24 de setembro de 2009

Kazinho, o eterno boêmio

O boteco continua sujo, mas anda bem frequentado. Quem apareceu por aqui foi o Matheus Trunk. Figura rara esse Matheus: mal saiu da faculdade, mas já é um dos talentos mais promissores do jornalismo que já conheci. Tem uma qualidade muito rara entre os jornalistas da sua idade: ele sabe que a verdade está lá fora, muito além da internet.

Matheus é um historiador de fatos e pessoas injustamente esquecidos, do tipo que gosta de falar com gente velha e meter a mão na poeira dos sebos e dos arquivos. Manja mais de história do cinema paulista e música brasileira do que muito pesquisador reconhecido por aí.


O cara me mandou uma entrevista com uma antiga figura da boêmia paulistana, tão importante quanto esquecida. Merecia ser publicada em lugar melhor, mas o Matheus resolvê-la desaguá-la em meu boteco. Valeu.

Conheça Kazinho, que já tomou tiro ao fazer serenata para casada e arrumou uma treta com Adoniran Barbosa por causa de "Saudosa Xoxota", a versão aprimorada de "Saudosa Maloca" que ele cantava para as putas.



Por Matheus Trunk

“Sempre fui boêmio. Mas sempre me cuidei. Por isso, vou chegar aos 120 anos”, brinca Oscar Azevedo dos Santos, o Kazinho, 81 anos. Natural de Belém, capital do Pará, ele chegou em São Paulo em 1963 e se tornou um dos grandes nomes das noites paulistanas, sendo um artista muito conhecido nos fins de noite da capital paulista. Além do samba, Kazinho ganhou a vida como técnico contábil.

Como compositor, Kazinho foi gravado por artistas de renome nacional como Germano Mathias, Ciro Monteiro, Noite Ilustrada, Demônios da Garoa, entre outros. Nos anos 60, gravou seu único disco como cantor (O Samba Como Ele É). Para entrevistar este eterno boêmio, me desloquei até o Engenho Velho, extrema zona leste de São Paulo. Neste relato, Kazinho fala sobre os bons tempos da maior metrópole do país, de como fez suas músicas e faz um balanço de sua vida e carreira.

Boteco - Como o senhor começou a se interessar por música?

Kazinho -
Eu nasci em Belém do Pará. Comecei a gostar por causa de papai e mamãe. Os dois eram cantores e violonistas. Quando eu tinha quatro, cinco anos eles formaram um bloco carnavalesco. Papai chutava umas boas, mas mamãe não gostava disso (risos). Ela dizia: “Olha aí Oscar. Seu pai já vem dançando foxtrote rápido”. Depois que ele morreu, ela passou a beber também.

Boteco - O senhor já torcia pro Paysandu?

Kazinho -
Sempre fui torcedor do Paysandu. Fiz parte do juvenil do time quando eu tinha dezesseis, dezessete anos. Eu tinha uma fama de ter a testa dura. Quando eu pulava, os outros jogadores tinham medo de pular comigo com medo que eu desse testada neles. Por isso, o pessoal me respeitava bastante. Eu sempre gostei de jogar nas extremas, seja no ataque ou na defesa. Nunca gostei de jogar no meio.

Boteco- Quais cantores o senhor tinha como ídolos?

Kazinho- Eu sempre fui fã do Ciro Monteiro. Outro que eu admirava era o Dilermando Pinheiro. O Dilermando cantava acompanhado por um chapéu de palha dele. Ele bebia muito, morreu muito novo.

Boteco- O senhor chegou a conhecê-lo?

Kazinho- Sim.

Boteco- Ele usava o chapéu de palha como o Luiz Barbosa.

Kazinho - Sim, ele era uma espécie de discípulo do Luiz Barbosa.

Boteco - Como ele era?

Kazinho - Meio calvo, bem carioca. Quando a gente saia era um sarro. Ele falava: “Ei, Kazinho, não precisa vir me bater, não”. Ele com aquele chapéu de palha era um negócio. Ele ia gravar um samba meu, mas ele morreu. O Dilermando chegou a aprender a letra toda, mas depois o samba acabou não sendo gravado.

Boteco- O Ciro o senhor também conheceu? Quando foi isso?

Kazinho - Eu cheguei ao Rio em 1950. O Ciro eu conheci em 52, por aí. Ele me chamava de sobrinho, porque eu usava o cabelo igual ao dele. Chegava na roda de samba, ele falava: “Olha, chegou agora o meu sobrinho”. Ele era bom de porrada, mas quando ele ficou com idade me falou: “Meu sobrinho, estou ficando triste porque eu não agüento mais uma briga” (risos). Eu sabia todo repertório dele.

Boteco - O Geraldo Pereira o senhor chegou a conhecer?

Kazinho - Cheguei. Ele também era um cara bom pra xuxu. Como as pessoas morrem assim? Pelo que eu ouvi contar ele foi desafiar o Madame Satã. Parece que ele tomou umas a mais e desafiou ele. Como é que pode? O Madame....O cara era bicha mas era bom de porrada (risos).

Boteco - Como era a Lapa do Rio nos anos 50?

Kazinho - Era lugar de boêmio. Tinham os caras bons de porrada, mas a maioria eram boêmios somente. Eu cantei no Cabaré Brasil durante muito tempo. Tinha muita mulherada e eu gostava de ver elas trocando de roupa. O diretor da boate me falava: “Kazinho, avisa a Lu que tá na hora dela entrar”. Eu chegava e a moça ainda estava nua (risos). Graças a Deus, eu tive muita mulher na vida (risos). A minha história na noite tem várias passagens interessantes.

Boteco- Por que o senhor veio pra São Paulo?

Kazinho - Naquele tempo, eu vivia indo de um emprego pra outro. Boêmia né? Nessa época, eu já trabalhava com contabilidade. Aí eu falei: “Eu vou pra São Paulo, não vou mais ficar aqui”. Os outros músicos da noite falaram pra mim: “Kazinho, não vai que os paulistas são fechados. Você é não vai conseguir se adaptar”. Não me queixo de São Paulo. Logo eu arranjei emprego. Eu vim aqui como representante comercial e depois ia pro samba.

Boteco - O senhor me falou que os compositores Venâncio e o Corumba ajudaram muito você quando você chegou em São Paulo. Fale sobre eles.

Kazinho - Eles me orientavam muito. Foram os meus pais quando eu cheguei aqui. Gostavam de ver que eu estava na linha, usando roupas finas. Antigamente, todo mundo pra sair tinha que usar terno, gravata, essas coisas. O Venâncio era mais mão aberta.

Boteco - Como o senhor ganhou o apelido de Kazinho?

Kazinho - Gozado. Como o meu nome é Oscar, o pessoal me chamava de Kazo. Então com o tempo acabou ficando Kazinho.

Boteco - O senhor acha que teria mais chance de aparecer como cantor e compositor no Rio?

Kazinho - Não, eu tive mais chance em São Paulo mesmo. No Rio, eu gravei somente um compacto com uma canção chamada Mulher de Compromisso. O José Messias não queria trabalhar o meu disco porque dizia que eu estava fazendo apologia ao cara que ficava com a mulher dos outros. O Zé Messias gostava muito das minhas coisas.

Boteco - Em São Paulo, em que lugares o senhor cantou?

Kazinho - Hoje, todos esses lugares não existem mais. Cantei muito no Brás. Lá tinham várias casas noturnas. Cantei em bares, boates, cabarés.

Boteco - Como era o Caco Velho?

Kazinho - Ah, eu conheci ele no final de vida. Ele tinha um escritório na rua Barão de Itapetininga. Eu conversei várias vezes com ele. Eu queria passar uma música minha pra ele gravar. Ele me falava: “É complicado, meu filho, mas eu já tenho um repertório anotado”. Ele era um cara bom e não era metido a besta. Tem cara que tem um nomezinho e já sobe em pedestal.

Boteco - Como o senhor conheceu o Germano Mathias?

Kazinho - Foi no ambiente noturno. Depois, ele ouviu as minhas músicas, gostou e acabou gravando cinco. Ficou muito meu amigo e me ajudava muito. O Germano nunca foi um cara metido a besta, também. O pessoal fala que ele era de porrada, mas ele nunca foi. Sempre foi um grande gozador.

Boteco - Como o senhor fez Eu e a Saudade Pela Rua?

Kazinho - Isso eu fiz quando eu me separei da minha primeira esposa. Eu gostava muito dela. Mas eu vivia com outras mulheres, na rua, no samba, mas sempre lembrava dela. Por isso, acabei fazendo esta canção.

Boteco - As músicas românticas do senhor sempre foram inspiradas em musas?

