Porão de sacanagens
Maurício Porão em ação
Mulher pelada combina com...
...casarões abandonados, ruínas, paredes esburacadas e móveis imundos, de preferência habitados por fantasmas.
É nesses cenários que o fotógrafo Maurício Porão constrói o seu erotismo sujo, inspirado no trabalho do tcheco Jan Saudek. Underground já no pseudônimo, Maurício é um "ex-policial negão, antissocial, gordinho e com cara de mau", que só se sente à vontade nos picos frequentados por putas, punks e podres em geral. Para ele, ambientes aparentemente mais respeitáveis, como o do jornalismo ou o da polícia, dão nojo.
"Desbravador de casarões abandonados", Maurício gosta de procurar os lugares mais detonados para tirar a roupa de suas modelos, geralmente recrutadas entre amigas punks, garotas de programa e atrizes pornô. Quanto mais devastado o cenário, melhor. E melhor ainda se for o lar de algum espírito, que Maurício afirma ser capaz de vistualizar com seus dons mediúnicos.
Se forem reais, os espíritos provavelmente não trouxeram boa sorte para as fotos de Maurício, que, segundo ele, costumam ser barradas em todos os lugares, de galerias de arte a sex shops. Sem pistolões no mundo da arte, Maurício só consegue espaço na Plano B, que ele define como "o último reduto do underground na Lapa", lá no Rio. Até fevereiro do ano que vem, Maurício apresenta ali a exposição Minimal Sessions, tema dessa entrevista para o Boteco Sujo.
Maurício Porão - Com a exposição Minimal Sessions, faço uma singela homenagem a todas as pessoas que abordei durante os oito anos do extinto site www.minimaldevotion.com. Que confiaram e curtiram fazer parte desta história. Sublinho todo um universo mal interpretado e estereotipado de uma forma digna e imponente. Eram alguns de seus melhores momentos e eu estava ali ao lado, como cúmplice. E o único local que aceita expor as fotos de Porão no estado do Rio de Janeiro não poderia deixar de ser a lendária Plano B — o sebo mais internacional do Brasil, ali na velha Lapa.
Boteco - O que é esse "universo mal interpretado e estereotipado"?
Porão - Univeso mal interpretado e estereotipado = punks, góticas, bangers, travestis, garotas de programa, tatuadoras etc
Boteco - Há quanto tempo você faz esse trabalho?
Porão - Estou completando oito anos, mas sou fotógrafo há mais de 15 anos. No momento sou 100% fotógrafo, porque sou fotojornalista, mas posso lhe dizer que minha paixão é pelas fotos de sensualidade e não pela fotografia em si.
Foto de Maurício Porão
Boteco - E o que te levou a querer fotografar esse universo? Por que a sensualidade desse universo alternativo?
Porão - Bem, são os meios que eu sempre frequentei e tenho amigos, conhecidos, camaradas, inimigos, desde que me conheço como gente. Na primeira versão do site Minimal, eu tive a ideia de fotografar as meninas das bandas que eu entrevistava (a primeira versão do site tinha a música independente como foco principal).
Boteco - E depois?
Porão - Comecei a pirar com os resultados dos ensaios e a coisa foi tomando outro formato. comecei a convidar amigas para posar em casarões abandonados, cenários decadentes. Comecei a aguçar na sensualidade. Na minha opinião, minhas amigas e conhecidas eram muito mais gatas e interessantes do que estas super modelos de revistas masculinas. E como nunca tive muito equipamento, trouxe a coisa para a minha limitação: luz natural, no máximo um rebatedor...
Foto de Maurício Porão
Boteco - E os cenários?Porão - Eu sou pesquisador e desbravador de casarões abandonados, ruínas, motéis decadentes... Meus amigos quando descobrem algo entram em contato comigo e eu contato os possíveis proprietários para propor um aluguel ou algum tipo de acordo. Acabo de descobrir um dos lugares mais incríveis e enigmáticos do país, mas não vou dizer onde fica. Tem gente me copiando por aí.
Boteco - As modelos se dão bem com esse ambiente decadente, sujo, desglamurizado? Alguma já reclamou?
Porão - Elas simplesmente AMAM esses lugares! Pelo contrário: não funcionaria se outro contexto fosse abordado.
Boteco - Tem tudo a ver com o universo que você aborda.
Porão - Claro que tem. Há também os fantasmas desses lugares..."Eles" parecem me apoiar.
