça e sapato. No escuro, é difícil diferenciar costelas de gravetos.
O rabecão é uma caminhonete-baú equipada com quatro caixas para o transporte dos cadáveres. Rogério não comenta, mas é fácil ver o motivo da sujeira no chão: as quatro bandejas de fibra têm buracos nas extremidades, por onde escorre o sangue dos mortos.

— E aí, nega? — O atendente de necrotério Orestes, 34 anos, cumprimenta o colega e observa o relatório deixado pela equipe anterior: 15 cadáveres recolhidos em 12 horas. — Com um dia cheio assim, a noite de hoje deve ser calma — afirma, mas está errado.

Às 19h30, Rogério e Orestes entram na cabine do rabecão e partem em direção a uma pendência deixada pela equipe anterior: uma ossada no Parque Ecológico do Tietê. Descoberto às 14h, o corpo já passou pela perícia do Instituto de Criminalística (IC), que terminou o trabalho às 18h30, liberando o corpo para ser recolhido pelo carro de cadáver.

Dirigindo pela Marginal Tietê, Rogério não tem como saber a velocidade em que está. O velocímetro do painel está quebrado há tempos, assim como a sirene e as luzes do rabecão.

No Parque, o rabecão chega ao local guiado por um carro da PM. Depois de estacionar o veículo na estrada de terra enlameada, a dupla carrega a gaveta por uma trilha até os fundos da mata. A ossada está amontoada em meio a pedaços de roupas apodrecidas. Os ossos das pernas, ainda unidos, vestem calça e sapato. A vinte metros dali, há uma oferenda de umbanda, uma cabeça fresca de boi sobre uma vasilha cheia de sangue — mas esse é um cadáver que será deixado no local.

Os funcionários recolhem os ossos à luz das lanternas dos PMs. Na semi-obscuridade, é difícil diferenciar as costelas dos gravetos. Por alguns momentos, Orestes lembra Hamlet ao segurar o crânio sem maxilar na mão direita. Um policial militar não resiste:

— Ser ou não ser?

— Pode crer — Orestes concorda.

A ossada do Parque Tietê: "Ser ou não ser?"
(foto Williams Valente)


Por rádio, os funcionários comunicam ao Cepol (Centro de Operações da Polícia Civil) o recolhimento da ossada, às 21h. A atendente, uma mocinha de voz simpática, informa que não há outros cadáveres.

O destino da equipe é o IML Central, único habilitado a fazer necropsia em ossadas. Da mesma forma, os cadáveres putrefeitos só podem ser atendidos no IML Oeste. Já os mortos com até três dias de óbito são levados ao IML da área.

As ossadas são cadáveres fáceis de trabalhar, ensina a dupla. Não têm cheiro, são leves e limpas. Os piores são as vítimas de acidentes, principalmente as que caem em trilhos de trem e se espalham em vários pedaços. Mas o mais desagradável do trabalho é lidar com os putrefeitos, chamados de "podrões".

É impossível entrar num local fechado onde haja um putrefeito sem antes acender uma pequena fogueira com o álcool numa tigela, para consumir os gases do apodrecimento. A dupla leva sempre um litro de álcool, guardado na "batbolsa de utilidades" atrás do banco da cabine, junto com as luvas usadas no contato com os mortos.

Até para segurar os putrefeitos é preciso cuidado, porque estão cheios de bolhas de sangue e gás. As bolhas estouram com facilidade, espalhando sangue e mau cheiro. O odor de gente apodrecida gruda nas roupas e fica na cabeça por muito tempo.

— No dia em que recolho um "podrão", tenho que fazer um strip tease no quintal para minha família me deixar entrar em casa — conta Orestes.

A dupla conta que já recolheu um "podrão" morto num local tão estranho quanto adequado. ‘Era um mendigo que costumava dormir dentro de um jazigo vazio no Cemitério da Saudade‘, lembra Rogério. O mendigo morreu no túmulo alheio, e dias depois o mau cheiro chamou a atenção dos funcionários. O rabecão teve de tirar o seu corpo do cemitério, para onde voltaria dias depois.

Às 21h30, a equipe atravessa as portas de aço do IML Central. Homens nus estão estendidos sobre as macas e mesas de metal. Todos levam a marca da necropsia, um rastro de pele costurada à linha que começa entre as pernas e sobe até o pescoço. Cada um traz um pedaço de cartolina com sua identificação grudada no peito e o número de registro rabiscado em grandes numerais azuis sobre a pele.