Kazinho - Sempre. Inclusive eu estive recentemente no Rio visitando a minha filha. E encontrei com a minha primeira esposa. A gente se dá bem. Ela está com outro cidadão, mas a gente se respeita muito. Maura é o nome dela. Ela continua bonita, até hoje.

Boteco - Ela sabe que essa música foi feita pra ela?

Kazinho - Sabe.

Boteco - Deu a Loca na Nega também foi pra uma mulher?

Kazinho - Sim, foi pra Lúcia, minha segunda esposa. Infelizmente, ela já faleceu. Como eu te disse, eu era muito boêmio. A nega coitadinha, sofreu muito com a minha boêmia. Eu não maltratava ela, mas de vez em quando eu sumia (risos). Eu ficava dois ou três dias longe de casa (risos). Um dia ela ficou tão louca que chegou a ir na polícia para procurar por mim. Ela foi no IML porque diziam que tinha um Oscar lá. Parece que o camarada era realmente parecido comigo e ela pensou que era eu. O Jorge Costa gozava muito ela: “Estão pedindo pro Kazinho cantar o Deu a Louca na Nega”. No fim, ela mesmo incentivou eu a cantar a música. O Jorge Costa era um gozador...

Boteco - O senhor conheceu ele aqui em São Paulo?

Kazinho - Sim. Com o Jorge Costa a gente fazia uma gozação com ele. A gente falava que ele tinha uma rola que não era brincadeira. Ele ficava puto: “Porra, vocês estão me estragando”. Eu falava pras namoradas dele: “O Jorge Costa tem uma rola que vai rasgar você no meio” (risos). As mulheres ficavam loucas e ele mais puto ainda: “Porra, a mulher queria dar pra mim, agora não quer mais” (gargalhadas). São passagens da noite que a gente não esquece.

Boteco - É verdade que o Jorge era um cara politizado? De esquerda?

Kazinho - Era, sim. Mas não era um cara metido. Só tinha pose. Você chegava nele e ele te atendia na hora. Ele era dono de vários sucessos como compositor. O Jair Rodrigues gravou as coisas dele. O Jorge Costa me tornou bastante conhecido na noite. Ele cantava O Samba Como Ele É nos shows dele. Ele e o Guaracy do Pandeiro me tornaram mais conhecidos. Quando eu cheguei do Rio, eu ainda não era conhecido. Ele tornou a minha música muito conhecida na noite de São Paulo. Quando eu cheguei, já estava feito por eles. Infelizmente, os dois já foram embora.

Boteco - O Jorge teve problemas no final de vida dele?

Kazinho - Não, ele estava bem. Mas depois ele adoeceu e não sei o que deu nele. Fui visitá-lo no hospital e ele não conseguia me reconhecer. Estava enrolado na cama. Eu falei pra enfermeira: “Agora ele vai me reconhecer”. Comecei a cantar O Samba Como Ele É e no mesmo instante ele me falou: “O Kazinho....”. Como uma música marca as pessoas...


Boteco - E o Noite Ilustrada? Como o senhor conheceu ele?

Kazinho - O Noite foi meu companheiro de vida boêmia. Primeiro eu fazia a contabilidade dele. Ali nos conhecemos e foi outra pessoa que me deu um empurrão na noite. Ele também era boêmio, safado. Chegava aquela mulherada, duas, três mulheres. Ele falava: “Olha, menina, o Kazinho está sem mulher nenhuma. Fica com ele lá” (risos). Uma vez eu saí com o Noite e ficamos bêbados. Ele voltou dirigindo. De repente, quando eu me dou por mim nós estávamos fora de São Paulo. Eu falei pro Noite: “Mas porra, quem disse que eu moro aqui?”. Ele ficou me sacaneando: “Porra Kazinho, você nem sabe mais onde mora” (risos).

Boteco - Como era o relacionamento do Noite com o Ataulfo?

Kazinho - Era como eu e o Ciro Monteiro. Ele tentava ter o mesmo estilo do Ataulfo. O artista do passado era boêmio, o artista de hoje é profissional. Isso é bem diferente.

Boteco - O senhor chegou a cantar na Boate Meninão? Era na Alameda Nothmann...

Kazinho - Eu cantei muito ali. Numa boate atrás da Igreja de Santa Cecília. Alameda Nothmann. Agora acabou, né?

Boteco - Acabou.

Kazinho - Mas era gostoso. Você andava na noite e não tinha medo de ninguém, não era assaltado. Hoje, o cara te assalta de dia.

Boteco - O senhor chegou a conhecer Mauricy Moura?

Kazinho - Claro. Bebi muito com Mauricy Moura. Ele era muito boêmio e bom cantor também. Acompanhei ele tocando pandeiro várias vezes. Uma vez, estávamos em um bar tocando samba e ele cantando as músicas bonitas que ele cantava. Chegou um policial e falou: “Vamos lá pra delegacia”. Quando foi a minha vez, eu dei o meu nome e tudo. Me perguntaram o que eu fazia. Respondi: “Eu estava tocando com o Mauricy Moura”. O policial me falou: “Mauricy Moura? O que esse cara faz aqui. Se está com Mauricy não tem problema" (risos). Ele era conhecido até pela polícia. Ele já morreu, né?

Boteco - Sim. E dizem que ele morreu com pouca grana.

Kazinho - Ah, Mauricy era boêmio. Como eu, sempre fui um cara boêmio. Hoje, não tenho nada, graças a Deus (risos). Eu tenho somente meus utensílios, um toca discos e algumas coisinhas. Tenho uma máquina de escrever. Mas eu sempre tive roupas bonitas, sapatos caprichados...

Boteco - Estou vendo. O senhor usa relógio, corrente...

Kazinho - O boêmio sempre anda bonito. Eu era um cara metido a comedor. Então, tinha que andar bonito pras meninas me pegarem (risos). Por isso, eu acho que cheguei aos 81 anos e estou assim. Muita gente não acredita que eu estou com essa idade. O Germano Mathias que me enche o saco: “Kazinho, você mete ainda?”. Respondo pra ele: “Agora. pra fazer isso, eu tenho que fazer oração” (risos). Germano é um sarro.

Boteco - O senhor chegou a conhecer o Moraes Sarmento? Ele ajudava muito os cantores da noite de São Paulo.

Kazinho - Esse era meu fã. Moraes Sarmento tinha um programa e eu fui lá cantar. Ele me falou: “Kazinho, não é esse ritmo de samba que você tem que cantar. Você tem que cantar com regional". Quando eu dei o disco pra ele, eu estava cantando acompanhado com piano, baixo e bateria. Depois, eu passei a cantar com conjunto e batendo no pandeiro. Eu não era Bossa Nova, eu sempre fui do samba autêntico, antigo, dos boêmios.

Boteco - Outro cantor da noite de São Paulo muito importante foi o Lúcio Cardim. O senhor chegou a travar contato com ele?

Kazinho - Foi muito meu amigo. Eu estava numa boate no centro cantando. Tinha lá um delegado, uns políticos e a moça me falou: “Está na hora de outro rapaz entrar”. O delegado falou: “Se o Kazinho sair de cena eu prendo todo mundo aqui e não tem mais boate. O Kazinho tem que cantar”. Esse garoto que ele não deixou entrar era o Lúcio Cardim.

Boteco - Uma música de autoria do senhor, Isto É São Paulo, foi gravada pelos Demônios da Garoa. Como o senhor fez esta canção?

Kazinho - Todo ano eles tocam essa música no 25 de janeiro, quando é aniversário da cidade. Eu estava cantando na noite, numa boate que o Jorge Costa tinha. De repente, eu cantei este samba. Os caras do Demônios da Garoa estavam observando a minha apresentação. Eles gostaram da canção e chegaram em mim: “Kazinho, vai lá que nós vamos gravar o seu samba”. Eles gravaram e é a música que mais me deu direito autoral. Infelizmente, a imprensa só destaca as músicas do Demônios que foram feitas pelo Adoniran. E os outros compositores, como ficam?

Boteco - O senhor chegou a conhecer o Adoniran?

Kazinho - Sim. Conheci logo quando eu cheguei em São Paulo. Um amigo me apresentou: “Esse aqui é o Kazinho, um cantor de boates e cabarés do Rio”. Ele mandou eu cantar. Aí eu cantei Saudosa Maloca. O Adoniran me elogiou: “Gostei, menino, gostei. Você tem a voz bonita”. Depois, o colega que me trouxe do Rio sabia que eu tinha uma letra de putaria, uma paródia da música do Adoniran. Quando eu saia do cabaré do Rio, as putas me levavam para um bar que elas tinham e falavam: “Kazinho, canta aquela música sua, Saudosa Xoxota(risos). Nesse dia com o Adoniran eu cantei essa paródia e ele ficou bravo: “Eu gostei de você. Você cantou bonito, mas depois que você cantou isso e esculhambou o meu samba”. Depois ficamos amigos e ele acabou me quebrando o galho várias vezes.