Boteco - É? De que jeito?
Porão - Alguns já se manifestram nos Casarões da Glória. Eu vi!
Boteco - Viu mesmo? Como eram?
Porão - Sou médium. É muito comum espíritos vagantes ocuparem atmosferas densas em casas abandonadas.
Foto de Maurício Porão
Porão - Nunca. Quem diz que conseguiu está mentindo...Mas eu tive inúmeras experiências com sons e coisas voando do nada nos casarões da Glória durante os cinco anos em que os utilizei. Creio que eles se manifestavam mais quando não gostavam de uma possível farra que estivesse sendo feita. Sempre convidei grupos de modelos para fotografar: levávamos lanche, vinho, cervejas e o aparelho de som com muito rock`roll. Às vezes nos excedíamos! Mais recentemente, neste local que não quero revelar, uma das modelos era médium e viu um vulto enorme e pacífico se manifestar. Ela ficou emocionada!
Boteco - Maurício Porão é pseudônimo?
Porão - Sim. Meu nome é Maurício José Bezerra da Silva. Porão é um apelido antigo e tem conotações engraçadas. Não sou um cara down, sou mais engraçado mesmo. É porque há 15 anos atrás eu era o cara que mais curtia Ratos de Porão no Rio de Janeiro. Hoje nem tanto assim, mas gosto do meu apelido.
Boteco - E o apelido continua tendo muito a ver com o tipo de arte que você faz. essa beleza underground, de porão, mesmo
Porão - É, creio que sim. Minhas fotos sou eu. Isso é clichê, mas estou chegado aos 40 e continuo aficionado por estas modelos e estes cenários. A música sublinha tudo isso. Saudek é meu ídolo mor nessa minha vida.
Boteco - Saudek é a sua grande influência?
Porão - Saudek é minha grande admiração, não digo influência. O cara era tão glamouroso, tão estiloso e respeitador de seus personagens. Seria muita presunção minha dizer que tenho influência de Saudek. O que ele fazia era único.
Boteco - Você conhece o movimento altporn, de gente como o Xplastic?
Porão - Conheço, sim. Creio que seja uma outra e muito interessante linguagem. Não é a mesma coisa. Eu só chego até o erótico, não ultrapasso para o pornô. Mas adoro assistir a filmes pornôs alternativos. As modelos são lindas! Faria esse tipo de foto, mas de forma profissional, mesmo. Como arte, não.
Boteco - Pornografia pode ser arte?
Porão - Com certeza! Esses filmes alt pornôs pra mim são arte. Só digo que minha fotografia não inclui a pornografia...mas não tenho repúdio algum.
Boteco - E essa exposição, como que rolou?
Porão - Na verdade, é com se eu estivesse expondo em casa. A Plano B é o último reduto do underground na Lapa — por ali passam as pessoas que viveram aquela vibe punk, pós punk dos anos 80 e vários e vários tipos de malucos do bem. O Fernado e a Fátima — proprietários da loja — são dois queridos amigos. A loja tem tudo a ver com minhas fotografias. A expo teve início em 28 de fevereiro de 2009 (meu aniversário) e tinha os objetivos de comemorar meu aniversário e principalmente prestar uma homenagem à Minimal, que havia acabado devido ao meu desentendimento com meu ex sócio. Mas fluiu tão bem que teve a segunda parte, estamos na terceira e ainda terá a quarta. Substituo as fotos a cada três meses e pretendo encerrar em 28 de fevereiro de 2010.
Boteco - Uma maneira de manter seu trabalho vivo, mesmo com o site fora do ar?
Porão - Exato. Muitos estrangeiros frequentam a Plano B. Eu acho legal que essas pessoas conheçam meu trabalho. Na verdade, eu visto a camisa da Plano B e é uma honra poder decorar a lojinha. Mas há um fato: minhas fotos já foram vetadas em sex shop da Tijuca, em galeria de Arte em Friburgo, em festinha de burguês metido a esotérico do Leblon. Só na Plano B tenho espaço.
Boteco - Já vetaram suas fotos até em sex shop?
Porão - Sim, eu estava tentando vender ensaios fotográficos como uma espécie de estímulo para casais em crise. A gerente era muito simpática e adorou a boa idéia. O dono da loja vetou. Agora, o mais incrível foi em Friburgo: eu já tinha até mesmo uma data marcada. E a diretoria provinciana e política da galeria "derrubou" minha temporada. Esse tipo de coisa só me faz ter ainda mais amor pela minha arte!
