27 de novembro de 2009

Iniciação à morte

Eu já estava no colegial. Lembro de chegar ao pátio da escola e ouvir os colegas comentando os detalhes de um acidente. O caminhão havia perdido o freio no viaduto e descido a ladeira a toda, até se escangalhar contra o monumento da pracinha ao pé do morro — um pedestal com um busto em homenagem ao coronel Nome de Rua. Fez em pedaços uma velhinha que havia trepado ao monumento para tentar escapar.

— Foi muito legal — contava um dos meus colegas, um testemunha de Jeová que não falava palavrão, não via revista de mulher pelada e não comemorava o Natal. — A cabine do caminhão ficou toda detonada.

— Tinha muito sangue?

— Tinha sangue para tudo quanto era lado. E uns pedaços. Tinha um bitelo de carne assim, ó, vermelhão, acho que era o coração.

— E a cabeça?

— A cabeça foi parar longe. Eu vi os caras recolhendo os pedaços e colocando num saco. Tiveram de arrancar uns pedaços que ficaram misturados com a carroceria do caminhão.

Foi quando me chamaram para falar com a diretora, e ela me disse que a morta no acidente era a minha madrinha. Voltei para a classe e peguei os cadernos do Anglo. Os colegas ficaram constrangidos quando souberam, ensaiaram desculpas atrapalhadas. A diretora me deu uma carona até o velório.

Estava cheio. Não sabia que tantas pessoas conheciam minha madrinha. E não conheciam mesmo, logo vi. O velório estava cheio de curiosos que chegavam ali na febre de ver o que havia sobrado do corpo e faziam cara de decepção ao ver o caixão lacrado.

Foi minha primeira lição sobre a morte, a solidão do sofrimento, o show do horror. Essas coisas. Anos depois, virei repórter policial.

(Texto originalmente publicado em 2004, no meu falecido blog Longa Jornada Noite Adentro, sobre os bastidores da reportagem policial)

"Que entrem os dois sem hesitar"


Olha só. Não há nada de novo nem mesmo onde o sol não costuma brilhar. Ode do obscuro poeta Galo, da Antiguidade helênica, já falava em dupla penetração:
A três homens eu, Lide, servi com a maior presteza:
     um sobre o ventre, outro debaixo e o outro atrás.
Recebo pederastas, mulherengos, extravagantes.
     Se tendes pressa, que entrem os dois sem hesitar.
(tirado de Poesia Erótica em Tradução, de José Paulo Paes)

23 de novembro de 2009

Porão de sacanagens


Maurício Porão em ação

Mulher pelada combina com...

...casarões abandonados, ruínas, paredes esburacadas e móveis imundos, de preferência habitados por fantasmas.

É nesses cenários que o fotógrafo Maurício Porão constrói o seu erotismo sujo, inspirado no trabalho do tcheco Jan Saudek. Underground já no pseudônimo, Maurício é um "ex-policial negão, antissocial, gordinho e com cara de mau", que só se sente à vontade nos picos frequentados por putas, punks e podres em geral. Para ele, ambientes aparentemente mais respeitáveis, como o do jornalismo ou o da polícia, dão nojo.

"Desbravador de casarões abandonados", Maurício gosta de procurar os lugares mais detonados para tirar a roupa de suas modelos, geralmente recrutadas entre amigas punks, garotas de programa e atrizes pornô. Quanto mais devastado o cenário, melhor. E melhor ainda se for o lar de algum espírito, que Maurício afirma ser capaz de vistualizar com seus dons mediúnicos.

Se forem reais, os espíritos provavelmente não trouxeram boa sorte para as fotos de Maurício, que, segundo ele, costumam ser barradas em todos os lugares, de galerias de arte a sex shops. Sem pistolões no mundo da arte, Maurício só consegue espaço na Plano B, que ele define como "o último reduto do underground na Lapa", lá no Rio. Até fevereiro do ano que vem, Maurício apresenta ali a exposição Minimal Sessions, tema dessa entrevista para o Boteco Sujo.
Boteco Sujo - O que é a exposição Minimal Sessions?

Maurício Porão - Com a exposição Minimal Sessions, faço uma singela homenagem a todas as pessoas que abordei durante os oito anos do extinto site www.minimaldevotion.com. Que confiaram e curtiram fazer parte desta história. Sublinho todo um universo mal interpretado e estereotipado de uma forma digna e imponente. Eram alguns de seus melhores momentos e eu estava ali ao lado, como cúmplice. E o único local que aceita expor as fotos de Porão no estado do Rio de Janeiro não poderia deixar de ser a lendária Plano B — o sebo mais internacional do Brasil, ali na velha Lapa.