Boteco - O Noite se dava bem com ele?

Kazinho - Sim. O Noite se dava bem com todo mundo. Ele também jogava futebol e bem. Mas ele era boêmio, como eu. Agora estou aposentado. O Noite gravou com todo mundo.

Boteco - Por que o Noite assinava as músicas como compositor como Marques Filho?

Kazinho - Com o tempo, ele passou a usar o nome verdadeiro como compositor e como cantor usava o pseudônimo de Noite Ilustrada. Ele falava que ficava chato samba do Noite Ilustrada cantado pelo Noite Ilustrada.

Boteco - Tinha uma casa noturna bastante importante aqui em São Paulo chamada Jogral. O senhor chegou a se apresentar lá?

Kazinho - Meu filho, ali era um local que só iam as feras. Só os melhores.Fiquei lá poucas vezes. Nunca fui contratado pelo Jogral, mas algumas vezes me apresentei lá.

Boteco - O senhor chegou a conhecer o Nelson Gonçalves?

Kazinho - O Nelson eu conheci aqui em São Paulo mesmo. Numa noite, eu contei pra ele uma passagem que eu tive com dezenove anos em Belém do Pará. Um camarada naquela época me deu cinqüenta mil réis pra eu fazer uma serenata pra namorada dele. Ele só não me disse que a mulher era casada (risos). Eu estava todo contente cantando a música e o marido dela deu três tiros. Ele não me acertou, mas deu pra assustar. Fiquei atrás de uma mangueira. Em Belém, sempre teve muita mangueira. O Nelson ficava me gozando: “Pô, Kazinho vais cantar pra uma mulher casada? Queria ser recebido com flores? Tinha que ser recebido com bala, mesmo” (risos).

Boteco - A Cláudia Barroso foi uma cantora muito famosa aqui na noite de São Paulo. O senhor teve muito contato com ela?

Kazinho - Claro. A Cláudia era uma boêmia formidável. Bonitona, amiga e muito boêmia. Eu também parei com a noite, não sei como ela anda. Aquela turma daquela época parece que era tudo uma grande irmandade.

Boteco - O senhor acha que havia menos concorrência entre os artistas?

Kazinho - Não havia isso. E não existia maldade entre os cantores. Se você estava duro, o cara chegava pra você: “Olha, Kazinho, está aqui, fica com esse dinheiro”. Muitas vezes você nem precisava pagar. Uma vez eu me vi perdido com um bando de chineses e todos queriam me dar porrada (risos). Essa menina, a Cláudia Barroso, chegou e falou com eles: “O Kazinho é meu amigo. O que aconteceu?”. Falei que eu não queria confusão. Mas eles me botaram na roda e queriam me prejudicar (risos). Hoje, os cantores querem tomar um o lugar do outro. Não se respeitam tanto.

Boteco - O senhor tem outras dessas histórias da noite de São Paulo?

Kazinho - Bastante. Tive um grande amigo que era violonista. Ele sempre andava bem vestido, com gravata borboleta e tudo. O nome dele era Geraldino. Ele tocava bem, cantava e brigava muito bem. Bebia legal e mexeu com tóxico. Uma vez ele estava fora de circulação e entrou numa igreja. O padre estava fazendo o sermão e ele ficou gritando: “Muito bem seu padre! Muito bem!” (risos). É a droga. A bebida faz você ficar mandrake, mas depois o efeito passa. A droga marca as pessoas...

Boteco - O senhor chegou a fumar cigarro?

Kazinho - Uma vez somente. Quando eu tinha treze anos, aquela meninada escondida de pai e mãe. Eu me engasguei três vezes e nunca mais quis saber de cigarro. Durante um tempo de onda, eu usei um cachimbinho. Teve um episódio meu com outro amigo cantor. Nós estávamos ali perto da Praça da República. Tinha uma boate muito famosa que a gente freqüentava muito. Estávamos com um pessoal grande e eu cochilando. O cara ficou me zoando: “Porra Kazinho, todo mundo aqui alegre e você cochilando. Toma uma dessa que você fica esperto”. Ele me deu uma bolota e eu tomei aquela porra. Mas fiquei esperto mesmo (risos). Fiquei tão esperto que quando acabou eu saí, atravessei a 24 de Maio e fui embora. Nessa época, eu morava no edifício Martinelli, mas não conseguia chegar lá. Pensei: “Puta merda, eu nunca mais vou ficar esperto e não vou tomar essa porra nunca mais”. Poxa, fiquei tão esperto que eu não sabia onde morava. Todo mundo que mexeu com tóxico acabou se dando mal. Como o Elvis Presley, o rei do rock. O cara morreu com 45 anos. Poxa, um cara boa-pinta, cantava bem, tinha toda mulherada na mão dele. Uma bebidinha tudo bem, mas tóxico te faz um mal danado.

Boteco - O Vinícius de Moraes falava que São Paulo era o túmulo do samba. O senhor acredita nisso?

Kazinho - Eu nunca acreditei nisso. Eu pelo menos vim a me apresentar mais aqui em São Paulo. No Rio, eu tive poucas chances. Comecei a cantar na mesma época que o Miltinho. A minha voz sempre foi muito parecida com a dele. Quando eu estava gravando o Mulher de Compromisso, o pessoal me perguntava: “Poxa, qual é o seu nome?”. Eu falava: “Kazinho”. Eles respondiam: “Mas sua voz parece muito com a do Miltinho”. É a voz nasal, muito parecida. Eles pensavam que era o Miltinho, mas era o Kazinho.

Boteco - O senhor casou quantas vezes?

Kazinho - Duas vezes. A primeira foi com a mãe da minha filha e a segunda eu fiquei mais tempo. Com a primeira foi aquela coisa de criança, mas eu gostei dela e gosto muito. Foi muito legal. Ninguém tem raiva um do outro.

Boteco - Pra quem o senhor fez Como é que pode?

Kazinho - Ah, essa canção foi pra falecida. Ela me incentivava muito. Muitas vezes eu ficava dois dias e três noites fora de casa, mas ela continuava gostando de mim.

Boteco - O senhor conheceu o Plínio Marcos?

Kazinho - Sim. O Plínio gostava muito de mim. Ele fazia reunião na casa dele, e ia um grande pessoal de samba, eu, Talismã. Infelizmente, ele morreu também. Eu devo muitos favores ao Plínio. Ele também me emprestou muito dinheiro e nunca precisei pagar. Falava: “Não precisa, Kazinho, não precisa”, aquele jeito dele. Durante um período aí eu estive em baixa e ele me ajudou muito. Por isso, eu não me queixo da vida. Aos 81 anos, eu ando sozinho pela cidade, sem problemas, não tenho doença e não uso bengala. Deus é muito bom pra mim. Eu só tenho labirintite, tomo remédio e pronto.

Boteco - O senhor ainda bebe álcool?

Kazinho - De vez em quando. Quando tomo, fico três dias sem tomar remédio. Estou com 81 anos. Os colegas me perguntam: “Kazinho, tu ainda mete?”. Eu respondo: “De vez em quando sim”. Eles ficam nas gargalhadas. Comigo é assim: ficou duro tá bom, não ficou também está tudo bem. Eu falo com as moças: “Tenha paciência. Se custar a ficar duro, você tem que fazer uma oraçãozinha” (risos). Tem gente que toma remédio pra isso, mas eu não tomo.

Boteco - Nesses 81 anos, o senhor se arrepende de alguma coisa?

Kazinho - Tenho arrependimento de algumas coisas erradas que eu fiz. Fiquei uma vez com raiva de um cara que ficou sem me pagar. Teve uma mulher de idade no Rio de Janeiro que me emprestou muito dinheiro e eu nunca paguei ela. São alguns arrependimentos.

Boteco - O senhor chegou a fazer parte de alguma escola de samba?

Kazinho - Sim, eu fui compositor da Mocidade Alegre. Faziam parte da escola eu e o Jangada, compositor da antiga também. Ele era muito gozador e falava: “O único aqui que tem capacidade pra falar comigo é o Kazinho”. Também passei pela Imperador do Ipiranga. Desfilei pelas duas e vim cantando o samba na avenida. Eu puxava o samba antes da escola entrar.

Boteco - Das músicas que o senhor fez tem alguma preferida?

Kazinho - Olha...Deu a Loca na Nega é a preferida. Outra que eu gosto muito é Meu Estranho Eu. Essas duas músicas foram para a minha falecida esposa. Ela era manicure, cabeleireira, enfermeira, qualquer coisa que precisasse na vizinhança ela resolvia. Mas teve três derrames e acabou indo embora.

Boteco - Foi a grande mulher da vida do senhor?

