25 de outubro de 2009

Crimes de maio, crimes de sempre


Cena do filme Salve Geral
As câmaras de refrigeração estavam lotadas e os corredores iam se enchendo de macas que chegavam trazendo cadáveres desfigurados por sinais de tiros, a maioria no tórax ou na cabeça. “Eu nunca tinha visto uma coisa assim. Seres humanos transformados em um bando de bugigangas, um ferro-velho, desidratado de qualquer componente de humanidade”, recorda o defensor público Pedro Giberti, que até hoje se lembra do cheiro de gente morta que abarrotava as dependências do Instituto Médico Legal (IML) central em maio de 2006 (vide Revista Adusp 38).

Parecia um cenário de guerra, mas poucas guerras matam daquele jeito. Foram 493 mortes por arma de fogo no Estado de São Paulo entre 12 e 20 de maio, uma média de aproximadamente 54 pessoas assassinadas a tiro por dia. Naquele mesmo maio, a guerra do Iraque deixou 2.103 mortos, cerca de 39 por dia. Mesmo a Ditadura Militar brasileira, que criou as polícias militares nos anos 1970, precisou de 20 anos para produzir um número semelhante de mortos.

A onda de violência começou com uma série de ataques lançados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) após o governo estadual transferir mais de 700 presos para as penitenciárias de Presidente Venceslau e Presidente Bernardes, numa tentativa de isolar os líderes da facção criminosa. A mesma facção que a polícia paulista quatro anos antes havia descrito como “falida e desmantelada” lançou, no dia 12 daquele mês, uma ação coordenada que incluía rebeliões em unidades prisionais e ataques a agentes do Estado, ônibus, delegacias e outros prédios públicos. A violência do crime organizado deixou 59 mortos, entre policiais civis e militares (inclusive bombeiros), agentes penitenciários e guardas civis municipais, em ações ocorridas principalmente nos dias 12 e 13.

“A má vida tem de ser tratada como má vida”, declarou o governador Cláudio Lembo no segundo dia dos ataques . “A honra da PM e da Polícia Civil foi atingida. E cada oficial, cada soldado, cada agente, todos se sentiram igualmente feridos em seus brios. Urgia resgatar a autoridade da instituição”, anotou o ex-deputado federal João Mellão Neto num artigo-homenagem às corporações . “Nossa sociedade tem a cultura de aceitar que a polícia mate em algumas ocasiões, e naquela semana havia a sensação de que seria legítimo para a polícia reagir de maneira violenta, já que havia sido atacada”, recorda a advogada Marcela Cristina Fogaça Vieira, da ONG Conectas. Foi nesse ambiente que teve início a segunda etapa dos crimes de maio, que multiplicaria por nove o número de mortos no período.

Executada principalmente entre os dias 14 e 17, a nova fase da matança atingiu a população civil. Havia dois grupos responsáveis por estas novas mortes: policiais identificados como tal, que afirmavam terem matado os suspeitos em situações descritas como “resistência seguidas de morte”, e grupos de extermínio formados por homens encapuzados.

Sobreviventes e observadores independentes acreditam que os matadores sem rosto eram também policiais, unidos aos colegas fardados numa operação conjunta de intimidação e vingança. “A conclusão principal que se pode derivar é que as mortes de civis não aconteceram fundamentalmente durante os ataques a policiais, como consequência da defesa destes últimos, mas em intervenções posteriores, que poderíamos qualificar como represálias”, afirma o pesquisador Ignacio Cano, do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, no mais recente estudo dos laudos e boletins de ocorrência referentes aos crimes de maio, feito a pedido da ONG Conectas . A semelhança entre a ação dos matadores mascarados e a atuação dos policiais leva o autor a concluir que “agentes públicos possam ter participado em grupos de extermínio para vingar a morte dos companheiros”.


Abertura de reportagem para a Revista Adusp.
Leia a íntegra aqui.

3 Meteram a boca:

andremc disse...

Não consegui acessar o arquivo - site fora do ar. Guardarei pra ler depois, mesmo já tendo certeza do que se trata o texto. Revista da ADUSP? Isso é jornalismo ou assessoria de imprensa?

Fausto Salvadori disse...

andremc, para mim está funcionando. Bom, tente um caminho alternativo. Acesse o texto por aqui: http://www.adusp.org.br/revista/45/index.htm.

Por que seria assessoria de imprensa? Te garanto que tive mais liberdade para redigir esse texto na Revista Adusp do que em muito veículo da "grande imprensa" por aí.

Euni disse...

Eu acho é pouco. Bandido bom é bandido morto.