Boteco - O que é esse "universo mal interpretado e estereotipado"?

Porão - Univeso mal interpretado e estereotipado = punks, góticas, bangers, travestis, garotas de programa, tatuadoras etc

Boteco - Há quanto tempo você faz esse trabalho?

Porão - Estou completando oito anos, mas sou fotógrafo há mais de 15 anos. No momento sou 100% fotógrafo, porque sou fotojornalista, mas posso lhe dizer que minha paixão é pelas fotos de sensualidade e não pela fotografia em si.



Boteco - E o que te levou a querer fotografar esse universo? Por que a sensualidade desse universo alternativo?


Porão - Bem, são os meios que eu sempre frequentei e tenho amigos, conhecidos, camaradas, inimigos, desde que me conheço como gente. Na primeira versão do site Minimal, eu tive a ideia de fotografar as meninas das bandas que eu entrevistava (a primeira versão do site tinha a música independente como foco principal).

Boteco - E depois?

Porão - Comecei a pirar com os resultados dos ensaios e a coisa foi tomando outro formato. comecei a convidar amigas para posar em casarões abandonados, cenários decadentes. Comecei a aguçar na sensualidade. Na minha opinião, minhas amigas e conhecidas eram muito mais gatas e interessantes do que estas super modelos de revistas masculinas. E como nunca tive muito equipamento, trouxe a coisa para a minha limitação: luz natural, no máximo um rebatedor...


Boteco - E os cenários?

Porão - Eu sou pesquisador e desbravador de casarões abandonados, ruínas, motéis decadentes... Meus amigos quando descobrem algo entram em contato comigo e eu contato os possíveis proprietários para propor um aluguel ou algum tipo de acordo. Acabo de descobrir um dos lugares mais incríveis e enigmáticos do país, mas não vou dizer onde fica. Tem gente me copiando por aí.

Boteco - As modelos se dão bem com esse ambiente decadente, sujo, desglamurizado? Alguma já reclamou?

Porão - Elas simplesmente AMAM esses lugares! Pelo contrário: não funcionaria se outro contexto fosse abordado.

Boteco - Tem tudo a ver com o universo que você aborda.

Porão - Claro que tem. Há também os fantasmas desses lugares..."Eles" parecem me apoiar.

Boteco - É? De que jeito?

Porão - Alguns já se manifestram nos Casarões da Glória. Eu vi!

Boteco - Viu mesmo? Como eram?

Porão - Sou médium. É muito comum espíritos vagantes ocuparem atmosferas densas em casas abandonadas.


Foto de Maurício Porão 

Boteco - Mas imagino que não seja possível fotografá-los.

Porão - Nunca. Quem diz que conseguiu está mentindo...Mas eu tive inúmeras experiências com sons e coisas voando do nada nos casarões da Glória durante os cinco anos em que os utilizei. Creio que eles se manifestavam mais quando não gostavam de uma possível farra que estivesse sendo feita. Sempre convidei grupos de modelos para fotografar: levávamos lanche, vinho, cervejas e o aparelho de som com muito rock`roll. Às vezes nos excedíamos! Mais recentemente, neste local que não quero revelar, uma das modelos era médium e viu um vulto enorme e pacífico se manifestar. Ela ficou emocionada!

Boteco - Maurício Porão é pseudônimo?

Porão - Sim. Meu nome é Maurício José Bezerra da Silva. Porão é um apelido antigo e tem conotações engraçadas. Não sou um cara down, sou mais engraçado mesmo. É porque há 15 anos atrás eu era o cara que mais curtia Ratos de Porão no Rio de Janeiro. Hoje nem tanto assim, mas gosto do meu apelido.


Boteco - E o apelido continua tendo muito a ver com o tipo de arte que você faz. essa beleza underground, de porão, mesmo

Porão - É, creio que sim. Minhas fotos sou eu. Isso é clichê, mas estou chegado aos 40 e continuo aficionado por estas modelos e estes cenários. A música sublinha tudo isso. Saudek é meu ídolo mor nessa minha vida.

Boteco - Saudek é a sua grande influência?

Porão - Saudek é minha grande admiração, não digo influência. O cara era tão glamouroso, tão estiloso e respeitador de seus personagens. Seria muita presunção minha dizer que tenho influência de Saudek. O que ele fazia era único.


Boteco - Você conhece o movimento altporn, de gente como o Xplastic?