Kazinho - Foi a grande mulher. Muito amiga, me dava muito conselho inclusive. Amiga, mulher e conselheira. Ela falava pra mim: “Você precisa se cuidar mais”. Isso porque eu vivia na farra (risos). Mas ela também bebia, tomava uns negócios. Antes de eu conhecer ela, ela dormia com uma garrafa de uísque debaixo do travesseiro.

Boteco - O senhor foi próximo ao Nerino Silva?

Kazinho - Nerino! Com ele tenho algumas histórias engraçadas. Era um malandreco, malandro brigão pra burro. Mas depois ele parou com tudo isso e levou uma vida certa, sem confusão. Eu gostei muito de conhecê-lo. Principalmente na época das loucuras dele.

Boteco - Ele era muito boêmio?

Kazinho - Bastante. Ele era um bom boêmio e bom de briga. Como o meu amigo Geraldino, muito forte na briga também. Eu bebo também. Mas tem que ter hora. Muitos não tinham. Eu sempre soube e por isso cheguei aos 81 anos.

Boteco - O senhor tem irmãos?

Kazinho - Eu tive três irmãs. Duas estão vivas: a segunda e a caçula. Eu sou o mais velho. A segunda é formada em psicologia, é psicóloga. Outro dia ela me ligou nove horas da manhã: “Maninho, sabe o que eu estou fazendo agora?”. Eu falei: “Não sei, meu telefone ainda não tem mostrador”. Ela respondeu: “Eu estou saboreando uma Brahminha” (risos). Poxa! Bebendo ás nove da manhã. Como pode isso? Ela mora no Rio de Janeiro. A Diná, a do meio, já morreu. Ela sempre que vinha pra São Paulo ficava na minha casa. Ela gostava muito de mim, parecia muito comigo. O câncer acabou com ela. Ela e o papai morreram de câncer. Todos foram pro Rio, somente eu fui pra São Paulo.

Boteco - Como o senhor compõe suas músicas?

Kazinho - Isso acontece quando eu sinto alguma coisa. Por exemplo, se alguém arma alguma coisa comigo e eu fico chateado, eu faço um samba dentro desse tema. Eu não forço, porque não vivo disso. Mas eu tenho a impressão que a partir deste ano eu vou voltar a me apresentar.

Boteco - Faz muito tempo que o senhor não se apresenta?

Kazinho - Muito. No carnaval mesmo, eu poderia ganhar uma nota boa cantando. Sempre fiz muito carnaval. Teve um dia, quando eu estava com 55 anos que aconteceu um caso interessante. Um cantor, garoto de 20 anos, pifou no meio do salão. A garganta dele não funcionava mais. Disse pra ele: “Canta as músicas leves e deixa as pesadas comigo”. Eu agüentei o carnaval inteiro e ele pifou. Vinham os copos de bebida, cachaça com limão e ele bebendo bastante. Eu não bebi nada durante a apresentação. Gosto de beber, mas tudo tem hora. Profissional tem que se cuidar. Tem uma coisa: quando vou fazer carnaval, por exemplo, eu tomo uns fortificantes, injeção na veia. Só bebo quando termina tudo.

Boteco - Faz muito tempo que o senhor não volta pra Belém?

Kazinho - Eu saí do Pará em 1950. Desde lá eu não voltei para a minha terra. Em 1963, cheguei em São Paulo. Eu gostava de ser representante comercial, usava máquina de escrever e tudo. Outro dia eu estava usando ela pra redigir algumas canções antigas minhas. A minha vizinha veio e me perguntou: “Puxa seu Oscar, o senhor está escrevendo algum livro?” (risos).

Boteco - Como o senhor fez Consciente pro Noite Ilustrada?

Kazinho - Isso foi quando eu passei para a maturidade, não era mais criança. É bonita essa música: “Meus cabelos brancos chegaram/ Minha mocidade já passou/ Minhas ilusões passaram/ Hoje vivo aquilo que eu sou/ Mas não sou um velho decadente/ Mas sim um homem adulto consciente”.

Boteco - A Volta o senhor fez nesse estilo também?

Kazinho - Sim. O Noite fez uma gravação muito bonita desta canção. Me deixou muito feliz como compositor. Ele tinha uma voz muito bonita, depois teve câncer. Quando ele me falou que o cabelo dele estava caindo, eu fiquei muito triste. Ele me falou: “Fica calmo, Kazinho. Eu estou me recuperando”. Vixi...quando começa a cair o cabelo, acabou.

Boteco - O Ary Lobo foi muito amigo do senhor?

Kazinho - Foi sim. Ele gravou o Saudades do Meu Pará. O balanço dele era fantástico...

Boteco - Ele era um cara muito famoso?

Kazinho - Ele tinha nome, mas era muito boêmio. Ganhou dinheiro, foi três vezes rico e morreu no banco da praça. Como pode isso? Ele vendia muito disco, era um cara muito bom.

Boteco - O senhor tem alguma mágoa de não ser um artista tão conhecido?

Kazinho - Não. Primeiro: se eu não sou famoso é porque eu sempre fui relaxado. Nunca liguei pra isso. Eu ia nas boates, cantava, fazia sucesso e depois não aparecia mais. Quando eu cantava na noite, eu era mais conhecido porque ficava a noite toda numa mesma boate. Todos me viam lá. Quando eu parei, ninguém me viu mais. Muitos pensam até que eu morri.


Lista de composições de Kazinho gravadas por outros artistas:

Acadêmicos da Paulicéia
Hei de Viver (Kazinho)
Samba no Duro (Kazinho)

Anastacia
Saudade Junina (Kazinho)
Saudade do Meu Pará (Kazinho)

Ary Lobo
Saudades do Meu Pará (Kazinho)

Armando da Mangueira
Hei de Viver (Kazinho)
Chão do Pará (Kazinho/Venâncio)

Baianinha
Saudação aos Orixás (Kazinho)

Ciro Monteiro
Mulher de Compromisso (Kazinho-Aor Ribeiro Filho)

Cleusa Costa
Conjugando (Kazinho)
Garota Gazeteira (Kazinho)

Demônios da Garoa
Isto É São Paulo (Kazinho)

Germano Mathias
Como é que Pode (Kazinho)
Deu a Louca na Nega (Kazinho)
Eu e a Saudade pela Rua (Kazinho)
Meu Viver (Kazinho)
Pressão Baixa (Kazinho)

Lurdinha
Convencido (Kazinho)

Maria Andréa
Barracão Vazio (Kazinho)
Se...(Kazinho)

Noite Ilustrada
A Volta (Kazinho)
Consciente (Kazinho)

Os Pagodeiros do Ritmo
Minha Porta Bandeira (Kazinho)

Renato Tito
Idealizando (Kazinho-Renato Tito)

Roberto Staganelli
Lição de Baião (Kazinho-Aor Ribeiro)
Mulher de Compromisso (Kazinho-Aar Ribeiro)

Wilson Rodrigues
Peça Bis (Kazinho)

Zito Borborema
As Coisas Lindas do Meu Pará (Kazinho)

Matheus Trunk é jornalista. Começou na revista Transporte Mundial e atualmente está no Jornal Nippo-Brasil. Dirigiu a revista eletrônica Zingu! por trinta meses. Mantém o blog Violão, Sardinha e Pão.

18 de setembro de 2009

Looser

É, o Boteco Sujo não levou o Blogbooks. E ainda tomou de lavada: ficou em quinto lugar. Mas valeu ter participado só para ler um texto como esse do mano André.

Seja como for, a idéia de colocar o conteúdo daqui entre duas capas me empolgou. Obrigado a todos os que tiveram o bom gosto de votar no boteco e aguardem novidades.

10 de setembro de 2009

A vida de quem vive da morte - parte 2

Continuação de A vida de quem vive da morte - parte 1

Rogério lava sangue dos corpos no baú do rabecão
(foto Jefferson Coppola)

Às 21h, as mãos de Orestes afagam o sono da sua filha, no quarto dela, em sua casa na Penha. Ontem, a garota passou o aniversário de quatro anos no hospital, com garganta inflamada e febre, típicas para sua idade no tempo frio.

Ela já esta melhor, e o atendente de necrotério já pode sair para o trabalho. O rabecão dirigido por Rogério estaciona na frente de sua casa, na Penha.

— E aí, nega? — os velhos amigos se cumprimentam. É 23 de julho de 2002, começo de mais um plantão.

Duas horas mais tarde, as mãos de Orestes carregam a morte de um jovem sem nome, num escadão da favela do Jardim Etelvina, no Lajeado. Às 16h de ontem, o garoto foi morto com três tiros na cabeça, final comum para sua idade na periferia.

A dupla chegou ao local, na rua Maria Amélia de Assunção, meia hora após a saída dos peritos do DHPP.