Boteco - Não imaginava que houvesse essa resistência contra seu trabalho.
Maurício - Existe sim, Fausto. É fato!
Boteco - Quando um gringo como Terry Richardson vem para o Brasil, é tratado como unanimidade.
Porão - Pois é. Mas estou acostumado com isso. Minha vida toda tem histórias de preconceitos. sou negão, tenho cara de mau, estou/sou gordinho, sou ex policial. Na boa: foda-se! Sou extremamente antissocial também. Não gosto de playboy e vivo nos submundos da vida.
Boteco - Você é ex-policial?
Maurício - Sim: ex-policial civil de São Paulo. Investigador.
Boteco - É curioso.
Porão - Adorava a polícia. Não gostava da maioria dos colegas, isso sim.
Boteco - A gente costuma associar polícia com repressão e autoridade. E o seu trabalho como fotógrafo é transgressão e marginalidade.
Porão - Eu penso que a polícia me permitiu desenvolver um lado bem humano, inclusive. Você fica ali na linha tênue da desgraça alheia. Dentro da policia tem banger, góticas, gays....e tem muita gente estúpida também. Como em qualquer outro contexto social. O meio jornalístico, por exemplo (sou jornalista de formação), acho um nojo.
Boteco Sujo - E os fotografados, o que eles acham dos resultados?
Maurício Porão - Bem, nesta pergunta não poderei ser modesto. Já salvei a auto-estima de várias pessoas, que são gratas a mim eternamente. Por isso, nunca vou parar de fazer esta minha vida atual. Tenho relatos guardados em minha memória que até me fazem lacrimejar. Para algumas (muitas) pessoas que interpretam o resultado dos ensaios de forma errônea, tenho uma frase de Say Baba que funciona muito bem: "Quando cenas sagradas são implantadas no coração, não haverá espaço para sentimentos ou pensamentos ruins crescerem nele".













23 Meteram a boca:
Dirty, filthy!
Muito bom hein
Você começou a apresentação com: frequentados por putas, punks e podres em geral.
Podres em geral?
Não é para desteriotipar um universo mal interpretado? Você compro ou não comprou a idéia dele?
Eu não achei inovação nenhuma, nem transgressão... mas o resultado esteticamente é muito bacana, muito bonito.
E outra coisa amigo Porão, e se amanhã um bando de playboy gostar do teu trampo e botar numa galeria? Vc vai mudar de opnião?
Seu problema está mais para o comum (trabalho comum), do que para sua cor e cara de mal...
Mas afinal... você se diverte!
Carla, qual o problema com "podres em geral"? Não tem exatamente um juízo de valor aí, é mais uma identificação do universo. John Lydon se autodenominava podre. Os Garotos Podres, também. E Johnny Gyobutsu.
Lindas fotos! poéticas ao extremo... só falta uns homens com cabelos compridos e tatuagens, tipo Peter Steele. Homens nus são tão interessantes quanto mulheres, eu diria... até mais.
Adorei o trabalho do Porão!
Si-nis-tro! Mas tem seu valor!
;]
Lindas as fotos. Parabéns pelo seu trabalho criativo.
gostei muito mesmo, adoro essa coisa meio underground, acho que tem muito valor.. e realmente, as mulheres dessa "cena" muitas vezes sabem ser 1000 vezes mais femininas do que qualquer modelo magrela.
Um trabalho diferente, se não fosse pelas paredes descascadas de algumas fotografias, eu diria que está otimo, sabe por que , porque e inovador mesmo, e além de tudo econômico....HAhahaha. Continuando eu diria que as fotografias estão ótimas e com um ar de mistério por parte das modelos, cada foto parece ter sido tirada nos anfiteatros romano e grego. Só não gostei mesmo das paredes descascadas, dão uma idéia de sujeira e isso incomoda sabe.Mas sinceramente muito bom mesmo, tente não tirar nas paredes descascadas que vai ser uma obra de arte. Acredite!
Uauau,
será que já acabou a parada da universitária?
Tomara né?
Enfim de novo o que gostamos (eu pelo menos). Mulher pelada, ou quase.
Bicho, este Porão é do bom cara!
Tá tudo lá, tudinho, a cara das moças a parede descascada, o descompromisso.
