10 de setembro de 2009

A vida de quem vive da morte - parte 2

Continuação de A vida de quem vive da morte - parte 1

Rogério lava sangue dos corpos no baú do rabecão
(foto Jefferson Coppola)

Às 21h, as mãos de Orestes afagam o sono da sua filha, no quarto dela, em sua casa na Penha. Ontem, a garota passou o aniversário de quatro anos no hospital, com garganta inflamada e febre, típicas para sua idade no tempo frio.

Ela já esta melhor, e o atendente de necrotério já pode sair para o trabalho. O rabecão dirigido por Rogério estaciona na frente de sua casa, na Penha.

— E aí, nega? — os velhos amigos se cumprimentam. É 23 de julho de 2002, começo de mais um plantão.

Duas horas mais tarde, as mãos de Orestes carregam a morte de um jovem sem nome, num escadão da favela do Jardim Etelvina, no Lajeado. Às 16h de ontem, o garoto foi morto com três tiros na cabeça, final comum para sua idade na periferia.

A dupla chegou ao local, na rua Maria Amélia de Assunção, meia hora após a saída dos peritos do DHPP.

— Onde está nosso cliente?— perguntou Rogério, ainda dentro do carro, aos policiais militares encarregados de vigiar o local do crime.

O policial aponta para o corpo do desconhecido caído vinte metros ladeira abaixo. Moradores passam sem se deter pelo cadáver, inclusive um pastor evangélico de terno antiquado, levando pela mão a filha pequena de saia comprida.

Orestes e Rogério colocam o corpo na bandeja. É uma longa subida íngreme até o topo do escadão, onde o rabecão aguarda. A dupla pergunta a um grupo de curiosos:

— Tem alguém que pode dar uma força para a gente?

Dois jovens aceitam segurar as alças traseiras da bandeja morro acima até o rabecão. Aberto, o baú aberto libera um cheiro forte de carniça.

— Carregaram um podrão durante o dia e não lavaram a viatura — explica Rogério.

A dupla precisa seguir os carros da Polícia Militar para conseguir sair do labirinto de vielas. Parte do odor podre chega à cabine. A favela é assustadora em sua paisagem noturna de ruas estreitas, muros de tijolos expostos, telhados de barracos à altura das calçadas e arame farpado fazendo de venezianas. Orestes segura o revólver na mão.

— Nessa área tem que ser assim — comenta.
O atendente de necrotério
odeia velórios.
Os freios guincham alto, como num ônibus velho. Mais à frente, veem um garoto numa bicicleta furar o sinal vermelho e escapar por centímetros de ser atropelado por um ônibus.

— Depois sobra para os trouxas aqui carregar — reclama Orestes.

Às 23h20, descarregam o corpo no IML Leste. Eles estão com outra Silverado: o velocímetro, as sirenes e as luzes agora funcionam. Por outro lado, a suspensão está defeituosa, as portas só abrem por fora e as bandejas de fibra continuam rachadas. Orestes preenche um relatório dentro do prédio, enquanto Rogério aproveita a parada para lavar o sangue do "podrão" que vazou pelas rachaduras durante o dia. O celular de Orestes toca com a música do filme Um Tira da Pesada. É a garota do Cepol avisando sobre um novo corpo. Enquanto anota o endereço, ele aproveita para jogar uma conversa fora e entabular uma paquera.

Orestes carrega um "lampiano", morto a facadas
(foto Jefferson Coppola)

No caminho até o local seguinte, o rádio da caminhonete, em meio aos chiados da estática, informa sobre a perseguição a um assaltante na avenida do Imperador. Não é longe dali. Os dois discutem se devem ir até o local para dar apoio aos colegas.

— Está boa a viatura? — pergunta Orestes.

— Não — diz Rogério, convicto.

— Então deixa para lá — o colega suspira.

Pouco depois, muda de idéia, pega o rádio e avisa que tem condições de ir até o local. A atendente agradece, mas diz que o caso já foi encerrado.

Rogério conta que está tomando um remédio contra alergia.

— Isso é alergia a trampo, seu vagabundo! — brinca Orestes.

— Vagabundo é você, que nunca trabalhou antes de vir para cá — Rogério rebate, e eles prosseguem noite afora na troca de ofensas entre velhos amigos.