Um dos mortos costurados é um bebê de um ano, parecendo um boneco de olhos abertos.

— Ele ficou doente. Só que a família, que era muito religiosa, levou o bebê para igreja em vez de mandar para um médico, e o bebê morreu — explica um funcionário.

A visão do bebê morto é perturbadora, inclusive para Orestes, que trabalha como atendente de carro de cadáver há 11 anos.

— A gente se habitua ao nosso trabalho, mas nunca se acostuma — costuma dizer.
"Por dois meses, ele continuou a deitar na cama ao lado do corpo da mulher morta"
Orestes e Rogério receberam fortes marcas de alguns dos corpos que recolheram. Foi o caso da morte dos três irmãos, em Ermelino Matarazzo, há três anos. As crianças, de dois, cinco e sete anos, morreram em um incêndio dentro de casa, enquanto seus pais dançavam no forró.

Orestes nunca se esqueceu da posição em que encontrou os três corpos queimados:

— Um tentava proteger ao outro. O mais velho abraçava o irmão do meio, que envolvia o caçula, encolhidinho num canto.

Ao ver a reportagem sobre as mortes, na TV do dia seguinte, ele olhou para a filha recém-nascida ao seu lado e caiu no choro.

Há um mês, na Vila Carrão, foi a história do velhinho que continuou a dormir com a esposa dois meses depois de ficar viúvo:

— Ele continuou a deitar na cama ao lado do corpo. Quando recolhemos o corpo, ele não disse nada, só olhou para nós sem expressão.

Não importa se está atulhado de trabalho ou curtindo um dia de folga: se encontra um motorista de carro bêbado, Orestes dá voz de prisão e o leva até a delegacia mais próxima. É que ele logo se lembra dos três corpos que um dia recolheu após um acidente de trânsito: avó, mãe e neta mortas por um motorista embriagado.

— Isso mexe com a gente — diz.

Rogério sempre se lembra da história de um casal suicida. Em menos de um mês, ele e Orestes voltaram duas vezes à mesma casa bem cuidada de Cidade Tiradentes. Primeiro, foi a mãe da família que se suicidou, preocupada com as dívidas. Um mês depois, o rabecão retornou para buscar o marido dela, que também havia se matado.

— Não esqueço da filha de 14 anos do casal, que nas duas vezes encontrou os corpos dos pais.

Os motivos para os suicídios não costumam ser originais, nem os métodos. Homens se matam por causa das mulheres, mulheres se matam por seus homens. As mulheres preferem atear fogo a si próprias ou ingerir veneno ou comprimidos. Já os homens suicidas costumam ser levados para as bandejas enforcados ou baleados.

A dupla no trabalho: "A gente se habitua, mas nunca se acostuma"
(foto Jefferson Coppola)


De volta ao IML Oeste, às 22h, a dupla fica sabendo, através da vozinha macia do Cepol, de mais dois corpos a serem recolhidos. O rabecão retorna para a zona leste.

— Não dá tempo de ir ao Vampirinho? — pergunta Rogério no caminho, referindo-se a uma churrascaria onde às vezes jantam.

— Não, e nem no Chugatinho — suspira Rogério.

Eles não terão tempo para procurar o conhecido vendedor de espetinhos, que chega a encomendar costelas para os seus dois fregueses mais assíduos.

Apesar dos 13 graus estampados nos termômetros, o domingo local ainda tem cara de final de semana. Não faltam bares e botecos cheios de minas e manos. Um motel anuncia em vermelho

SUÍTE SUPER LUXO
POR R$ 9,99


Alheio às cores e à alegria, o rabecão continua em busca da morte.

Durante o trajeto, o rádio Cepol informa sobre mais um cadáver à espera. Às 23h30, o rabecão acompanha um carro da PM até a rua Missal, na favela do Jardim Eva. Na rua de barro, está um vigia de 21 anos, Edjaelson Barbosa Ferreira. Dois encapuzados o balearam, às 18h30.

Agarrada a uma amiga, a jovem viúva observa o corpo aos seus pés. A dupla retira o lençol que o cobre, revelando a cabeça coberta de sangue e setas adesivas, coladas pelos peritos para indicar os pontos de entrada e saída das balas. O corpo está nu, pois as roupas são recortadas durante a perícia, e as mãos, cobertas pela tinta preta usada na retirada das impressões digitais.

A menina redobra o choro e sua amiga a segura com mais força. Antes de a dupla colocar o cadáver na bandeja, a viúva faz um pedido:

— Posso ficar com a correntinha dele?