— Onde está nosso cliente?— perguntou Rogério, ainda dentro do carro, aos policiais militares encarregados de vigiar o local do crime.

O policial aponta para o corpo do desconhecido caído vinte metros ladeira abaixo. Moradores passam sem se deter pelo cadáver, inclusive um pastor evangélico de terno antiquado, levando pela mão a filha pequena de saia comprida.

Orestes e Rogério colocam o corpo na bandeja. É uma longa subida íngreme até o topo do escadão, onde o rabecão aguarda. A dupla pergunta a um grupo de curiosos:

— Tem alguém que pode dar uma força para a gente?

Dois jovens aceitam segurar as alças traseiras da bandeja morro acima até o rabecão. Aberto, o baú aberto libera um cheiro forte de carniça.

— Carregaram um podrão durante o dia e não lavaram a viatura — explica Rogério.

A dupla precisa seguir os carros da Polícia Militar para conseguir sair do labirinto de vielas. Parte do odor podre chega à cabine. A favela é assustadora em sua paisagem noturna de ruas estreitas, muros de tijolos expostos, telhados de barracos à altura das calçadas e arame farpado fazendo de venezianas. Orestes segura o revólver na mão.

— Nessa área tem que ser assim — comenta.
O atendente de necrotério
odeia velórios.
Os freios guincham alto, como num ônibus velho. Mais à frente, veem um garoto numa bicicleta furar o sinal vermelho e escapar por centímetros de ser atropelado por um ônibus.

— Depois sobra para os trouxas aqui carregar — reclama Orestes.

Às 23h20, descarregam o corpo no IML Leste. Eles estão com outra Silverado: o velocímetro, as sirenes e as luzes agora funcionam. Por outro lado, a suspensão está defeituosa, as portas só abrem por fora e as bandejas de fibra continuam rachadas. Orestes preenche um relatório dentro do prédio, enquanto Rogério aproveita a parada para lavar o sangue do "podrão" que vazou pelas rachaduras durante o dia. O celular de Orestes toca com a música do filme Um Tira da Pesada. É a garota do Cepol avisando sobre um novo corpo. Enquanto anota o endereço, ele aproveita para jogar uma conversa fora e entabular uma paquera.

Orestes carrega um "lampiano", morto a facadas
(foto Jefferson Coppola)

No caminho até o local seguinte, o rádio da caminhonete, em meio aos chiados da estática, informa sobre a perseguição a um assaltante na avenida do Imperador. Não é longe dali. Os dois discutem se devem ir até o local para dar apoio aos colegas.

— Está boa a viatura? — pergunta Orestes.

— Não — diz Rogério, convicto.

— Então deixa para lá — o colega suspira.

Pouco depois, muda de idéia, pega o rádio e avisa que tem condições de ir até o local. A atendente agradece, mas diz que o caso já foi encerrado.

Rogério conta que está tomando um remédio contra alergia.

— Isso é alergia a trampo, seu vagabundo! — brinca Orestes.

— Vagabundo é você, que nunca trabalhou antes de vir para cá — Rogério rebate, e eles prosseguem noite afora na troca de ofensas entre velhos amigos.

A dupla foge ao estereótipo dos papa-defuntos silenciosos, bêbados e mal humorados. Embora mantenham o ar sisudo quando lidam com os cadáveres — "Os mortos devem ser tratados com respeito", ensinam — durante o resto do tempo ambos são velhos amigos trocando gozações e piadas um com o outro. Orestes cabe, na verdade, em outro estereótipo, o do gordo bonachão. Mais magro, o motorista não é menos gozador.

Ambos foram trabalhar com a morte através de laços de parentesco e amizade. Filho e sobrinho de policiais, Orestes sempre soube que seguiria a mesma carreira deles. Antes, trabalhou como monitor da Febem e segurança de hospital, onde perdeu o velho medo de mortos e carros de cadáveres.

Ao prestar concurso na Polícia Civil, Orestes optou por tentar a carreira de atendente de necrotério, incentivado por um amigo de infância que havia seguido a profissão. Aprovado no concurso, Orestes foi escalado para trabalhar com o amigo no seu plantão de estréia, em 29 de setembro de 1992. Dois dias antes, porém, o amigo morreu, baleado por um cobrador de ônibus com quem discutiu a respeito do troco. Há dois anos, foi a vez de Orestes convencer outro amigo de infância, Rogério, a trocar a Divisão de Capturas, onde trabalhava, pelo Instituto Médico Legal. Como as outras, a dupla folga 60 horas para cada 12 trabalhadas, e ganha R$ 1.200 mensais.

Apesar de lidar a cada plantão com cadáveres ensanguentados, Orestes não suporta ir a velórios.

— O caixão, o véu, os arranjos de flores, as velas, tudo isso me impressiona — diz o atendente. Ele deixou de ir ao velório da avó, que considerava uma segunda mãe, para não ter de vê-la no caixão.
Depois dos cadáveres, bife
à milanesa e maionese.
Nenhum deles tem vergonha em dizer no que trabalham, e garantem que o hábito nunca atrapalhou nenhum xaveco. Segundo Rogério, as outras pessoas têm dois tipos de reações ao saber como ele passa as noites:

— Ou elas esconjuram, ou se apaixonam.

Orestes concorda:

— Tem gente que faz cara de nojo e pergunta "ai, mas você trabalha com isso?", e tem pessoas que querem de qualquer jeito acompanhar uma madrugada nossa. Que nem você.

O papo-furado é interrompido na chegada ao hospital Ermelino Matarazzo, à 1h40. Eles colocam Euclides Limeira Santos, morto a tiros, no rabecão e seguem para o PS Vila Alpina. Ouve-se a trilha de Um tira na pesada no bolso de Orestes: é a mocinha do Cepol relatando outros cadáveres.

No necrotério, sobre a maca, Jaime José Cordeiro exibe fendas rosadas na pele do tórax e da barriga. Um grande naco de carne pende de sua mão direita.

— É um lampiano — diz Orestes.

Lampianos são as vítimas de facadas, numa referência ao cangaceiro Lampião. Mais habituado a ver marcas de chumbo do que buracos de lâmina, Rogério observa as feridas e conclui:

— Eu preferiria morrer de teco do que de faca.

— Já apareceu uns bem feios por aqui — conta o segurança do hospital, com seu sotaque nordestino. — Tinha um com um monte de tiro na cabeça, eu vi todos os miolinhos dele.

À 1h30, eles saem do hospital em direção ao quarto cadáver da noite.

— Como está frio — reclama Orestes, incomodado por não poder fechar os vidros sob pena de ficar preso no carro, já que as portas só abrem por fora.

Um rapaz de olhos assustados na calçada faz o nome-do-pai ao ver passar o rabecão.

— Ele está vendo alguma igreja passando por aqui? — resmunga Orestes.

O efeito do rabecão, em algumas pessoas, é como o de uma casa assombrada ambulante: quando a Silverado passa, católicos se benzem, umbandistas lançam mandingas. O atendente se irrita com as reações exageradas:

— Não precisa de nada disso, é só respeitar.
"Eu conto os dias, conto
as horas para te ver..."
O rabecão só consegue chegar ao bairro do próximo homicídio por volta das 2h30. Orestes telefona à cabine do 29º Batalhão e pede que um carro da PM os acompanhe até o corpo. Marlon Romani Coimbra, 18 anos, permanece deitado desde as 23h30 numa rua na favela do Nazaré, no Itaim Paulista, desde que foi baleado na cabeça, no peito e na barriga.

O corpo aguarda, solitário, numa rua de terra, entre um rio de esgoto e uma fileira de barracos. Não há amigos, parentes nem curiosos. Apenas os postes de madeira velam como cruzes junto ao morto. Marlon é mais um jovem de periferia a terminar como um cadáver de cuecas à espera do rabecão, mãos pintadas de tinta preta e setas adesivas espalhadas pelo corpo, caído num canto escuro da noite paulistana.

Escuro e perigoso. Três carros de polícia acompanham o carro de cadáver até o corpo. Orestes desce e vai a pé, com o revólver na mão. Na rua de terra, banca o flanelinha para o colega:

— Para cá, vem, esterça aqui, endireita, contrário, contrário, pode ir...

Madrugada de cadáveres termina com rango no Estadão
(foto Jefferson Coppola)

O rabecão descarrega os três corpos e depois ruma para o bar Estadão. Eles chegam ao bar às 4h, mortos de fome. Orestes pede um bife à milanesa com arroz, feijão e maionese, e ainda reclama do tamanho da carne com o balconista:

— Não tinha bife menor para me dar? Se fosse lá na boca e você vendesse droga desse jeito, já tinham te matado por lá. Rogério, passa a pimenta.

O motorista come um frango à milanesa, com arroz e salada.