Porão - Conheço, sim. Creio que seja uma outra e muito interessante linguagem. Não é a mesma coisa. Eu só chego até o erótico, não ultrapasso para o pornô. Mas adoro assistir a filmes pornôs alternativos. As modelos são lindas! Faria esse tipo de foto, mas de forma profissional, mesmo. Como arte, não.

Boteco - Pornografia pode ser arte?

Porão - Com certeza! Esses filmes alt pornôs pra mim são arte. Só digo que minha fotografia não inclui a pornografia...mas não tenho repúdio algum.


Boteco - E essa exposição, como que rolou?

Porão - Na verdade, é com se eu estivesse expondo em casa. A Plano B é o último reduto do underground na Lapa — por ali passam as pessoas que viveram aquela vibe punk, pós punk dos anos 80 e vários e vários tipos de malucos do bem. O Fernado e a Fátima — proprietários da loja — são dois queridos amigos. A loja tem tudo a ver com minhas fotografias. A expo teve início em 28 de fevereiro de 2009 (meu aniversário) e tinha os objetivos de comemorar meu aniversário e principalmente prestar uma homenagem à Minimal, que havia acabado devido ao meu desentendimento com meu ex sócio. Mas fluiu tão bem que teve a segunda parte, estamos na terceira e ainda terá a quarta. Substituo as fotos a cada três meses e pretendo encerrar em 28 de fevereiro de 2010.

Boteco - Uma maneira de manter seu trabalho vivo, mesmo com o site fora do ar?

Porão - Exato. Muitos estrangeiros frequentam a Plano B. Eu acho legal que essas pessoas conheçam meu trabalho. Na verdade, eu visto a camisa da Plano B e é uma honra poder decorar a lojinha. Mas há um fato: minhas fotos já foram vetadas em sex shop da Tijuca, em galeria de Arte em Friburgo, em festinha de burguês metido a esotérico do Leblon. Só na Plano B tenho espaço.


Boteco - Já vetaram suas fotos até em sex shop?

Porão - Sim, eu estava tentando vender ensaios fotográficos como uma espécie de estímulo para casais em crise. A gerente era muito simpática e adorou a boa idéia. O dono da loja vetou. Agora, o mais incrível foi em Friburgo: eu já tinha até mesmo uma data marcada. E a diretoria provinciana e política da galeria "derrubou" minha temporada. Esse tipo de coisa só me faz ter ainda mais amor pela minha arte!

Boteco -  Não imaginava que houvesse essa resistência contra seu trabalho.

Maurício - Existe sim, Fausto. É fato!

Boteco -  Quando um gringo como Terry Richardson vem para o Brasil, é tratado como unanimidade.

Porão - Pois é. Mas estou acostumado com isso. Minha vida toda tem histórias de preconceitos. sou negão, tenho cara de mau, estou/sou gordinho, sou ex policial. Na boa: foda-se! Sou extremamente antissocial também. Não gosto de playboy e vivo nos submundos da vida.


Boteco - Você é ex-policial?

Maurício - Sim: ex-policial civil de São Paulo. Investigador. 

Boteco -  É curioso.

Porão - Adorava a polícia. Não gostava da maioria dos colegas, isso sim. 

Boteco -  A gente costuma associar polícia com repressão e autoridade. E o seu trabalho como fotógrafo é transgressão e marginalidade.

Porão - Eu penso que a polícia me permitiu desenvolver um lado bem humano, inclusive. Você fica ali na linha tênue da desgraça alheia. Dentro da policia tem banger, góticas, gays....e tem muita gente estúpida também. Como em qualquer outro contexto social. O meio jornalístico, por exemplo (sou jornalista de formação), acho um nojo.

Boteco Sujo - E os fotografados, o que eles acham dos resultados?

Maurício Porão -  Bem, nesta pergunta não poderei ser modesto. Já salvei a auto-estima de várias pessoas, que são gratas a mim eternamente. Por isso, nunca vou parar de fazer esta minha vida atual. Tenho relatos guardados em minha memória que até me fazem lacrimejar. Para algumas (muitas) pessoas que interpretam o resultado dos ensaios de forma errônea, tenho uma frase de Say Baba que funciona muito bem: "Quando cenas sagradas são implantadas no coração, não haverá espaço para sentimentos ou pensamentos ruins crescerem nele".


22 de novembro de 2009

O direito das putas


Vídeo de Maxx Figueiredo

O Boteco pela primeira vez abre espaço para uma colaboração feminina. É da Talitha Lessa, uma professora de geografia que resolveu se vestir de puta para se juntar ao protesto contra a expulsão da Geisy ocorrido duas semanas atrás diante da Uniban, mas voltou decepcionada com a atitude das feministas. Ela deixou um comentário tão instigante num post do Boteco sobre a manifestação que pedi a ela para escrever sobre o assunto como botequeira convidada. Com vocês, Talitha.

