Aconteceu no século 19, em plena era vitoriana, na gloriosa e austera Grã-Bretanha.
Uma estudante de Turismo cometeu o crime de ir para faculdade usando apenas uma blusinha que mal chegava até suas coxas um vestido curto (alterei esse trecho após ver as imagens da garota e constatar que ela não vestia nada que já não pudesse ser usado nos anos 30, como lembrou o André Gonçalves nos comentários). Quando a garota começou a subir uma das rampas da universidade, oferecendo uma vista privilegiada das suas redundâncias, provocou um levante entre marmanjos que provavelmente nunca haviam visto uma mulher sem roupa desde que foram desmamados. Os estudantes começaram a cercar a moça, com gritos e galanteios de pedreiro, e foram se empolgando até que ameaçaram estuprá-la. Ela, então, correu e se trancou numa sala.
Foi aí que todos os alunos abandonaram as aulas e se aglomeraram numa multidão que ameaçava invadir a sala onde a garota havia se escondido, aos gritos de "puta, puta!". Homens e mulheres se juntaram para xingá-la. Foi preciso que um grupo de policiais militares entrasse no prédio para evitar que a menina se tornasse a protagonista de um gang bang forçado.
Agora, uma retificação. Nada disso aconteceu nos tempos moralistas e patriarcais da boa rainha Vitória. Essa história aconteceu, de verdade, na noite da última quinta-feira, dia 22, no câmpus daUniban em São Bernardo do Campo.
— Os moleques gritavam "puta!" e falavam que iam comer ela — me contou um aluno da Uniban que viu a cena. — Ela saiu da sala com os PMs, vestindo avental de professor. Todo mundo foi para cima e a polícia jogou spray de pimenta para dispersar.
Alguns vídeos com a cena começaram a pipocar no YouTube. Nesse aí de cima, dá para ver a multidão reunida para xingar a garota. Não faltam mulheres enchendo a boca para criticar "a puta da faculdade". Esse outro mostra melhor a menina saindo da sala, escoltada pela polícia, num jaleco branco de professor, enquanto é xingada como se fosse a Geni. (A propósito, o Boteco falou com o 2º DP de São Bernardo e com o Centro de Operações da Polícia Militar do ABC, que disseram não ter registrado qualquer "ocorrência" semelhante a essa.)
Fica claro que bastou aparecer uma menina com pouca roupa para parar todas as aulas da universidade, transformar um grupo de estudantes em potenciais estupradores e gerar um tumulto em ambiente universitário como não se via desde a greve da USP.
Uma fala do aluno com quem conversei resume o clima daquele ambiente universitário:
— Eles estavam errados em querer estuprar a mina, mas ela provocou, né, véio? Então...
As câmaras de refrigeração estavam lotadas e os corredores iam se enchendo de macas que chegavam trazendo cadáveres desfigurados por sinais de tiros, a maioria no tórax ou na cabeça. “Eu nunca tinha visto uma coisa assim. Seres humanos transformados em um bando de bugigangas, um ferro-velho, desidratado de qualquer componente de humanidade”, recorda o defensor público Pedro Giberti, que até hoje se lembra do cheiro de gente morta que abarrotava as dependências do Instituto Médico Legal (IML) central em maio de 2006 (vide Revista Adusp 38).
Parecia um cenário de guerra, mas poucas guerras matam daquele jeito. Foram 493 mortes por arma de fogo no Estado de São Paulo entre 12 e 20 de maio, uma média de aproximadamente 54 pessoas assassinadas a tiro por dia. Naquele mesmo maio, a guerra do Iraque deixou 2.103 mortos, cerca de 39 por dia. Mesmo a Ditadura Militar brasileira, que criou as polícias militares nos anos 1970, precisou de 20 anos para produzir um número semelhante de mortos.