Na saída, pagam a conta e cumprimentam Zuza, o folclórico gerente de bigode do Estadão.

— Nem que me pagassem 10 paus eu tinha coragem de fazer esse trabalho — confessa Zuza. — E ainda mais de cara limpa, sem beber nada, como vocês.

Não há mais corpos, afirma o Cepol. Sem cadáveres, sem pressa. A dupla sai do bar às 4h40 e leva quase uma hora para voltar ao IML Leste. O ponteiro do velocímetro mal ultrapassa o número 20.

— Vai na manha, para fazer a digestão — aconselha Orestes.

Ele está animado. Ao longo da noite, as conversas com a garota do Cepol foram se esticando cada vez mais, pontuadas com piadinhas e risadinhas cúmplices.

"Eu conto os dias, conto as horas pra te ver, eu não consigo te esquecer..." — Orestes cantarola, recostado ao banco.

No final do plantão, enquanto contabiliza o saldo de mortes em uma planilha na sala do IML, Orestes liga para a moça do Cepol e a convida para um cinema no próximo sábado. Quando o atendente desliga o telefone, sua risada ressoa em meio às salas apinhadas de gente morta.

— Ela topou — comemora, fechando a planilha e rabiscando as últimas anotações antes de ir embora.

Dali a pouco, a manhã explode em luz enquanto Orestes volta para casa assobiando Roberto Carlos. Está feliz da vida.

8 de setembro de 2009

Vota aí


Lembro que o blog está concorrendo ao prêmio Blogbooks. Se você acha que o Boteco Sujo merece virar livro, vota lá.

A caricatura é um oferecimento do mano Cleriston Ribeiro. Prometi que, se ganhar, ele faz a capa do livro.

Pelos bares da vida

Crônica de uma morte à toa, de Christian Carvalho Cruz. Um exemplo de reportagem perfeita.

Como os economistas erraram tanto?, artigo de Paul Krugman

Depois de Chuck Norris, um genial 20 Neil Gaiman Facts.

Muchacha, série nova do Laerte, o mais jovem dos quatro amigos, único que não terminou escravo das próprias fórmulas.

11 estréias na internet: a primeira imagem, o primeiro e-mail, o primeiro spam...

... e 20 filmes malucos de zumbis.

4 de setembro de 2009

A vida de quem vive da morte - parte 1

Texto baseado em uma reportagem que publiquei
no "Agora SP" em julho de 2002


A mulher é jovem e nua. Os cabelos são vermelhos e há maquiagem no seu rosto, sombra azul nas pálpebras fechadas. Ainda é possível ver nela a moça atraente, a pele branca e os seios bonitos — mesmo com a mancha escura que cobre o seu ombro esquerdo, a marca vermelha ao lado da boca e um rastro de costura que ziguezagueia até o seu pescoço.

Ruiva, linda, nua e morta, a jovem perdeu seu nome. Há dois anos, ela se tornou 432/ 01, o número do seu registro no livro de mortos não identificados do Instituto Médico Legal (IML) Leste, em Artur Alvim.

O rosto dela não ficaria mal nas páginas de uma revista, mas a única página que lhe coube foi a de um livro amarrotado de capa preta cartonada, com o título Indigentes 1999 2000 2001 2002 2003. O grosso álbum contém milhares de fotos de indigentes mortos de modo violento e nunca identificados, fotografados sobre as mesas de metal do IML.

As fotografias servem para que eventuais parentes de mortos não identificados possam fazer o reconhecimento das vítimas mesmo após elas serem sepultadas. Cada código corresponde ao número de uma sepultura no Cemitério Vila Formosa, onde os indigentes ficam enterrados por três anos. Depois disso, eles são exumados e enterrados numa cova comum.

Folhear o álbum é ver uma sucessão de rostos disformes e identidades mortas. A maioria ali não foi reconhecida por ninguém e não será nunca. Os corpos são fotografados do peito para cima, com os mais variados tipos de ferimento e em todos os estágios da putrefação.

Alguns, os mais raros, são mortos recentes e parecem gente viva, adormecida. Outros têm a pele azul coberta por pequenos vermes brancos, parte da chamada "fauna cadavérica". Há lábios imensos, olhos de órbitas saltadas, rostos inchados no limite do caricato. As feridas são grandes e escuras. Nos casos mais extremos, não há nada que possa ser reconhecido como humano, só uma massa marrom.

Todos estão mortos. Quem eram, o que sonharam e o quanto sentiram morreu com eles naquelas páginas. Uma frase banal é corriqueira entre os funcionários do IML:

— A gente não vale nada, mesmo.

Em 2002, acompanhei 24 horas do trabalho de dois funcionários do carro de cadáver (o "rabecão") do IML Leste divididas em dois plantões, nos dias 14 e 23 de julho. A bordo de uma caminhonete Silverado turbo diesel, a dupla recolheu e descarregou doze cadáveres ao longo de 400 quilômetros na periferia de São Paulo.

É uma jornada que se inicia com uma caveira entre as matas de um parque público, segue por ruas enlameadas de favelas e paredes brancas de hospitais, passa por sete velas acesas e desemboca em pratos abarrotados de arroz e filés à milanesa num bar do centro.

O plantão de doze horas começa na sede da subfrota dos carros de cadáver, junto ao IML Oeste, no Ceasa. São 19h do dia 23, um domingo, e o motorista do rabecão (chamado de agente policial) Rogério, 31 anos, lava o sangue deixado no chão do pátio pelos corpos do plantão anterior.
Os ossos vestem calça e sapato. No escuro, é difícil diferenciar costelas de gravetos.
O rabecão é uma caminhonete-baú equipada com quatro caixas para o transporte dos cadáveres. Rogério não comenta, mas é fácil ver o motivo da sujeira no chão: as quatro bandejas de fibra têm buracos nas extremidades, por onde escorre o sangue dos mortos.

— E aí, nega? — O atendente de necrotério Orestes, 34 anos, cumprimenta o colega e observa o relatório deixado pela equipe anterior: 15 cadáveres recolhidos em 12 horas. — Com um dia cheio assim, a noite de hoje deve ser calma — afirma, mas está errado.

Às 19h30, Rogério e Orestes entram na cabine do rabecão e partem em direção a uma pendência deixada pela equipe anterior: uma ossada no Parque Ecológico do Tietê. Descoberto às 14h, o corpo já passou pela perícia do Instituto de Criminalística (IC), que terminou o trabalho às 18h30, liberando o corpo para ser recolhido pelo carro de cadáver.

Dirigindo pela Marginal Tietê, Rogério não tem como saber a velocidade em que está. O velocímetro do painel está quebrado há tempos, assim como a sirene e as luzes do rabecão.

No Parque, o rabecão chega ao local guiado por um carro da PM. Depois de estacionar o veículo na estrada de terra enlameada, a dupla carrega a gaveta por uma trilha até os fundos da mata. A ossada está amontoada em meio a pedaços de roupas apodrecidas. Os ossos das pernas, ainda unidos, vestem calça e sapato. A vinte metros dali, há uma oferenda de umbanda, uma cabeça fresca de boi sobre uma vasilha cheia de sangue — mas esse é um cadáver que será deixado no local.

Os funcionários recolhem os ossos à luz das lanternas dos PMs. Na semi-obscuridade, é difícil diferenciar as costelas dos gravetos. Por alguns momentos, Orestes lembra Hamlet ao segurar o crânio sem maxilar na mão direita. Um policial militar não resiste:

— Ser ou não ser?

— Pode crer — Orestes concorda.

A ossada do Parque Tietê: "Ser ou não ser?"
(foto Williams Valente)


Por rádio, os funcionários comunicam ao Cepol (Centro de Operações da Polícia Civil) o recolhimento da ossada, às 21h. A atendente, uma mocinha de voz simpática, informa que não há outros cadáveres.

O destino da equipe é o IML Central, único habilitado a fazer necropsia em ossadas. Da mesma forma, os cadáveres putrefeitos só podem ser atendidos no IML Oeste. Já os mortos com até três dias de óbito são levados ao IML da área.

As ossadas são cadáveres fáceis de trabalhar, ensina a dupla. Não têm cheiro, são leves e limpas. Os piores são as vítimas de acidentes, principalmente as que caem em trilhos de trem e se espalham em vários pedaços. Mas o mais desagradável do trabalho é lidar com os putrefeitos, chamados de "podrões".

É impossível entrar num local fechado onde haja um putrefeito sem antes acender uma pequena fogueira com o álcool numa tigela, para consumir os gases do apodrecimento. A dupla leva sempre um litro de álcool, guardado na "batbolsa de utilidades" atrás do banco da cabine, junto com as luvas usadas no contato com os mortos.

