O dia em que a minissaia de Geisy entrou no
fogo cruzado entre mulheres e feministas
Feminista discute com alunas anti-Geyse
na porta da Uniban (foto Bianca Alves)
Final de tarde do último dia 9. É dia de luta, e elas estão preparadas. Carregam bandeiras púrpuras e vermelhas. Tocam tambores. Empunham cartazes com imagens de mulheres algemadas e amordaçadas.
"Ditadura Uniban”, “Contra todas as formas de discriminação”, “Grite! Pra nunca mais ninguém tentar te calar”, “Mulher não é objeto” são os dizeres. Sobre o trio elétrico alugado, puxam a palavra de ordem:
— A violência / contra a mulher! Não é o mundo / que a gente quer!
Representantes de entidades feministas, partidos de esquerda e da União Nacional dos Estudantes. A maioria são mulheres, vestindo roupas largas e com pouca cor, sem batom ou maquiagem. Todas unidas para protestar contra a decisão da Uniban de expulsar
Geisy Arruda pelo crime de caminhar rebolando numa minissaia rosa choque. É a luta das mulheres contra a opressão masculina, o movimento estudantil contra os reitores reacionários. A manifestação, cerca de 100 pessoas, estaciona em frente ao câmpus de São Bernardo de Campo e é logo recebida por uma muralha de estudantes irritados, enfileirados diante dos portões da universidade, que distribuem vaias, xingamentos e bate-bocas. Aí vem a surpresa.
Os inimigos mais exaltados da manifestação feminista, aliados da opressão masculina, são justamente as mulheres — algumas até exibindo decotes, saias curtas e blusas de alcinha. Estão na linha de frente da força anti-feminismo em defesa da Uniban, ao lado dos homens, gritando suas contra-palavras de ordem:
— Uh, fora! Uh, fora!
— Vão lavar roupa!
— Vão arrumar o que fazer!
— Vão para um bingo!
Cleoni Santos: "chocada" com a
postura das alunas (foto Bianca Alves)
São minoria, coisa de uma centena. A maioria dos estudantes observa a aglomeração de longe, dá risadas e, depois de algumas tentativas de aparecer na frente das câmeras de TV, deixa a muvuca para trás e vai para as salas de aula. Mas é uma minoria barulhenta.
— Vocês não estavam aqui — diz uma das alunas. — Não sabem o que aconteceu naquele dia.
— A menina foi atacada e humilhada pelos colegas. Isso... — responde um manifestante.
— Ela se exibiu. Desfilou. Ofendeu a moral dos outros.
— Que moral é essa que leva a agredir uma mulher?
— Existe uma ética. A pessoa não pode vir nessa universidade usando uma roupa daquele jeito.
E a discussão prossegue sem fim. Algumas militantes estão perplexas. Carregando um cartaz com a imagem de uma mulher amordaçada, Cleoni Santos, 51 anos de idade e 18 de luta política, hoje à frente da Pastoral da Mulher Marginalizada, está impressionada:
— Estamos todas chocadas. A gente ver mulheres jovens com uma posição tão ditadora, tão... eu não tenho nem palavras. O movimento feminista ficou surpreso.
O embate mistura os avatares do eterno game das lutas sociais. Defensoras de mulheres batem boca com mulheres. E o movimento estudantil? Onde estão os revolucionários dos diretórios acadêmicos, vestindo camisetas de Che Guevara, reclamando contra o fascismo da reitoria e exigindo democracia no câmpus? Aqui não há nada disso. Não na Uniban.
— Desde que aquele aluno foi
assassinado no Calabouço, os estudantes sempre lutaram a favor dos estudantes. E as mulheres sempre lutaram a favor das mulheres — compara Vanda Nunes Santana, 45, militante da Marcha Mundial de Mulheres. — É a primeira vez que vejo isso: aluno contra aluno.