Bacana demais.
Lamp
Lampião,
sim. Sem trocadilhos, mas Geisy já deu.
Muito boas as fotos, com certeza uma melhor alternativa para as "musas" siliconadas e photoshopadas das atuais revistas masculinas. Cara, acho q o bom é retratar isso como vc faz: mulheres como elas são, as mulheres de verdade....parabéns pelo trabalho
Fausto, obrigado por voltar a ser o Fausto e acabar com esse assunto da Uniban. Tava enchendo o saco.
Porão, ótimo trabalho, meu amigo. Continue! Sou fotógrafo e sei que o mais difícil para nós, não é necessariamente a fotografia - ao contrário do que a maioria pensa, mas sim encontrar um bom assunto, um bom mote, e seguir com ele.
Você, além de ter conseguido, obtém ótimos resultados fotográficos. Está bem localizado, já que no Rio é mais fácil encontrar pessoas dispostas a serem fotografadas dessa maneira. E não mude em nada os seus cenários. Fotografar em estúdio, com flash próprio, rebatedor e cenário montado, é fácil. Paredes descascadas, sim!
Se eu morasse em um lugar menos conservador, daria um jeito de tentar arrumar uma exposição pra você aqui. Mas infelizmente não dá.
Grande abraço e boa sorte.
Mr. porão, muito bom seu trabalho! continue assim!!!
Mr. porão, muito bom seu trabalho! continue assim!!!
PARECE QUE O PESSOAL , OS HOMENS, GOSTARAM DA PAREDE DESCASCADA! deu o que falar não e mesmo? Mas realmente ali nas suas fotos , ainda que em casarões abandonados estão mesmo ótimas , somente como disse não gostei das paredes descascadas porque dão uma idéia de sujeira e de descuido. Se voce viaja para alguns países aí, onde o povo preserva tudo e principalmente "o velho" vc pode perceber que existe muita limpeza, as vezes sâ casas tão pequenas e simples, mas sao tão limpas e isso é legal. As modelos simplesmente maravilhosas, parecem ate mesmo profissionais e por isso o contraste e muito bom, mas precisa de certos acertos. Mas repito é uma ideia inovadora, acredito que inédita, sem custos e com um ar de MISTERIO!!!
Obrigada pela resposta Porão, mas nao critiquei, apenas um comentário, porque seu trabalho e realmente fantástico, mas na minha opinião é inovador sim, é uma proposta diferente, e ousado, tanto o cenario como as modelos, simplesmente um belo acaso da arte! Continue, isso promete!
de muito bom gosto o trabalho do Porão... o cara tem um tremendo senso de estética. Muito interessante.
Helen
Gostei muito das fotos nesse post, fogem do café-com-leite e produzem expressões inigmaticas ao mesmo tempo atraentes.
As fotos estão muito bem definidas, o tom das fotos, o cenário eu diria inusitado e ao mesmo tempo pertinente a altura da postura das modelos, existe uma harmonia entre os gestos das modelos e suas poses, ha algo de muito diferente, de muita leveza na postura das modelos. Nessa fotos o que mais chama a atençao, e saber que a simplicidade com qualidade podem fazer um excelente trabalho. Valeu!
ADOREI O POST, ALÍAS, ADOREI SEU BLOG... VOU MENCIONÁ-LO NA MINHA LISTINHA DE BLOGS FAVORITOS! BEIJOSSS E PARABÉNS!
Porao, nota 10! A ultima foto ficou absolutamente sensacional, parece mais uma pintura. Sucesso!
Porão,
Gostei, achei bom. Não sei se qualificar de inovador é relevante. O que ficou claro
para mim é que é seu, é assinado. Isso para mim é relevante. Eu fico puto quando esses gringos vem aqui, empilham gente nua, pintam com o caralho e todo mundo acha genial. Não sou xenófobo e é claro que tem muito gringo bom, mas não dar valor aos nossos artistas é de foder. Eu também prefiro os outsiders, acho que tem mais vida sempre. Quem não se lembra do Bukowski? Tenho certeza que você vai encontrar um espaço digno do seu trabalho é uma questão de tempo e paciência.Parabéns! Eduardo Adauto.
Obrigado a você e ao Fausto que nos proporcionou te conhecer.Tudo de bom!Quem sabe os gringos........!
Abcs e sucesso. Eduardo
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