A onda de violência começou com uma série de ataques lançados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) após o governo estadual transferir mais de 700 presos para as penitenciárias de Presidente Venceslau e Presidente Bernardes, numa tentativa de isolar os líderes da facção criminosa. A mesma facção que a polícia paulista quatro anos antes havia descrito como “falida e desmantelada” lançou, no dia 12 daquele mês, uma ação coordenada que incluía rebeliões em unidades prisionais e ataques a agentes do Estado, ônibus, delegacias e outros prédios públicos. A violência do crime organizado deixou 59 mortos, entre policiais civis e militares (inclusive bombeiros), agentes penitenciários e guardas civis municipais, em ações ocorridas principalmente nos dias 12 e 13.
“A má vida tem de ser tratada como má vida”, declarou o governador Cláudio Lembo no segundo dia dos ataques . “A honra da PM e da Polícia Civil foi atingida. E cada oficial, cada soldado, cada agente, todos se sentiram igualmente feridos em seus brios. Urgia resgatar a autoridade da instituição”, anotou o ex-deputado federal João Mellão Neto num artigo-homenagem às corporações . “Nossa sociedade tem a cultura de aceitar que a polícia mate em algumas ocasiões, e naquela semana havia a sensação de que seria legítimo para a polícia reagir de maneira violenta, já que havia sido atacada”, recorda a advogada Marcela Cristina Fogaça Vieira, da ONG Conectas. Foi nesse ambiente que teve início a segunda etapa dos crimes de maio, que multiplicaria por nove o número de mortos no período.
Executada principalmente entre os dias 14 e 17, a nova fase da matança atingiu a população civil. Havia dois grupos responsáveis por estas novas mortes: policiais identificados como tal, que afirmavam terem matado os suspeitos em situações descritas como “resistência seguidas de morte”, e grupos de extermínio formados por homens encapuzados.
Sobreviventes e observadores independentes acreditam que os matadores sem rosto eram também policiais, unidos aos colegas fardados numa operação conjunta de intimidação e vingança. “A conclusão principal que se pode derivar é que as mortes de civis não aconteceram fundamentalmente durante os ataques a policiais, como consequência da defesa destes últimos, mas em intervenções posteriores, que poderíamos qualificar como represálias”, afirma o pesquisador Ignacio Cano, do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, no mais recente estudo dos laudos e boletins de ocorrência referentes aos crimes de maio, feito a pedido da ONG Conectas . A semelhança entre a ação dos matadores mascarados e a atuação dos policiais leva o autor a concluir que “agentes públicos possam ter participado em grupos de extermínio para vingar a morte dos companheiros”.
Confira abaixo os vencedores do 31o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, acompanhados pelos links das reportagens originais que consegui encontrar (muito veículo ainda não entrou de maneira decente na internet).
Tem muita reportagem boa nessa lista. Algo que chama a atenção, além da tradicional predominância de publicações "alternativas", como a Caros Amigos, é a forte presença de veículos públicos/estatais: Agência Brasil, TV Brasil e até Rádio Senado.
Categoria Livro Reportagem
Vencedora
* "Olho por Olho- Os Livros Secretos da Ditadura" (Editora Record), de de Lucas Figueiredo
Menção honrosa
* "O Olho da Rua", de Eliane Brum (Editora Globo)
* "Operação Condor: O Sequestro dos Uruguaios- Uma Reportagem dos Tempos da Ditadura", de Luiz Cláudio Cunha (L&PM Editores)
* "Moradores de Rua", de Sandra Aparecida Granzotti e equipe (Erlin Schmidt, Ivone Moreira da Silva, Claudionor José Pecorari) - TV Globo – EPTV – Campinas
Menção Honrosa
"Anistia 30 anos", de Rosana Janco Mamani e equipe (Rodrigo de Luiz Brito Vianna, Marcia Silveira da Cunha, Glauco Dória Fonseca, Sandro Henrique Ferreira, Eduardo Silva) - TV Record – Jornal da Record
O grupo Traffic, do cartola J. Havilla, que anunciou na semana passada a compra do Diário de S. Paulo, pretende demitir os 380 funcionários do jornal até o final do mês. Muitos devem ser recontratados em seguida, mas ninguém sabe exatamente como isso será feito.