A dupla foge ao estereótipo dos papa-defuntos silenciosos, bêbados e mal humorados. Embora mantenham o ar sisudo quando lidam com os cadáveres — "Os mortos devem ser tratados com respeito", ensinam — durante o resto do tempo ambos são velhos amigos trocando gozações e piadas um com o outro. Orestes cabe, na verdade, em outro estereótipo, o do gordo bonachão. Mais magro, o motorista não é menos gozador.

Ambos foram trabalhar com a morte através de laços de parentesco e amizade. Filho e sobrinho de policiais, Orestes sempre soube que seguiria a mesma carreira deles. Antes, trabalhou como monitor da Febem e segurança de hospital, onde perdeu o velho medo de mortos e carros de cadáveres.

Ao prestar concurso na Polícia Civil, Orestes optou por tentar a carreira de atendente de necrotério, incentivado por um amigo de infância que havia seguido a profissão. Aprovado no concurso, Orestes foi escalado para trabalhar com o amigo no seu plantão de estréia, em 29 de setembro de 1992. Dois dias antes, porém, o amigo morreu, baleado por um cobrador de ônibus com quem discutiu a respeito do troco. Há dois anos, foi a vez de Orestes convencer outro amigo de infância, Rogério, a trocar a Divisão de Capturas, onde trabalhava, pelo Instituto Médico Legal. Como as outras, a dupla folga 60 horas para cada 12 trabalhadas, e ganha R$ 1.200 mensais.

Apesar de lidar a cada plantão com cadáveres ensanguentados, Orestes não suporta ir a velórios.

— O caixão, o véu, os arranjos de flores, as velas, tudo isso me impressiona — diz o atendente. Ele deixou de ir ao velório da avó, que considerava uma segunda mãe, para não ter de vê-la no caixão.
Depois dos cadáveres, bife
à milanesa e maionese.
Nenhum deles tem vergonha em dizer no que trabalham, e garantem que o hábito nunca atrapalhou nenhum xaveco. Segundo Rogério, as outras pessoas têm dois tipos de reações ao saber como ele passa as noites:

— Ou elas esconjuram, ou se apaixonam.

Orestes concorda:

— Tem gente que faz cara de nojo e pergunta "ai, mas você trabalha com isso?", e tem pessoas que querem de qualquer jeito acompanhar uma madrugada nossa. Que nem você.

O papo-furado é interrompido na chegada ao hospital Ermelino Matarazzo, à 1h40. Eles colocam Euclides Limeira Santos, morto a tiros, no rabecão e seguem para o PS Vila Alpina. Ouve-se a trilha de Um tira na pesada no bolso de Orestes: é a mocinha do Cepol relatando outros cadáveres.

No necrotério, sobre a maca, Jaime José Cordeiro exibe fendas rosadas na pele do tórax e da barriga. Um grande naco de carne pende de sua mão direita.

— É um lampiano — diz Orestes.

Lampianos são as vítimas de facadas, numa referência ao cangaceiro Lampião. Mais habituado a ver marcas de chumbo do que buracos de lâmina, Rogério observa as feridas e conclui:

— Eu preferiria morrer de teco do que de faca.

— Já apareceu uns bem feios por aqui — conta o segurança do hospital, com seu sotaque nordestino. — Tinha um com um monte de tiro na cabeça, eu vi todos os miolinhos dele.

À 1h30, eles saem do hospital em direção ao quarto cadáver da noite.

— Como está frio — reclama Orestes, incomodado por não poder fechar os vidros sob pena de ficar preso no carro, já que as portas só abrem por fora.

Um rapaz de olhos assustados na calçada faz o nome-do-pai ao ver passar o rabecão.

— Ele está vendo alguma igreja passando por aqui? — resmunga Orestes.

O efeito do rabecão, em algumas pessoas, é como o de uma casa assombrada ambulante: quando a Silverado passa, católicos se benzem, umbandistas lançam mandingas. O atendente se irrita com as reações exageradas:

— Não precisa de nada disso, é só respeitar.
"Eu conto os dias, conto
as horas para te ver..."
O rabecão só consegue chegar ao bairro do próximo homicídio por volta das 2h30. Orestes telefona à cabine do 29º Batalhão e pede que um carro da PM os acompanhe até o corpo. Marlon Romani Coimbra, 18 anos, permanece deitado desde as 23h30 numa rua na favela do Nazaré, no Itaim Paulista, desde que foi baleado na cabeça, no peito e na barriga.