Até para segurar os putrefeitos é preciso cuidado, porque estão cheios de bolhas de sangue e gás. As bolhas estouram com facilidade, espalhando sangue e mau cheiro. O odor de gente apodrecida gruda nas roupas e fica na cabeça por muito tempo.

— No dia em que recolho um "podrão", tenho que fazer um strip tease no quintal para minha família me deixar entrar em casa — conta Orestes.

A dupla conta que já recolheu um "podrão" morto num local tão estranho quanto adequado. ‘Era um mendigo que costumava dormir dentro de um jazigo vazio no Cemitério da Saudade‘, lembra Rogério. O mendigo morreu no túmulo alheio, e dias depois o mau cheiro chamou a atenção dos funcionários. O rabecão teve de tirar o seu corpo do cemitério, para onde voltaria dias depois.

Às 21h30, a equipe atravessa as portas de aço do IML Central. Homens nus estão estendidos sobre as macas e mesas de metal. Todos levam a marca da necropsia, um rastro de pele costurada à linha que começa entre as pernas e sobe até o pescoço. Cada um traz um pedaço de cartolina com sua identificação grudada no peito e o número de registro rabiscado em grandes numerais azuis sobre a pele.

Um dos mortos costurados é um bebê de um ano, parecendo um boneco de olhos abertos.

— Ele ficou doente. Só que a família, que era muito religiosa, levou o bebê para igreja em vez de mandar para um médico, e o bebê morreu — explica um funcionário.

A visão do bebê morto é perturbadora, inclusive para Orestes, que trabalha como atendente de carro de cadáver há 11 anos.

— A gente se habitua ao nosso trabalho, mas nunca se acostuma — costuma dizer.
"Por dois meses, ele continuou a deitar na cama ao lado do corpo da mulher morta"
Orestes e Rogério receberam fortes marcas de alguns dos corpos que recolheram. Foi o caso da morte dos três irmãos, em Ermelino Matarazzo, há três anos. As crianças, de dois, cinco e sete anos, morreram em um incêndio dentro de casa, enquanto seus pais dançavam no forró.

Orestes nunca se esqueceu da posição em que encontrou os três corpos queimados:

— Um tentava proteger ao outro. O mais velho abraçava o irmão do meio, que envolvia o caçula, encolhidinho num canto.

Ao ver a reportagem sobre as mortes, na TV do dia seguinte, ele olhou para a filha recém-nascida ao seu lado e caiu no choro.

Há um mês, na Vila Carrão, foi a história do velhinho que continuou a dormir com a esposa dois meses depois de ficar viúvo:

— Ele continuou a deitar na cama ao lado do corpo. Quando recolhemos o corpo, ele não disse nada, só olhou para nós sem expressão.

Não importa se está atulhado de trabalho ou curtindo um dia de folga: se encontra um motorista de carro bêbado, Orestes dá voz de prisão e o leva até a delegacia mais próxima. É que ele logo se lembra dos três corpos que um dia recolheu após um acidente de trânsito: avó, mãe e neta mortas por um motorista embriagado.

— Isso mexe com a gente — diz.

Rogério sempre se lembra da história de um casal suicida. Em menos de um mês, ele e Orestes voltaram duas vezes à mesma casa bem cuidada de Cidade Tiradentes. Primeiro, foi a mãe da família que se suicidou, preocupada com as dívidas. Um mês depois, o rabecão retornou para buscar o marido dela, que também havia se matado.

— Não esqueço da filha de 14 anos do casal, que nas duas vezes encontrou os corpos dos pais.

Os motivos para os suicídios não costumam ser originais, nem os métodos. Homens se matam por causa das mulheres, mulheres se matam por seus homens. As mulheres preferem atear fogo a si próprias ou ingerir veneno ou comprimidos. Já os homens suicidas costumam ser levados para as bandejas enforcados ou baleados.

A dupla no trabalho: "A gente se habitua, mas nunca se acostuma"
(foto Jefferson Coppola)


De volta ao IML Oeste, às 22h, a dupla fica sabendo, através da vozinha macia do Cepol, de mais dois corpos a serem recolhidos. O rabecão retorna para a zona leste.

— Não dá tempo de ir ao Vampirinho? — pergunta Rogério no caminho, referindo-se a uma churrascaria onde às vezes jantam.

— Não, e nem no Chugatinho — suspira Rogério.

Eles não terão tempo para procurar o conhecido vendedor de espetinhos, que chega a encomendar costelas para os seus dois fregueses mais assíduos.

Apesar dos 13 graus estampados nos termômetros, o domingo local ainda tem cara de final de semana. Não faltam bares e botecos cheios de minas e manos. Um motel anuncia em vermelho

SUÍTE SUPER LUXO
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Alheio às cores e à alegria, o rabecão continua em busca da morte.

Durante o trajeto, o rádio Cepol informa sobre mais um cadáver à espera. Às 23h30, o rabecão acompanha um carro da PM até a rua Missal, na favela do Jardim Eva. Na rua de barro, está um vigia de 21 anos, Edjaelson Barbosa Ferreira. Dois encapuzados o balearam, às 18h30.

Agarrada a uma amiga, a jovem viúva observa o corpo aos seus pés. A dupla retira o lençol que o cobre, revelando a cabeça coberta de sangue e setas adesivas, coladas pelos peritos para indicar os pontos de entrada e saída das balas. O corpo está nu, pois as roupas são recortadas durante a perícia, e as mãos, cobertas pela tinta preta usada na retirada das impressões digitais.

A menina redobra o choro e sua amiga a segura com mais força. Antes de a dupla colocar o cadáver na bandeja, a viúva faz um pedido:

— Posso ficar com a correntinha dele?

O atendente embrulha a lembrança numa de suas luvas e a entrega.

— Obrigado — ela diz, um fio de voz.

— De nada.

A próxima parada é o hospital Ermelino Matarazzo. No caminho, a dupla pára num posto de gasolina para comprar uma garrafa d’água. Os funcionários do posto aproveitam a presença do rabecão para sacanear com um colega:

— Leva esse cara aqui, que ele tá fedendo.

— Na volta — responde Orestes, de cara feia.

Na zona leste, as gozações com o rabecão são comuns e sempre as mesmas: muito presunto aí, como vão os presuntos, lá vão os presuntos.

A dupla tem duas resposta padrão para os engraçadinhos. Uma, educada, é:

— Quem carrega presunto é a Sadia. A Polícia Civil transporta cadáveres.

E a outra, um pouco mais direta:

— Presunto a gente vai ter no dia em que estiver levando sua mãe, aquela porca.

À meia-noite, eles chegam ao necrotério do hospital. Orestes aponta para os pés dos mortos:

— Por eles, dá pra você saber quem é trabalhador e quem não é. Em pé de vagabundo, o sol deixa a marca das chinelas havaianas.

Sobre uma maca, está um corpo com uma cartolina e o nome José Dias Castro Filho. O corpo sem ferimentos e o rosto azul apontam para um ataque cardíaco — o tipo de morto que costuma ser encaminhado ao Serviço de Verificação de Óbito da prefeitura. Mas, nesse caso, será recolhido ao IML porque o delegado da área desconfiou das circunstâncias do falecimento e pediu a necropsia.

Ao lado dele, há um jovem baleado na cabeça, chamado Adriano Rocha dos Santos.

— Daqui a pouco a gente volta para buscar esse — comentam. Eles não podem recolhê-lo agora, porém, porque ainda não receberam a ordem do Cepol.

O longo trâmite burocrático, verdadeiro culpado por muitos dos famosos atrasos do carro de cadáver, não pode ser ignorado. A Polícia Militar é a primeira a ser informada sobre mortes violentas. Os PMs devem garantir a preservação do local onde o corpo foi encontrado e comunicar a ocorrência ao delegado plantonista da área. Este deve ir ao local e depois acionar a delegacia seccional, que por sua vez informa ao Cepol. Comunicado sobre o fato, a equipe de perícia — que pode ser do Instituto de Criminalística, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa ou até do Detran — vai ao local e, encerrado o trabalho, aciona novamente o Cepol, que somente aí vai contatar o carro de cadáver.

Mais cadáveres caem na rede.

— IML 2, tem mais — avisa a atendente do Cepol pelo rádio.

— Positivo e que-erre-vê, tê-cá-esse — responde Orestes.

A cabine da Silverado vai se enchendo do cheiro adocicado do sangue.

As gavetas furadas, por onde escorre o sangue dos cadáveres
(foto Williams Valente)


No necrotério do PS Planalto, às 0h30, eles se deparam com um homem forte e corpulento, com pelo menos 1,80m.

— Esse é grande — comentam.