Pelo que se comenta, a demissão em massa faria parte do acordo de venda acertado entre a Traffic e a Infoglobo, antiga dona do Diário. Graças ao megapassaralho, o império J. Havilla poderia herdar o Diário de S. Paulo sem se preocupar com dividas trabalhistas, que seriam todas assumidas pela Globo. O risco é os novos patrões resolverem recontratar os demitidos por salários mais baixos ou mesmo cortar parte dos direitos trabalhistas, na base do "é pegar ou largar".
Tudo está sendo feito da maneira nebulosa que caracteriza o procedimento dos grupos de mídia no Brasil, que adoram defender a própria liberdade de expressão e cobrar transparência dos outros, mas preferem agir nas sombras quando se trata dos seus negócios. A demissão em massa não foi assumida publicamente pelas empresas e não consta de nenhuma das notícias publicadas sobre o negócio, as quais se limitaram a apontar o papel estratégico da compra do Diário para ampliar o alcance da rede Bom Dia — braço impresso do império Traffic, que já controla nove jornais no estado de São Paulo.
E o leitor, como fica? Melhor não esperar muito. No geral, a expansão dos monopólios de mídia só faz piorar o jornalismo, deixando todos os veículos com a mesma cara fast-food. Desaparece a apuração de conteúdo próprio e pipocam os veículos que reciclam as informações produzidas por um núcleo cada vez menor de profissionais.
Embora continue a ser um bom jornal, com uma equipe excepcional, o Diário Popular piorou em muitos pontos após ser comprado pela Globo, em 2001, e se transformar em Diário de S. Paulo. A revista Já, que acompanhava o jornal, por exemplo, deixou de publicar suas próprias matérias e passou a reproduzir apenas material enviado pelo Globo. O leitor, que não é bobo como a gente pensa, percebeu isso e as vendas caíram.
As perspectivas do jornalismo para o Diário com a Traffic também não são as melhores. O modelo consagrado pelo Bom Dia é o que o "brasileiro iluminado" (segundo Milton Neves...) J. Havilla chama de "jornalismo da era da internet", que se traduz em matérias curtas e de apuração ligeira. Será que o leitor vai pagar para ler em papel e tinta o mesmo tipo de informação rasa que ele encontra de graça na Web? Sei lá. Como diria um antigo ícone do Diário Popular, "acabou, mano, acabou".
Quem ver o interessante perfil sobre a ilustradora Adriana Melo na TPM, publicado no mês passado, vai pensar que ela é uma contadora de lorotas. Adriana diz na entrevista que procura em seus quadrinhos "fugir de decotes e roupas coladas", mas a matéria abre com uma ilustração da super-heroína Miss Marvel em que seus imensos peitos quase explodem o exíguo uniforme militar que tenta contê-los.
Mas Adriana não mentiu, coitada. A edição da revista é que se enganou e, na hora de escolher as ilustrações para a reportagem, escolheu justamente duas que NÃO eram da brasileira. Pelo visto, os editores não perceberam que Adriana desenha as páginas internas da revista Ms. Marvel, mas as capas são produzidos por outro artista, o norte-americano Greg Horn — famoso criador de gostosas em papel, com um estilo totalmente diferente do da brasileira. Apenas uma capa de Birds of Prey, exposta com a metade do tamanho das outras duas, é mesmo da brasileira.
O pior é ver na parte de comentários do site os leitores elogiando Adriana pelos desenhos que não são dela... Bom, se quiser conferir o trabalho real da Adriana, venha aqui.
