Demissão em massa no Diário de S. Paulo
O grupo Traffic, do cartola J. Havilla, que anunciou na semana passada a compra do Diário de S. Paulo, pretende demitir os 380 funcionários do jornal até o final do mês. Muitos devem ser recontratados em seguida, mas ninguém sabe exatamente como isso será feito.
Pelo que se comenta, a demissão em massa faria parte do acordo de venda acertado entre a Traffic e a Infoglobo, antiga dona do Diário. Graças ao megapassaralho, o império J. Havilla poderia herdar o Diário de S. Paulo sem se preocupar com dividas trabalhistas, que seriam todas assumidas pela Globo. O risco é os novos patrões resolverem recontratar os demitidos por salários mais baixos ou mesmo cortar parte dos direitos trabalhistas, na base do "é pegar ou largar".
E o Sindicato dos Jornalistas? Até agora não se manifestou.
Tudo está sendo feito da maneira nebulosa que caracteriza o procedimento dos grupos de mídia no Brasil, que adoram defender a própria liberdade de expressão e cobrar transparência dos outros, mas preferem agir nas sombras quando se trata dos seus negócios. A demissão em massa não foi assumida publicamente pelas empresas e não consta de nenhuma das notícias publicadas sobre o negócio, as quais se limitaram a apontar o papel estratégico da compra do Diário para ampliar o alcance da rede Bom Dia — braço impresso do império Traffic, que já controla nove jornais no estado de São Paulo.
E o leitor, como fica? Melhor não esperar muito. No geral, a expansão dos monopólios de mídia só faz piorar o jornalismo, deixando todos os veículos com a mesma cara fast-food. Desaparece a apuração de conteúdo próprio e pipocam os veículos que reciclam as informações produzidas por um núcleo cada vez menor de profissionais.
Embora continue a ser um bom jornal, com uma equipe excepcional, o Diário Popular piorou em muitos pontos após ser comprado pela Globo, em 2001, e se transformar em Diário de S. Paulo. A revista Já, que acompanhava o jornal, por exemplo, deixou de publicar suas próprias matérias e passou a reproduzir apenas material enviado pelo Globo. O leitor, que não é bobo como a gente pensa, percebeu isso e as vendas caíram.
As perspectivas do jornalismo para o Diário com a Traffic também não são as melhores. O modelo consagrado pelo Bom Dia é o que o "brasileiro iluminado" (segundo Milton Neves...) J. Havilla chama de "jornalismo da era da internet", que se traduz em matérias curtas e de apuração ligeira. Será que o leitor vai pagar para ler em papel e tinta o mesmo tipo de informação rasa que ele encontra de graça na Web? Sei lá. Como diria um antigo ícone do Diário Popular, "acabou, mano, acabou".


7 Meteram a boca:
Eu sou o único jornalista que tem ódio do sindicato dos jornalistas?
Não, João. A maioria ignora o sindicato. Os que conhecem um pouco sobre a atuação dele o desprezam. Os que conhecem mais o odeiam com todo o coração.
Mas é bom lembrar que nenhum sindicato pode ser melhor do que a categoria que representa.
O melhor é o comentário do Milton Neves:quanto mais estrume no pé mais cresce...
Que porcaria.
Realmente vão ser todos demitidos. Só que readmitidos em seguida. Segundo dizem, a demissão servirá para zerar o passivo trabalhista da empresa. Assim, o novo dono assume sem ter de responder por eventuais queixas trabalhistas no futuro.
Como diz o post, Deh, essa é a promessa. Se for cumprida, beleza. Mas chama atenção a falta de transparência da Traffic, que até agora não assumiu compromisso público e formal com a recontratação.
Como uma empresa de comunicação, a Traffic deve esse esclarecimento não só para os trabalhadores do jornal, mas também para seus leitores e a sociedade em geral.
Quando o NYtimes programa demissões, anuncia no próprio jornal: http://www.nytimes.com/2009/10/20/business/media/20times.html. Gostamos tanto de imitar os americnaos. Por que não na transparência?
"a expansão dos monopólios de mídia"
Esse pessoal que chama imprensa de "mídia" segue tanto o padrão mental que ignora - ou finge ignorar, o que é pior - o signficado do prefixo 'mono'.
Postar um comentário