O atendente embrulha a lembrança numa de suas luvas e a entrega.

— Obrigado — ela diz, um fio de voz.

— De nada.

A próxima parada é o hospital Ermelino Matarazzo. No caminho, a dupla pára num posto de gasolina para comprar uma garrafa d’água. Os funcionários do posto aproveitam a presença do rabecão para sacanear com um colega:

— Leva esse cara aqui, que ele tá fedendo.

— Na volta — responde Orestes, de cara feia.

Na zona leste, as gozações com o rabecão são comuns e sempre as mesmas: muito presunto aí, como vão os presuntos, lá vão os presuntos.

A dupla tem duas resposta padrão para os engraçadinhos. Uma, educada, é:

— Quem carrega presunto é a Sadia. A Polícia Civil transporta cadáveres.

E a outra, um pouco mais direta:

— Presunto a gente vai ter no dia em que estiver levando sua mãe, aquela porca.

À meia-noite, eles chegam ao necrotério do hospital. Orestes aponta para os pés dos mortos:

— Por eles, dá pra você saber quem é trabalhador e quem não é. Em pé de vagabundo, o sol deixa a marca das chinelas havaianas.

Sobre uma maca, está um corpo com uma cartolina e o nome José Dias Castro Filho. O corpo sem ferimentos e o rosto azul apontam para um ataque cardíaco — o tipo de morto que costuma ser encaminhado ao Serviço de Verificação de Óbito da prefeitura. Mas, nesse caso, será recolhido ao IML porque o delegado da área desconfiou das circunstâncias do falecimento e pediu a necropsia.

Ao lado dele, há um jovem baleado na cabeça, chamado Adriano Rocha dos Santos.

— Daqui a pouco a gente volta para buscar esse — comentam. Eles não podem recolhê-lo agora, porém, porque ainda não receberam a ordem do Cepol.

O longo trâmite burocrático, verdadeiro culpado por muitos dos famosos atrasos do carro de cadáver, não pode ser ignorado. A Polícia Militar é a primeira a ser informada sobre mortes violentas. Os PMs devem garantir a preservação do local onde o corpo foi encontrado e comunicar a ocorrência ao delegado plantonista da área. Este deve ir ao local e depois acionar a delegacia seccional, que por sua vez informa ao Cepol. Comunicado sobre o fato, a equipe de perícia — que pode ser do Instituto de Criminalística, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa ou até do Detran — vai ao local e, encerrado o trabalho, aciona novamente o Cepol, que somente aí vai contatar o carro de cadáver.

Mais cadáveres caem na rede.

— IML 2, tem mais — avisa a atendente do Cepol pelo rádio.

— Positivo e que-erre-vê, tê-cá-esse — responde Orestes.

A cabine da Silverado vai se enchendo do cheiro adocicado do sangue.

As gavetas furadas, por onde escorre o sangue dos cadáveres
(foto Williams Valente)


No necrotério do PS Planalto, às 0h30, eles se deparam com um homem forte e corpulento, com pelo menos 1,80m.

— Esse é grande — comentam.

É o chefe de cozinha Ajoildo da Silva Dias, 38 anos. Quatro horas antes, o homem agora imóvel sobre a maca estava agitando-se aos berros em casa enquanto discutia com a esposa. Segundo o Boletim de Ocorrência registrado no 64º DP (Cidade AE Carvalho), a discussão terminou quando o cunhado de Ajoildo atirou em sua cabeça para defender a irmã. A dupla sua para colocá-lo no rabecão.

Meia hora depois, no PS Jardim Iva, à 1h, eles recolhem o corpo de um homem desconhecido, que não foi reclamado nos últimos dois dias. Há outros cadáveres para serem recolhidos, mas as quatro gavetas do rabecão já está cheias. Antes de prosseguir, é preciso deixar os corpos no IML Leste.

Nem sempre os funcionários do IML puderam "descarregar" os cadáveres do rabecão antes de enchê-lo com outros corpos. Antes de 1999, quando o IML passou a dividir a colheita dos mortos com o Serviço de Verificação de Óbito (SVO) da prefeitura, era rotina empilhar cadáveres uns sobre dentro nas mesmas gavetas do rabecão, como mortos de campos de concentração.

— Não queríamos desrespeitar os cadáveres, mas não tinha outro jeito— lembra Orestes.

Segundo ele, de lá para cá o número de corpos destinados ao IML diminuiu, e o serviço, pelo menos neste aspecto, melhorou.

