E paz na terra aos homens de boa vontade
Algumas datas são especiais.
A gente gosta de acreditar que a desgraceira que nos rodeia durante todo o ano deveria tirar folga em algumas datas, como Natal, Páscoa, Ano Novo. Por causa da misericórdia de Deus, que naqueles dias olharia para baixo envergonhada do péssimo serviço que fez. Por causa da esperança. Por causa dos astros. Por causa dos perus sacrificados, do Papai Noel, dos comerciais de Coca-Cola, do Roberto Carlos, sei lá.
25 de dezembro é uma data especial. Não é o dia para interrogar um homem suspeito de tentar estuprar uma menina de quatro anos. Esse tipo de merda acontece todo dia, mas não deveria ser assim numa data especial.
Acima de tudo, é preciso evitar o trauma da criança. Ela ainda não sabe exatamente o que aconteceu com ela. Aquela menina esperta, que brinca de esconde-esconde com a soldado na sala do delegado, só sabe que um vizinho entrou no seu barraco, quando ela estava sozinha. Que, uma vez ali, aquele "homem ruim" a arrastou para a cama, arrancou sua calcinha com os dentes e que ia tentar fazer alguma outra coisa com ela. E que só não fez porque o seu tio entrou em casa e mandou o "homem ruim" embora.
A soldado vai ao barraco e confirma: caída atrás da cama, está a minúscula calcinha rasgada. Ela e os colegas conseguem impedir a multidão de linchar o estuprador e o levam algemado. Antes de chegar à delegacia, os PMs conseguem fazê-lo confessar, usando uma técnica diferente da tradicional. Em vez do soco, o logro:
— Escuta — diz a soldado. — A casa caiu. A família já estava desconfiada de você e colocou uma filmadora na casa. Ela pegou tudo. Se você contar tudo o que fez, do jeito que está na fita, vai ser melhor para você.
O estuprador "se abre como uma rosa". Conta tudo. Do momento em que entrou no barraco de pau duro até a hora em que saiu correndo de lá. Na frente do delegado, ele repete tintim por tintim. E assina. Redondinho.
A criança também deve ser ouvida. Mas o trauma precisa ser evitado. Ela tem quatro anos, não pode perceber que está sendo ouvida pela polícia numa delegacia, e o que isso significa. A soldado olha em volta e vê os pacotes de presentes doados pela comunidade para ser distribuída pela PM. No meio deles, há um gorro de papai-noel, que a policial resolve colocar na cabeça.
— Eu sou a Mamãe Noel — a soldado se apresenta à garotinha. — Aquele lá é o Papai Noel — e aponta o delegado.
— Rô, rô, rô — é a risada do delegado, atrás do computador. — Eu preciso falar com você, garotinha. Vou escrever uma carta para o Papai do Céu deixar aquele homem ruim de castigo. Eu preciso contar para o Papai do Céu o que ele fez. Rô, rô, rô.
Entre uma e outra pausa para brincar de esconde-esconde com a Mamãe Noel fardada e o Papai Noel sem barba, a menina vai contando, alegremente, como escapou de ser devorada pelo ogro.
Algumas datas são especiais.
(Texto originalmente publicado em 2004, no meu falecido blog Longa Jornada Noite Adentro, sobre os bastidores da reportagem policial)


17 Meteram a boca:
Estas datas já são deprimentes demais.
Vai por mim Fausto, mulher pelada é melhor.
Vai por mim.
Lamp
Infelizmente a crueldade do homem não tira férias!
O que dizer depois de ler esse texto?
Deveriam linchar todos os molestadores de crianças e fazer uma ceia com o peru deles.
Muito, muito bom o texto.
Só uma observação: o trauma já se estabeleceu e a menina sabe sim o que o "homem mau" ia fazer com ela. Criança não é adulto em miniatura, nem boneca assexuada. Com 4 anos já passou por muita coisa Fausto. Esse blog ainda está ativo, dá prá ler os textos?
Bem observado, Nina. Talvez o mais correto fosse dizer que usaram a técnica do Papai Noel para tornar o depoimento menos traumático?
O blog foi tirado do ar pela versão brasileira do Blogger, aquele site sem-vergonha comandada pela Globo. Dá para ler os arquivos velhos no Wayback Machine, como está lincado aí em cima. Mas acho os textos mais interessantes já estão reunidos aqui: http://www.botecosujo.com/search/label/Longa%20Jornada%20Noite%20Adentro
Pô, Fausto. O seu também anda bem legal! Você viu que perdi o domínio do virgem, Maria? Agora é .blogspot.com, mesmo. Parece que um alemão comprou o meu também.
Você recebeu um e-mail que te mandei há uma semana, mais ou menos? É que saiu uma coluninha minha numa revista.
Abraço e feliz ano novo!
Pois é Fausto... como ela vai se virar com o "trauma" é a única coisa que podemos apostar: tomara que bem!
To lendo os posts antigos, já li até 2007. Mais que excelentes! Vc está escrevendo bem diferente atualmente...
Abçs
E ae Fausto!? Feliz 2010 pra ti rapaz! Muito sucesso e conquistas!!!
Agora... Tô louco pra ver tua abordagem da situação do Bóris Casoy. Lamentável!!! Literalmente "Uma vergonha!"!!!
Abraços!
Mais uma na Roosevelt, também na frente do Parlapatões (só pode ser zica). Um mendigo foi assassinado hoje: http://tsavkko.blogspot.com/2010/01/assassinato-na-roosevelt.html
Texto incrível, Fausto.
Ah, Rodrigo, não curto muito batalhões de linchadores. Está todo mundo metendo o pau no Casoy, agora é fácil ir na onda e chutar o cara.
O que me espanta é que só tenham começado a malhar o babaca por conta de uma besteira que ele disse in off. E as incontáveis bobagens que ele vem dizendo in on ao longo dos anos?
Muito triste a situação da Roosevelt, Raphael. E a prefeitura tem uma grande parcela de culpa. Vou escrever sobre isso, me cobre.
Não é só você, Nadja. Época de Natal e Ano Novo são as preferidas dos suicidas.
Lindo texto, véi.
Olá Fausto! Estava dando uma olhada no site da Folha Online e vi algumas coisas sobre você e seu blog.
Achei muito interessante!
Se permitir, volto sempre!
Até mais!
Ôi Fausto,
Também não gosto de natal e ano novo pelos mesmos motivos que todos falaram aqui. O seu texto, além de emocionante, é primoroso! Que estória é essa que a Globo controla o Blogger? Conta mais para a gente! Ah, Fausto, fiquei muito feliz em saber que o Bortolotto já está em casa em franca recuperação. A entrevista dele é lapidar, consciente, sem rancores menores e acima de tudo lúcida.
Grande abraço, Eduardo Adauto.
Porra. Tem uma delegacia assim, em que a detetive vira mamãe noel e o delegado faz ho...ho...ho ?!
Então. Apesar de eu não entender e não ser adepto, parece que rolou o Espirito do natal.
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