Fui à manifestação vestida de puta, pra defender o direito das putas à dignidade e ao respeito. Então, daqui segue um relato reflexivo sobre o caráter da manifestação, e sobre porque ele não correspondeu às minhas expectativas. Sobre o que eu projetei que seria expresso, e tentei expressar politicamente, e sobre o que foi expresso pelos manifestantes de maneira geral.

Inicio, então, expondo o que me motivou a, prontamente, decidir participar quando soube do ato, e a ir caracterizada como meretriz (talvez assim fique mais bonito). Pensei alguma coisa muito simples, pra mim até óbvia. Seria mais ou menos nesta linha: o papel da militância é pedagógico: trata-se de instaurar uma crise na consciência de quem ainda não pensou em algo como um problema. Por partes, então, a seguir.

O problema, no caso, é o do respeito à mulher como sujeito de sua sexualidade. Quem ainda não pensou no problema, e segue reproduzindo uma mentalidade que muitos, por excesso de otimismo, julgavam ultrapassada, é o conjunto dos estudantes da Uniban (homens e mulheres, indistintamente, já o sabíamos). E também, parte da “opinião pública”, já que houve quem levantasse a possibilidade de justificar a violência coletiva contra a moça a partir de tal ou qual conduta por ela assumida.

Assim, havia pelo menos dois grupos de pessoas a ser sensibilizadas para a questão do direito ao respeito e à dignidade, e do direito ao exercício da própria sexualidade pela mulher: o grupo de alunos da Uniban, por um lado, e a parte mais reacionária da opinião pública, por outro. A partir do momento em que se escolhe fazer a manifestação no quintal da Uniban, é de se pensar que o movimento tenha assumido a necessidade de chacoalhar a consciência dos estudantes de lá.

Porque se, enquanto movimento, eu quero atacar os estudantes da Uniban e dizer que o problema social é a existência deles, daqueles homens e mulheres especificamente, como se fossem os últimos reacionários do planeta, junto com a direção de sua faculdade, então não tenho nada o que fazer lá. Até porque, é lógico que os referidos estudantes vão estar em maior número. E é lógico também que sua reação imediata vai ser a defesa da faculdade, porque seu interesse em se formar vem primeiro. Então, se minha intenção é atacá-los e se eu considero que o inimigo são eles, não vou à sua presença. Marco a manifestação em outro lugar, num lugar simbólico, longe deles, e falo que eles têm que ser punidos. Isso até poderia ter algum efeito sobre a parte reacionária da opinião pública, ou seja, sobre o outro grupo de pessoas a ser conscientizada do problema. Mas penso que não seria o ideal, já que a idéia subjacente de que os últimos machistas do mundo estejam na Uniban, e de que o verdadeiro inimigo seja aquela instituição e seus estudantes, me parece equivocada e pouco esclarecedora.

Nosso protesto não seria, então, contra especificamente a instituição, nem contra aqueles homens, nem contra aquelas mulheres. Mas contra uma mentalidade que vai muito além daquilo tudo e que, naquele momento histórico, estava expressa no ato violento dos rapazes e das moças e na conivência da instituição, além da tentativa de inversão entre réu e vítima, e de obtenção do respaldo da opinião pública.

(Alguma manifestante poderia objetar: “não, naquele momento se tratava prioritariamente de conseguir que a Uniban revertesse sua decisão.” Esta objeção seria, entretanto, ingênua: a repercussão internacional, a intervenção do governo federal, e mesmo a justiça burguesa garantiriam o direito da moça a continuar estudando. Com um pouco de bom senso, estava fácil avaliar que, ou a Uniban errou feio e teria de voltar atrás, ou que fez de propósito, talvez pra desviar a atenção do fato de que não poderia punir todo o conjunto de sua clientela sem correr o risco de abrir falência. Então, pune Geyse, depois, “cedendo às pressões”, não pune mais, e nisso morre a questão de punir os agressores – já que tal punição seria inviável. Alguém parou pra pensar se o desenvolvimento da história seria o mesmo se os agressores fossem dois, ou até se fossem dez? Mas setecentos... )

Bom, se a Geyse teria cedo ou tarde seu direito à educação garantido, e se o machismo vai muito além deste ato de violência, como demonstra o fato de que mesmo a opinião pública ficou dividida, então o que seria o papel do movimento? Como disse, dar um chacoalhão na consciência dos caras, e mostrar à opinião pública um outro jeito de ver as coisas.