No IML Leste, em Artur Alvim, a dupla abre o baú, tira os mortos das gavetas e os ajeitam sobre as macas e mesas, à 1h30. As quatro bandejas são lavadas antes de voltar para o baú. Orestes telefona para o Cepol e passa um relatório. Vinte minutos depois, saem para abastecer os 120 litros do tanque do rabecão, numa Central de Carros Auxiliares da Polícia Civil.

Tanque cheio, vem a hora de abastecer o estômago, após seis horas de trabalho ininterrupto. A visão dos corpos mortos não tirou o apetite de ninguém. É alta madrugada, a picanha do Vampirinho e os espetinhos felinos do Chugatinho já se recolheram. O jeito é ir para o Estadão.

Localizado no centro da cidade, o Estadão é um dos poucos bares que fornecem refeições completas a qualquer hora do dia, todos os dias do ano, a preços populares. É ali que deságuam os tipos da boêmia paulistana. PMs e prostitutas, travestis e jornalistas, funcionários da Eletropaulo e taxistas, músicos e guardas noturnos, michês e papa-defuntos batem cartão no local atrás do lendário sanduíche de pernil.

Um dos funcionários já recolheu o cadáver de um amigo de infância

Às 2h30, a dupla pode ser vista no Estadão saboreando a comida entre piadas e gozações. Rogério pede filé de frango com arroz e feijão, enquanto Orestes devora um prato cheio de linguica calabresa com arroz e salada. A personalidade da dupla combina com o ambiente despretensioso do bar.

Ambos só bebem Coca-Cola, contrariando a imagem do funcionário de rabecão alcoólatra.

— A gente bebe, sim, mas não em serviço — garante Orestes.

Eles admitem, porém que a fama dos papa-defuntos bebuns tem sua razão de existir, ligada ao passado do Instituto Médico Legal. Orestes conta que, durante os seus primeiros anos como atendente no necrotério, há mais de uma década, o IML funcionava como uma lixeira da Polícia Civil, destinada a receber policiais afastados pela Corregedoria.

Os veteranos do Instituto estão cheios de histórias sobre a "velha guarda" dos rabecões. Histórias como a da dupla de funcionários flagrada bêbada dentro do IML pelo próprio diretor, que estranhou a voz pastosa com que um deles atendeu o telefone. Acabaram exonerados.

Outro personagem dos velhos tempos era Mário Cachaça, que um dia saiu tropeçando do rabecão para revistar um garoto suspeito e o baleou sem querer. O menino sobreviveu para testemunhar contra ele. Expulso da polícia, Cachaça suicidou-se.

No PS Planalto, às 3h30, o rabecão enche mais uma gaveta com Márcio Roberto Perondi, assassinado próximo ao hospital. Vinte minutos depois, a dupla volta ao PS Ermelino Matarazzo, em busca de Adriano Rocha dos Santos, 22 anos, o mesmo morto que já tinham visto no necrotério do hospital três horas antes. No 64º DP, a reportagem fica sabendo que ele era um jovem surdo-mudo, baleado durante uma confusão em uma quermesse na Cidade AE Carvalho.
Mais velho no ofício, Orestes diz que o perfil dos cadáveres mudou na última década. Há dez anos atrás, o que mais havia eram as vítimas de acidente de trânsito.

— Com as novas leis e os radares, já não morre tanta gente assim — comenta.

Os mortos entre ferragens das avenidas cederam lugar aos homicídios banais da periferia, vítimas quase sempre jovens e envolvidos com o consumo ou o tráfico de drogas. É o tipo de cadáver mais comum, e o que menos emoção provoca nos dois transportadores da morte:

— De certa forma, é como se a pessoa tivesse procurado por aquilo — Orestes. — Não é como uma criança, ou uma vítima de latrocínio.

Uma dessas vítimas era um antigo amigo de infância do atendente, o único conhecido que Orestes já transportou. Os dois acabaram se afastando depois que o velho conhecido tornou-se viciado em drogas. Acabou morto por causa de uma dívida na ‘boca‘.

— Quando olhei para ele, senti pena — diz Orestes, mas sem a mesma emoção com que contou outras histórias.

O rabecão segue em busca da morte
(foto Jefferson Coppola)


O último corpo a se juntar aos colegas no baú é um homem não identificado no PS Vila Nhocuné. A polícia suspeita que ele tenha morrido envenenado. Às 4h30, a dupla volta ao IML Leste para descarregar os corpos.