Sabrina Sato em vestido provocante, mas
sem gritos de "puta, puta" (foto Bianca Alves)
Perto dali, estudantes se espremem dentro dos ônibus azul, vermelho e branco da EMTU a caminho da universidade. Os celulares não param de tocar.
— Ah, que baixaria... — diz uma delas para o telefone. E depois, para as amigas, sorridente: — Gente, diz que o Pânico está lá na entrada. A Sabrina Sato chegou com uma roupa rosa igual à dela. Podia ser o CQC, né? Pelo menos eles são gatinhos.
— Deu em tudo lugar. Até no New York Times. Chique!
— E ela saiu bem na foto do site. Ficou parecendo até que ela era bonita.
— Mas a Uniban cagou, hem? Expulsar a menina da faculdade? Nada a ver. Deixa a menina estudar, gente.
— Eu acho que a Uniban está até gostando dessa mídia toda.
— Fica de olho para ver que hoje eu vou aparecer na televisão, tá bom? Tchau — e desliga o celular. — Vou aproveitar e distribuir meu currículo para o pessoal da televisão. Quem sabe não consigo alguma coisa?
Estudantes da Uniban, uma galera que costuma sair do trabalho e ir direto para a faculdade de ônibus, arrastando-se em meio ao trânsito atulhado da avenida Anchieta. Daí desembarcam e dão de cara com uma pequena multidão de militantes que, diante de câmeras, flashes e microfones, dispara ataques como:
— A Uniban não é uma universidade. Não serve para educar ninguém.
— A Uniban não forma estudantes. Forma animais.
Não admira que o protesto não tenha conseguido a simpatia dos alunos.
— Não gosto de ver o nome da minha faculdade ser jogado no lixo — reclama uma aluna de 57 anos, que se identifica apenas como Maria. — Ainda mais por causa de uma menina como a Geisy.
O que Geisy fez?
— Ela subiu a rampa rebolando e mostrando a bunda. Ela tinha que se colocar no lugar dela de mulher.
Não que a marca Uniban fosse sinônimo de credibilidade antes de a universidade resolver queimar numa fogueira o vestido rosa choque de Geisy e suas redundâncias. Acostumada a frequentar a lanterna das avaliações do MEC, os cursos da Uniban sempre foram daqueles que os alunos escolhiam unicamente pelo preço, um diferencial que a universidade explora descaradamente: o chamariz "Cursos a partir de R$ 199" é o primeiro que salta aos olhos de quem acessa
o site da empresa, sem qualquer menção a qualidade dos cursos ou dos professores. A Uniban é o equivalente educacional dos pratos feitos dos botecos, dos salgadinhos de isopor e dos empréstimos extorsivos das financeiras. Pode não ser grande coisa, mas é o que você pode pagar, certo? Nessas condições, não dá para esperar que os estudantes queiram mudar o mundo ou que encarem o saber universitário como algo além de uma ferramenta que pode ajudá-los a conseguir um trampo melhor. Pelo contrário: é um ambiente bom para o cultivo de conformismos, a adequação a padrões estabelecidos, o espírito de manada.
— Quanto vocês receberam para estar aqui? — pergunta um aluno para uma feminista, sem esperar a resposta. (Mas é claro: alguém só iria até a universidade e faria aquele escarcéu de gritos e bandeiras se estivesse rolando grana na parada. Que motivação alguém pode ter para agir se não for grana?)
Muitos dos alunos ficaram contra a decisão de expulsar Geisy, mas ninguém se animou a fazer algum tipo de reclamação formal contra a reitoria. Para quê? Esse assunto já deu. Quem liga para essa menina? O que eles querem é estudar, conseguir logo o diploma e arrumar um emprego que justifique o dinheiro gasto para comprar o canudo.
— A imprensa não tem assunto! A imprensa não tem assunto!
Era outra das palavras de ordem dos estudantes, revoltados com a cobertura sensacionalista da mídia.
— A imprensa nem quer saber do que aconteceu. Eles só querem mídia — reclama Marcia de Paula, 25 anos.