E o pior é que não fui só eu. Aconteceu até Gio Mendes, insuspeito repórter policial da madrugada e blogueiro do Mondo Cane, o cara que entrevistou Geraldo Alckmin com a camiseta do Buttman. Enquanto caminhávamos entre os destroços da madrugada na Consolação, Gio abaixou a voz, olhou para os lados, entregou seu último cigarro para despachar um mendigo que estava por perto e poderia ouvir sua infame declaração, depois limpou a garganta e confessou: "Eu também gostei mais de Te Amarei para Sempre. Chorei o tempo todo".
Chocante?Assustador, eu diria. Só não foi pior porque, de fato, o tal Matadores, no final das contas, não passava de uma comédia teen que de bom e ousado só tinha mesmo era o título. Até o trailer do filme destaca principalmente o nome, que é a grande virtude cinematográfica do filme.
Matadores quer retomar o clima do horror de drive-in e o título sugere uma retomada do bom e velho exploitation, mas é a história se repetindo como farsa. O filme promete retomar o apelo sensacionalista das cenas de violência e nudez gratuitas, mas tudo acaba sendo feito com muita contenção e medo de chocar. Não é Tarantino, nem mesmo Wes Craven. A sacanagem não vai além de uns rápidos peitinhos e de alguns beijos lésbicos, e a violência não existe: as vampiras mortas viram um mingau branco — sangue e vísceras, nem pensar. Nem vale como exercício de paródia e autoironia, porque as piadas são manjadas e bobas como de um episódio da Aline da Globo.
E bobo é o que Te Amarei para Sempre não é, mesmo sendo uma comédia romântica um filme de amor. É uma trama de paradoxo temporal, acompanhando o romance entre a magrela Rachel McAdams e Eric Bana, o qual seria um marido perfeito não fosse por um defeito de nascença: a capacidade (que ele não controla) de sumir e viajar no tempo, reaparecendo, sempre pelado, alguns anos antes ou depois. Os conflitos por conta das viagens temporais geram cenas com Discussões de Relação que ameaçam transformar o filme numa novela de Manoel Carlos com pitadas de Lost, mas antes que isso aconteça o protagonista percebe que a data de sua morte está chegando e não há nada que possa fazer para modificá-la.
Histórias sobre viagens no tempo podem enfatizar o livre-arbítrio, como na série De Volta para o Futuro ou no segundo Exterminador do Futuro: a idéia de que somos donos do nosso destino e podemos modificá-lo à la dupla penetração, tanto pela frente como por trás. Ou podem se tornar fábulas sobre o destino inevitável: é o caminho seguido pelos últimos filmes da série Exterminador (o Skynet virá, não importa o que façamos) e também por Te Amarei para Sempre. Um fatalismo que dá um certo sabor de tragédia grega para essa linha de contos de paradoxos temporais. Se fosse um roteirista de Hollywood, Sófocles talvez retratasse Laio como um viajante do tempo que, num passeio pelo futuro, encontrasse seu filho casado com a mãe após matá-lo. De volta ao seu tempo, Laio mandaria um criado despachar Édipo para o Hades para tentar modificar os acontecimentos vindouros — e com isso detonaria a tragédia.
O filme-supresa da noite foi um francês da melhor qualidade, Desejo e Obsessão. A história é contada com poucas palavras em seqüências desencontradas, de modo que só lá pelo meio do filme você percebe o que está acontecendo e entende que é uma história sobre experiências científicas que fazem duas pessoas se transformarem em criaturas sedentas de sangue sempre que sentem tesão. Vincent Gallo, o que boqueteou a Chloë Sevigny, mostra que é um puta ator e impressiona como o marido recém-casado que precisa se masturbar no banheiro durante a lua-de-mel para evitar sentir desejo sexual, o que o levaria a transformar sua mulher em uma refeição.
E não é que até a Martha Alves, que gosta de gatinhos e cute tricotar cachecóis cor-de-rosa, gostou mais desse francês pervertido do que de Te Amarei para Sempre? Caralho. Gio, estamos virando dois velhos babões, mano.