O prédio só retoma o funcionamento normal a partir das 7h. Mesmo assim, está cheio de pessoas — a maioria deitada sobre macas, com pedaços de cartolinas grudados no peito. Viva, só uma senhora de 60 anos, jeito de vovó, a auxiliar de necropsia encarregada de passar a noite no local.

Sozinha?

— Não, com eles — ela sorri ao apontar os cadáveres.

Quem olha o jeito tímido e delicado daquela senhora dificilmente imaginaria sua profissão:

— As pessoas se espantam quando digo que sou uma cortadora de defunto.

Ela não se importa em passar as noites sozinhas no IML, acompanhada apenas pelos cadáveres.

— Tratar com morto é mais fácil do que com vivo — conta a auxiliar, que trabalhava como técnica de enfermagem num hospital público antes de ir para o IML.

Naquele tempo, ela não suportava nem ir a um velório.

— Se fosse a um velório, não conseguia dormir à noite — recorda.

A decisão de abandonar a enfermagem e prestar um concurso para o IML, em busca de um salário melhor, foi motivada pela busca da independência financeira:

— Eu tinha três filhos e queria me separar do meu marido alcoólatra, mas precisava ganhar mais.

Os dois primeiros anos foram os mais difíceis:

— Eu ficava tão impressionada ao ver os defuntos que, à noite em casa, não deixava o meu marido dormir de bruços. — Aos poucos, ela foi superando o pavor. — Venci o medo pela necessidade financeira.

Cinco anos depois, quando já era capaz de passar a noite com os mortos sem receio, ela se divorciou. Conviver com a morte não tem mistério, garante.

— Se você trabalhar direito e tratar os mortos com respeito, passa a ser um serviço como outro — conclui.

Numa praça logo em frente, sete velas queimam. São velas brancas, do tipo que é dedicado às almas. Segundo os funcionários, costumam ser colocadas por parentes dos mortos à espera da liberação dos cadáveres. As velas ardem enfileiradas num canto da praça, como sete preces dedicadas aos sete mortos recebidos pelo IML Leste desde o início da noite de hoje.

A última ocorrência do plantão é um alarme falso. Avisados pelo Cepol, Orestes e Rogério vão até uma vítima de acidente de trânsito na avenida Afonso de Sampaio e Souza. Ali, os PMs encarregados de preservar o local apontam para um corpo embaixo de um lençol, numa ilha da avenida: uma garota de programa foi atropelada, não se sabe por quem.

A perícia ainda não passou por lá e não virá tão cedo. Vítimas de atropelamentos de autoria desconhecida não são periciadas pelo IC nem pelo DHPP, mas pelo Departamento de Acidente de Trânsito do Detran, apelidado de "Mandrake".

— É que eles têm que ser mágicos — explica Orestes. — Só com um corpo na rua, têm que tentar descobrir quem é, quando foi atropelado e por quem.

Eles voltam para a base, de onde só voltarão a sair às 7h, dessa vez para casa. Outra dupla assume os volantes do rabecão. O ciclo de corpos mortos, sangue e gavetas esburacadas recomeça. No canto de uma praça, sete tocos de vela abençoam a chegada da manhã.

Continua...

31 Meteram a boca:

Robson Arruda disse...

Nossa, que texto. Aguardando a continuação..

Daniel Araujo disse...

Que foda...

Meu avô fez esse trabalho quando era da Guarda Civil Metropolitana, acho q nos anos 60. Tal como no seu texto, tinha algumas mortes que marcaram ele profundamente. Por exemplo: se ele visse algum dos netos, ou qualquer criança, brincando ou escalando um tanque de lavar roupas, dava a bronca do século, e contava de quando foi buscar um garotinho todo cortado pela louça do tanque que se quebrou com o peso dele. História aterrorizante que prevenia qualquer um de chegar perto de tanques ou pias.

O colega de serviço dele não aguentou a bad vibe do trabalho e perdeu de leve o juízo. Dizia que ia comprar um terreno na amazônia com um dinheiro q ele não tinha, e um dia apareceu na casa do meu avô para se despedir, que estava indo para o tal terreno. Depois desse dia meu avô nunca mais conseguiu ter notícias do cara.

Pelo q me lembro do que ele contava, o recolhimento de cadáver era só uma das funções deles. Não faziam isso todos os dias, tinha uma escala. Mas faz bastante tempo.

Belo texto. Aguardando a continuação.

Manoel Leonam disse...