É o chefe de cozinha Ajoildo da Silva Dias, 38 anos. Quatro horas antes, o homem agora imóvel sobre a maca estava agitando-se aos berros em casa enquanto discutia com a esposa. Segundo o Boletim de Ocorrência registrado no 64º DP (Cidade AE Carvalho), a discussão terminou quando o cunhado de Ajoildo atirou em sua cabeça para defender a irmã. A dupla sua para colocá-lo no rabecão.

Meia hora depois, no PS Jardim Iva, à 1h, eles recolhem o corpo de um homem desconhecido, que não foi reclamado nos últimos dois dias. Há outros cadáveres para serem recolhidos, mas as quatro gavetas do rabecão já está cheias. Antes de prosseguir, é preciso deixar os corpos no IML Leste.

Nem sempre os funcionários do IML puderam "descarregar" os cadáveres do rabecão antes de enchê-lo com outros corpos. Antes de 1999, quando o IML passou a dividir a colheita dos mortos com o Serviço de Verificação de Óbito (SVO) da prefeitura, era rotina empilhar cadáveres uns sobre dentro nas mesmas gavetas do rabecão, como mortos de campos de concentração.

— Não queríamos desrespeitar os cadáveres, mas não tinha outro jeito— lembra Orestes.

Segundo ele, de lá para cá o número de corpos destinados ao IML diminuiu, e o serviço, pelo menos neste aspecto, melhorou.

No IML Leste, em Artur Alvim, a dupla abre o baú, tira os mortos das gavetas e os ajeitam sobre as macas e mesas, à 1h30. As quatro bandejas são lavadas antes de voltar para o baú. Orestes telefona para o Cepol e passa um relatório. Vinte minutos depois, saem para abastecer os 120 litros do tanque do rabecão, numa Central de Carros Auxiliares da Polícia Civil.

Tanque cheio, vem a hora de abastecer o estômago, após seis horas de trabalho ininterrupto. A visão dos corpos mortos não tirou o apetite de ninguém. É alta madrugada, a picanha do Vampirinho e os espetinhos felinos do Chugatinho já se recolheram. O jeito é ir para o Estadão.

Localizado no centro da cidade, o Estadão é um dos poucos bares que fornecem refeições completas a qualquer hora do dia, todos os dias do ano, a preços populares. É ali que deságuam os tipos da boêmia paulistana. PMs e prostitutas, travestis e jornalistas, funcionários da Eletropaulo e taxistas, músicos e guardas noturnos, michês e papa-defuntos batem cartão no local atrás do lendário sanduíche de pernil.

Um dos funcionários já recolheu o cadáver de um amigo de infância

Às 2h30, a dupla pode ser vista no Estadão saboreando a comida entre piadas e gozações. Rogério pede filé de frango com arroz e feijão, enquanto Orestes devora um prato cheio de linguica calabresa com arroz e salada. A personalidade da dupla combina com o ambiente despretensioso do bar.

Ambos só bebem Coca-Cola, contrariando a imagem do funcionário de rabecão alcoólatra.

— A gente bebe, sim, mas não em serviço — garante Orestes.

Eles admitem, porém que a fama dos papa-defuntos bebuns tem sua razão de existir, ligada ao passado do Instituto Médico Legal. Orestes conta que, durante os seus primeiros anos como atendente no necrotério, há mais de uma década, o IML funcionava como uma lixeira da Polícia Civil, destinada a receber policiais afastados pela Corregedoria.

Os veteranos do Instituto estão cheios de histórias sobre a "velha guarda" dos rabecões. Histórias como a da dupla de funcionários flagrada bêbada dentro do IML pelo próprio diretor, que estranhou a voz pastosa com que um deles atendeu o telefone. Acabaram exonerados.

Outro personagem dos velhos tempos era Mário Cachaça, que um dia saiu tropeçando do rabecão para revistar um garoto suspeito e o baleou sem querer. O menino sobreviveu para testemunhar contra ele. Expulso da polícia, Cachaça suicidou-se.

No PS Planalto, às 3h30, o rabecão enche mais uma gaveta com Márcio Roberto Perondi, assassinado próximo ao hospital. Vinte minutos depois, a dupla volta ao PS Ermelino Matarazzo, em busca de Adriano Rocha dos Santos, 22 anos, o mesmo morto que já tinham visto no necrotério do hospital três horas antes. No 64º DP, a reportagem fica sabendo que ele era um jovem surdo-mudo, baleado durante uma confusão em uma quermesse na Cidade AE Carvalho.
Mais velho no ofício, Orestes diz que o perfil dos cadáveres mudou na última década. Há dez anos atrás, o que mais havia eram as vítimas de acidente de trânsito.

— Com as novas leis e os radares, já não morre tanta gente assim — comenta.

Os mortos entre ferragens das avenidas cederam lugar aos homicídios banais da periferia, vítimas quase sempre jovens e envolvidos com o consumo ou o tráfico de drogas. É o tipo de cadáver mais comum, e o que menos emoção provoca nos dois transportadores da morte:

— De certa forma, é como se a pessoa tivesse procurado por aquilo — Orestes. — Não é como uma criança, ou uma vítima de latrocínio.

Uma dessas vítimas era um antigo amigo de infância do atendente, o único conhecido que Orestes já transportou. Os dois acabaram se afastando depois que o velho conhecido tornou-se viciado em drogas. Acabou morto por causa de uma dívida na ‘boca‘.

— Quando olhei para ele, senti pena — diz Orestes, mas sem a mesma emoção com que contou outras histórias.

O rabecão segue em busca da morte
(foto Jefferson Coppola)


O último corpo a se juntar aos colegas no baú é um homem não identificado no PS Vila Nhocuné. A polícia suspeita que ele tenha morrido envenenado. Às 4h30, a dupla volta ao IML Leste para descarregar os corpos.

O prédio só retoma o funcionamento normal a partir das 7h. Mesmo assim, está cheio de pessoas — a maioria deitada sobre macas, com pedaços de cartolinas grudados no peito. Viva, só uma senhora de 60 anos, jeito de vovó, a auxiliar de necropsia encarregada de passar a noite no local.

Sozinha?

— Não, com eles — ela sorri ao apontar os cadáveres.

Quem olha o jeito tímido e delicado daquela senhora dificilmente imaginaria sua profissão:

— As pessoas se espantam quando digo que sou uma cortadora de defunto.

Ela não se importa em passar as noites sozinhas no IML, acompanhada apenas pelos cadáveres.

— Tratar com morto é mais fácil do que com vivo — conta a auxiliar, que trabalhava como técnica de enfermagem num hospital público antes de ir para o IML.

Naquele tempo, ela não suportava nem ir a um velório.

— Se fosse a um velório, não conseguia dormir à noite — recorda.

A decisão de abandonar a enfermagem e prestar um concurso para o IML, em busca de um salário melhor, foi motivada pela busca da independência financeira:

— Eu tinha três filhos e queria me separar do meu marido alcoólatra, mas precisava ganhar mais.

Os dois primeiros anos foram os mais difíceis:

— Eu ficava tão impressionada ao ver os defuntos que, à noite em casa, não deixava o meu marido dormir de bruços. — Aos poucos, ela foi superando o pavor. — Venci o medo pela necessidade financeira.

Cinco anos depois, quando já era capaz de passar a noite com os mortos sem receio, ela se divorciou. Conviver com a morte não tem mistério, garante.

— Se você trabalhar direito e tratar os mortos com respeito, passa a ser um serviço como outro — conclui.

Numa praça logo em frente, sete velas queimam. São velas brancas, do tipo que é dedicado às almas. Segundo os funcionários, costumam ser colocadas por parentes dos mortos à espera da liberação dos cadáveres. As velas ardem enfileiradas num canto da praça, como sete preces dedicadas aos sete mortos recebidos pelo IML Leste desde o início da noite de hoje.

A última ocorrência do plantão é um alarme falso. Avisados pelo Cepol, Orestes e Rogério vão até uma vítima de acidente de trânsito na avenida Afonso de Sampaio e Souza. Ali, os PMs encarregados de preservar o local apontam para um corpo embaixo de um lençol, numa ilha da avenida: uma garota de programa foi atropelada, não se sabe por quem.

A perícia ainda não passou por lá e não virá tão cedo. Vítimas de atropelamentos de autoria desconhecida não são periciadas pelo IC nem pelo DHPP, mas pelo Departamento de Acidente de Trânsito do Detran, apelidado de "Mandrake".

— É que eles têm que ser mágicos — explica Orestes. — Só com um corpo na rua, têm que tentar descobrir quem é, quando foi atropelado e por quem.

Eles voltam para a base, de onde só voltarão a sair às 7h, dessa vez para casa. Outra dupla assume os volantes do rabecão. O ciclo de corpos mortos, sangue e gavetas esburacadas recomeça. No canto de uma praça, sete tocos de vela abençoam a chegada da manhã.

Continua...