Cena de "Pure", pornô sobre uma história de castração
Abe Sada: Após matar Ishida eu me senti totalmente calma, como se tivessem retirado um grande peso dos meus ombros, uma sensação de clareza. Tomei uma garrafa de cerveja que havia trazido comigo e me deitei ao lado de Ishida. Sua garganta foi ficando seca, então umedeci a língua dele com a minha e limpei o seu rosto. Não parecia que eu estava ao lado de um cadáver. Ele parecia mais adorável para mim do que quando estava vivo. Dormi ao seu lado até de manhã, brincando com seu pênis, e cheguei a apertá-lo contra mim. (...) Enquanto brincava com o pênis de Ishida, pensei em cortá-lo e levá-lo comigo, daí peguei a faca que tinha escondido atrás da moldura do quadro. Pus a faca contra a base do pênis, mas estava difícil de cortar e levou muito tempo. (...) Depois coloquei a faca contra a base do seu escroto e cortei os testículos, mas também era duro de cortar, então acho que deixei parte do escroto para trás. Embrulhei o pênis e os testículos num pedaço de pano, mas havia um monte de sangue derramando do ferimento e eu pressionei o pano ali. Então molhei meu indicador direito no sangue derramado e o espalhei na minha roupa de baixo, nas mangas, no colarinho. Depois de tudo, escrevi com sangue "Sada, Kichi juntos” na coxa esquerda de Ishida e no lençol. Em seguida, gravei o ideograma do meu nome nele e lavei minhas mãos na pia. Arranquei a capa de uma revista Fuji que estava ao lado do travesseiro dele e embrulhei ali seu pênis e os testículos. Tirei a roupa de baixo de Ishida do cesto de roupas, coloquei dentro o seu pênis embrulhado e o apertei contra mim. Por fim, coloquei meu quimono e a faixa. Quando estava vestida e pronta para sair, limpei o quarto.
Pergunta: Por que você removeu o pênis e o escroto de Ishida?
Abe Sada: Eram as partes dele mais queridas e importantes para mim. A mulher dele iria tocá-las quando lavasse o seu corpo, e eu não queria que ninguém mais o tocasse. Eu precisava fugir dali de qualquer jeito, mas se tivesse o pênis de Ishida eu achava que não me sentiria sozinha. É como se ele continuasse comigo.
A história real de Abe Sada, que amava tanto seu amante a ponto de estrangulá-lo numa brincadeira erótica e depois sair carregando o pau e as bolas da paixão falecida como suvenires, ocorrida no Japão de 1936, já virou de tudo. Abe Sada é literatura, gibi, banda de rock, filme... Ela ajudou até a deslanchar um movimento estético, o sexual e pervertido Ero-Guru.
O legado da corta-pinto nipônica foi longe e influenciou até o Brasil varonil. Pois a japonesa foi indiretamente responsável pela criação da indústria pornográfica verde-e-amarela. Aconteceu nos anos 80, quando a mais famosa obra sobre Sada, O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima, driblou a Censura e tornou-se o primeiro filme de sexo explícito exibido no país, graças a uma decisão da Justiça que reconheceu os méritos estéticos da obra. Estava aberta a brecha legal que permitiu aos produtores da Boca de Lixo produzir os primeiros filmes pornôs do circuito comercial brasileiro, todos exibidos com base em liminares da Justiça.
O Império dos Sentidos continua sendo uma obra-prima da arte pornográfica, mas há outros filmes baseados na história de Sada. Uma Mulher Chamada Abe Sada, filmado um ano antes de Império, acabou eclipsada pelo seu sucessor. Em 1998, os japas deixaram o sangue e a seriedade de lado e criaram Sada, uma comédia metalinguística esquisitinha.