O corpo aguarda, solitário, numa rua de terra, entre um rio de esgoto e uma fileira de barracos. Não há amigos, parentes nem curiosos. Apenas os postes de madeira velam como cruzes junto ao morto. Marlon é mais um jovem de periferia a terminar como um cadáver de cuecas à espera do rabecão, mãos pintadas de tinta preta e setas adesivas espalhadas pelo corpo, caído num canto escuro da noite paulistana.

Escuro e perigoso. Três carros de polícia acompanham o carro de cadáver até o corpo. Orestes desce e vai a pé, com o revólver na mão. Na rua de terra, banca o flanelinha para o colega:

— Para cá, vem, esterça aqui, endireita, contrário, contrário, pode ir...

Madrugada de cadáveres termina com rango no Estadão
(foto Jefferson Coppola)

O rabecão descarrega os três corpos e depois ruma para o bar Estadão. Eles chegam ao bar às 4h, mortos de fome. Orestes pede um bife à milanesa com arroz, feijão e maionese, e ainda reclama do tamanho da carne com o balconista:

— Não tinha bife menor para me dar? Se fosse lá na boca e você vendesse droga desse jeito, já tinham te matado por lá. Rogério, passa a pimenta.

O motorista come um frango à milanesa, com arroz e salada.

Na saída, pagam a conta e cumprimentam Zuza, o folclórico gerente de bigode do Estadão.

— Nem que me pagassem 10 paus eu tinha coragem de fazer esse trabalho — confessa Zuza. — E ainda mais de cara limpa, sem beber nada, como vocês.

Não há mais corpos, afirma o Cepol. Sem cadáveres, sem pressa. A dupla sai do bar às 4h40 e leva quase uma hora para voltar ao IML Leste. O ponteiro do velocímetro mal ultrapassa o número 20.

— Vai na manha, para fazer a digestão — aconselha Orestes.

Ele está animado. Ao longo da noite, as conversas com a garota do Cepol foram se esticando cada vez mais, pontuadas com piadinhas e risadinhas cúmplices.

"Eu conto os dias, conto as horas pra te ver, eu não consigo te esquecer..." — Orestes cantarola, recostado ao banco.

No final do plantão, enquanto contabiliza o saldo de mortes em uma planilha na sala do IML, Orestes liga para a moça do Cepol e a convida para um cinema no próximo sábado. Quando o atendente desliga o telefone, sua risada ressoa em meio às salas apinhadas de gente morta.

— Ela topou — comemora, fechando a planilha e rabiscando as últimas anotações antes de ir embora.

Dali a pouco, a manhã explode em luz enquanto Orestes volta para casa assobiando Roberto Carlos. Está feliz da vida.

10 Meteram a boca:

Carlo disse...

Que estória bacana!!! Sinistra, mas muito bem contada...
[]'s

Lampião disse...

Fausto, é o seguinte, deve ser um pé no saco ter um blog famosão, e ter um monte de gente dizendo....porra atualiza o blog, fala sobre isto, fala sobre aquilo e tals.
Bem, vou chutar teu saco também.
Estas "histórias" de morte são bem bacanas, mas dá uma temperada com mulher gostosa e sem vergonha.
Vai por mim, defunto não vota, nem dá voto.
Ainda chutando o teu saco, a morte do Tarso de Castro, e os últimos dias dele.
Num momento em que colegunhas celebram a vida, lutam pela convalidação de diplomas, e frequentam restaurantes esquisitos caros e com chefs efeminados lá da Vila Madalena, a vida do cara e a morte também pode revigorar alguém.
Lamp

Juliana disse...

Muito bom!

Amato disse...

Boa, velho!
aproveito para sugerir a você visita a um novo blog
meuamigocacto.blogspot.com
abraço

GOM disse...

muito boa essas histórias dos papa-defuntos!
já pensou em fazer um filme disso?
dá pra fazer um bom roteiro.

Lidinha disse...

Gostei...

Alexandre disse...

muito bom seu texto, cara. gostei pra caralho da reportagem.

Phoebus disse...

Oi.

Saudações pelo texto.

Um abraço !

camila disse...

Incrivel amei a historia...

Thiago disse...

velho parabens olha fazia tempo que eu nao conseguia me distrair com um texto mais uma vez bastante sorte na sua empreitada