Como ela é uma estudante de Rádio e TV, pergunto se ela terá uma postura diferente quando estiver no mercado de trabalho.
— Não. Vou fazer igual vocês estão fazendo. Vou fazer o meu trabalho.
Nada de desafinar coros, remar em contracorrente. Muito menos desertar do pelotão de apedrejamento da Geny da Uniban
— A Geisy mereceu ser discriminada como foi — afirma Paula, com convicção. — Porque ela levantou a saia. O vestido dela não ia até os joelhos, como apareceu na Record. Ela estava provocando.
Engraçado como ninguém culpa os homens que criaram o tumulto na universidade. Eles não eram responsáveis pelo que faziam, apenas respondiam a uma provocação. Para a Uniban, Geisy é a Piranha Suprema, a serpente da Babilônia que enlouqueceu centenas de homens ao balançar suas coxas endiabradas mal cobertas pelos véus de pomba-gira rosa choque.
E não foi exatamente por causa do vestido curto. Outras meninas da Uniban também usam roupas curtas, blusinhas, decotes. Pelo que os alunos contam, o delito de Geisy foi ir contra os padrões considerados aceitáveis pelas outras alunas. No seu perfil do Orkut, em que adota a identidade de
**Loirão* tenta quem sabe vc consegue, Geisy integra comunidades como
Sou Loira,Perua e Amo Rosa,
*Eu ñ ando, desfilo!*,
Sou Gostosa!Fazer oq?Eu posso! e
TE INCOMODO?? Que peeena!. É o retrato em pixels da menina que gosta de provocar os homens, ser desejada, chamada de gostosa e que não liga para a opinião da maioria. Uma postura que pode ser perigosa em alguns ambientes. Afinal, quem gosta de mulheres livres? Nem as feministas — pelo menos, algumas delas.
— Quando um homem chama uma mulher de "gostosa" na rua, está dizendo que aquela mulher é inferior a ele — proclama uma das feministas de microfone em punho sobre o trio elétrico.
Então, um homem chamando uma mulher de gostosa está no mesmo nível de barbárie da turba que fez Geisy se trancar numa sala sob os gritos de "Puuuta, puuuta"... Duvido que a própria Geisy, motivo do protesto, concordasse com uma sentença dessas.
Às oito horas, o clima é de fim de festa. Sabrina Sato e seu vestido rosa já foram embora. O trio elétrico e a maior parte dos manifestantes, também. Os alunos voltam para a sala de aula. Quem ficou na calçada rodeia a equipe da Record, para fazer a dança do siri ou gritar "GOSTOSA!" para a repórter que tenta fechar uma passagem.
— Quer ouvir o que ninguém contou sobre a Geisy? — um grupo de alunos, meninos e meninas, me rodeia, ávidos para compartilhar segredos.
Gravador e bloco de notas em punho, me preparo para ver desvelados os mais constrangedores segredos de alcova. Pronto para conhecer detalhes de orgias envolvendo Geisy ao lado de porco-espinhos xifópagos, madres superioras com falos portáteis e malabaristas com priapismo crônico, peço:
— Claro. Conta aí.
E eles me revelam:
— Ela tinha foto no Orkut com a perna cruzada e sem calcinha.
— Naquela noite, ela desfilou com a minissaia. Teve hora que levantou o vestido de propósito.
— Depois que a confusão começou, uma menina ofereceu uma calça legging para ela colocar no banheiro, mas ela não quis.
— Um dia antes, sabe o que ela faz? Foi num barzinho toda agitada, toda alegre. Tirou a blusinha e ficou só de top.
Hum, tá.
Era isso?
As mais chocantes histórias sobre a Devassa da Uniban se resumem a isso aí. Na Uniban, é currículo mais do que suficiente para alguém perder qualquer direito à dignidade.
Do outro lado da rua, a menos de cem metros dali, carros continuam a entrar e sair sob o letreiro em neon vermelho do MOTEL TREVO. Discussões sobre minissaias, tops e moralidades ficam do lado de fora.