A novidade é que finalmente a história de Sada chegou ao bom e velho pornozão. A produtora Evil Angel, de John "Buttman" Stagliano, está lançando Pure, dirigido por David Aaron Clark, com a deliciosa Asa Akira, que deverá "contar" a história de Abe entre uma cena de sexo e outra.
A produtora só não esclareceu como conseguirá dar um tratamento pornô para a castração, que costuma ser um assunto meio... como direi? Brochante?
Algumas parecem fotografias em preto-e-branco. Mas são todos desenhos a lápis. Olha esse Michael Jackson, do tempo em que era negro e saco de pancadas do pai:
Ou esse Clint Eastwood (reparem nas linhas que compõem o cabelo):
São os desenhos de Felipe Kenia Bernardi, fera do traço realista tanto no grafite como no óleo. Conheci o Felipe através do Cleriston, e o mano logo se ofereceu para deixar o Boteco mais bonito com uma obra sua. Felipe perguntou quem ele poderia desenhar.
—A Belladonna, é claro — respondi, salivando.
O resultado:
Os legionários de Onan condecorados em batalha vão notar que o Felipe acrescentou uma tatu à deusa, e ele explica: foi uma gambiarra que ele desenhou para encobrir um erro. Está perdoado, Felipe. Porque a Belladonna merece ser homenageada. Sempre.
Admiração é para pessoas dignas e respeitáveis. Gente desqualificada como eu tem mesmo é inveja. E uma figura que eu invejo é Vanessa Bárbara. Não porque ela seja escritora premiada com o Jabuti, colunista do Estadão e repórter da Piauí, tudo isso aos 27 anos. O que eu invejo mesmo é o texto da mina.
O Gerador Automático de Reportagens aí de cima (clique para ler inteiro, vale a pena), uma tiração de sarro com os jornalistas que escrevem sempre as mesmas matérias sobre o terminal Tietê, é um dos muitos achados d'O Livro Amarelo do Terminal, que na semana passada levou um merecido Jabuti na categoria de melhor reportagem. Isso é o livro: uma fuga de tudo o que seja fórmula ou lugar-comum. Vanessa sempre escolhe as formas mais inusitadas para narrar esse perfil sobre a rodoviária do Tietê e as figuras que circulam por ali. No texto dela, o terminal é uma Macondo de histórias fascinantes e personagens surpreendentes.
— Sempre procurei escrever minhas matérias do jeito mais diferente — ouvi Vanessa contar numa palestra sobre "jornalsmo literário" na Livraria da Vila. (A maioria das redações e faculdades de jornalismo busca exatamente o contrário, obrigando profissionais e estudantes a encaixar as informações sempre dentro dos mesmos escaninhos textuais, mas isso é para outro post...).
E Vanessa não cai nas armadilhas que costumam atacar muitos que se metem a fazer o tal do "jornalismo literário". Acontece que o texto criativo de Vanessa não é uma roupinha frufru para esconder a apuração deficiente. É parte integrante (não pode ser vendida separadamente) dos sentidos da autora: um olhar para as crianças que brincam diante de pais sonolentos nas cadeiras do terminal; um par de ouvidos para as histórias de carnes inchadas de vermes carregadas em malas e velas acesas dentro de gavetas para o cumprimento de promessas.
E o livro também não cai na superficialidade, outro pecado geralmente associado ao jornalismo literário mal compreendido. Não é só uma crônica esticada sobre o Tietê, fruto de alguns passeios pelo lugar e meia dúzia de entrevistas com a galera. O capítulo mais extenso é uma longa história sobre a construção do terminal, baseada em centenas de matérias de jornais e documentos oficiais empoeirados. Vanessa transforma essa narrativa histórica num conto surrealista cheio de humor e lances inusitados, entremeado por trechos de canções do período.
Eu invejo Vanessa Bárbara, mesmo ela tendo dois nomes e nenhum sobrenome. Aliás, se sobrenome tivesse, poderia ser Talese. Ou mesmo Eisner.