Caramba, Fausto, esse texto me deixou num clima estranho... dois trechos me chamaram muito a atenção: o mendigo morto dentro da sepultura, não deixa de ter uma certa ironia mórbida e as palavras de Oreste de uma frieza que gira em torno do preconceito e da sabedoria popular:

"— Por eles, dá pra você saber quem é trabalhador e quem não é. Em pé de vagabundo, o sol deixa a marca das chinelas havaianas."

Franco Atirador disse...

Basicamente. Vá se fuder Fausto. Do caralho. Prêmio petrosal de jornalismo. ups...

Narcélio Filho disse...

Excelente!

Igres Leandro disse...

Texto maravilhoso!

candy_jennie disse...

Parabéns! Aguardo a continuação!

Chester disse...

Mais um texto nervosamente bom, Fausto. Parabéns!

Ana Paula disse...

Muito bom. Ótimo. Quando você vai postar a segunda parte?

Ana Paula disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
Feira disse...
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Feira disse...
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Feira disse...
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Fausto Salvadori disse...

Todos os "comentários" enviado pelo Sr. André Azenha, da Blue Comunicação, foram excluídos. Não eram comentários de verdade, mas spam da Feira Música Brasil 2009.

Favor enviar spams para a casadocaralho.com.br.

Gabriel disse...

Cheguei a este blog através do Twitter. Haviam comentado que o texto era muito bom e resolvi checar. Não me arrependi!

Meus parabéns pelo texto :)

-

Leide Metal disse...

Maravilhosa a materia, parabéns!!!

Elainem disse...

Texto forte e verdadeiro...
Parabéns para o autor....muito bem redigido...
Com este texto dá para vivenciar o duro dia a dia destes funcionário....
É a vida......nua e crua....

Angie disse...

nossa, estou impresionada, é muitobom este texto, só temnq ter corajgem d lêr... me impresiounou muito o viuvo q dorme copm a esposa apos d 2 meses, eu acredito no amor imaginem o amor desse casal, as crianças se cobrindo nossa!!!!!!!!!!!!!!!!!!

mdfado disse...

Simplesmente uma das melhores matérias que eu li nos ultimos tempos...obrigado!

Phoebus disse...

Olá, Fausto !

Este texto seu me sensibilizou. "Não somos nada !", muitos deles dizem. E é verdade. A maneira como as pessoas mortas são tratadas é, por vezes, desumana. E pouca importa a religião, a posição social, a "raça", este é o derradeiro fim de todos nós. Devemos encará-lo sobriamente... Sabe, ao ler este texto, sinto-me instigado a fazer alguém feliz (por mais que isto possa parecer sem nexo). Gostaria que alguém chorasse por mim, no dia inevitável. Não, um choro de tormento, mas pelas boas lembranças que eu pudesse dar a esta(s) pessoa(s).

Belo Texto.

Hernani disse...

Nossa cara realmente haja sangue frio !!! moro na zona leste próximo a vila nhocuné e ja vi várias histórias sinistras mas nenhuma como essas !!!

Fausto Salvadori disse...

Phoebus, adorei seu comentário. Fiquei muito feliz em saber que as experiências que relatei nesse texto tocaram alguém tanto quanto a mim.

Não é falta de nexo, não. Ver a morte de perto faz a gente ter vontade de aproveitar melhor a vida.

Amanda disse...

Nossa, que texto maravilhoso... adorei *---*

P. disse...

EX-CE-LEN-TE!

;O)

Madá disse...

Nossa....mto bom o texto..Fiquei impressionada com a meneira que descreveu a morte dos irmãos..cheguei a chorar aqui....

Graci Baiana disse...

Muito bom!
Ótimo texto!

Graci Baiana disse...

Muito bom!
Ótimo texto!

marcia disse...

Curioso. Informativo.
Eu devia estar dormindo, pois tenho compromisso amanhã pela manhã, porém, não foi possível me desprender do texto.
Parabéns ao "dono da bagaça".
Vou para a 2ª parte. Agora.

Cris disse...

realmente maravilhoso
prestei concurso ano passado para atendente e para auxiliar de necropsia...pena, raspei na nota de corte...
profissão difícil, porém fascinante e que alguém tem que fazer !
mais uma vez, realmente maravilhoso seu texto ! parabéns !

Cris disse...

realmente maravilhoso
prestei concurso ano passado para atendente e para auxiliar de necropsia...pena, raspei na nota de corte...
profissão difícil, porém fascinante e que alguém tem que fazer !
mais uma vez, realmente maravilhoso seu texto ! parabéns !

mdfado disse...

Saiu a segunda parte?