Isto não podia ser feito dizendo, para eles, que eles são uns escrotos. Mas podia ser feito com um pouco de leveza e bom humor. E eu pensei que a manifestação fosse ter este caráter, e fui pra lá de boa. Cheguei me maquiando no ônibus com as minhas amigas, levantando a saia, tirando a roupa. As pessoas faziam umas caras meio espantadas, a gente rebolava mais, se abanava com o leque. E logo, conversando, concluíam:

“Está tendo um protesto aqui, hoje.”

“Ah.”

Confesso, no entanto, que fiquei muito mais desapontada com as feministas do que com os estudantes. Elas estavam muito mais dispostas à briga do que ao diálogo. A partir do tom belicoso que o discurso da manifestação assumiu, os estudantes imediatamente se sentiram ameaçados, e compraram de vez a estratégia de culpabilizar a conduta moral da Geyse, salvaguardando a si mesmos, no caso dos agressores, e à faculdade, no caso dos demais — que querem se formar. Ou seja, ao invés de nos apresentarmos como alguém que veio mexer numa verdade estabelecida, com jogo de cintura, fomos até lá como donas da verdade, desqualificando de antemão os possíveis interlocutores, os colocando na posição de inimigo. Aí, o clima ficou horrível, os ânimos acirrados, e as feministas, chocadas com a postura geral dos alunos da Uniban.

E eu me pergunto, ora, que tipo de militância é esta que espera que o “inimigo” declarado venha e te peça desculpas?

O que eu achei mais chato ainda é que além disso, quando as feministas viram que a gente vinha brincando de puta, pra testar a reação, ao invés de, como a maior parte dos estudantes, ficarem intrigadas, não, ficaram foi indignadas: “Mas a Geyse não é puta!”

E por acaso faz diferença, então?

Que p. de feminismo é esse? O que exatamente elas foram lá defender? O que foram atacar? Estudantes que bem ou mal querem se formar, eles mesmos, ou uma mentalidade, que está muito além daqueles homens, daquelas mulheres, da Uniban?

Pior, rolava era um papo moralista que só, toda uma teorização sobre as causas da prostituição, e sobre a conivência do machismo para com ela, e levantou-se mesmo um debate sobre a “falta de seriedade” no tratamento que estávamos dando à questão. Algumas feministas da marcha perguntavam: “Mas de onde veio a idéia de divulgar que as mulheres viessem de minissaia, não é nada disso!”

Claro, eu mesma não gosto de prostituição. Mas acho que o contraponto no imaginário coletivo da puta é a santa, a freira. E as feministas me pareciam estar obstinadas em permanecer no segundo pólo, muito mais que em diluir os dois numa noção mais humana e realista do feminino. Em suma, pareceu-me que mesmo elas não perceberam a necessidade de desconstruir o argumento de que “Geyse não se dá ao respeito”. Sua postura geral parecia simplesmente continuar na mesma linha de argumentação: “sim, mas se ela age assim é porque há toda uma sociedade que transforma os corpos femininos em objeto, e isso a redime de seus pecados.” Ou, ainda: “se ela é pecadora, mais ainda são os homens que a querem como objeto, a sociedade que a colocou neste papel etc, etc, etc.”

Ou, pra resumir de vez: “Aquele que não tiver pecados, que atire a primeira pedra!”

Então, volto a perguntar: faz diferença se ela é ou não puta?

Uma ironia histórica, a propósito. A única pessoa que colocou em palavras o que eu achava que todas deveríamos estar expressando foi a Sabrina Sato, que foi lá, como tantas outras pessoas, a trabalho. Ela disse: “Mulher se veste do jeito que quiser.” Mas, sendo uma só, e tendo como ofício, de fato, distrair os homens através da exposição de seu corpo, não estava exatamente exercendo sua liberdade sexual. Estava trabalhando, estava a serviço. Por isso não foi agredida.

A primeira coisa que me ocorreu sobre a Geyse quando numa mesa de bar se levantou a questão sobre ela ser ou não puta foi exatamente isto: “Se fosse puta mesmo, não incomodaria ninguém. O castigo que ela recebia era por querer chamar a atenção só por gosto próprio, não a serviço.”

Mas isso não muda o fato de que puta também merece respeito. De que todos e todas merecem.

*********

Me desapontou mais que tudo, pra além do moralismo das feministas, foi a falta de gente ali envolvida e apaixonada, com vontade de fazer com que a coisa fosse interessante. Então, não pude deixar de associar esta falta de paixão a um fato que observei: quase toda a militância que esteve lá era profissionalizada, gente que dedica a vida ao chamado “terceiro setor”. A imensa repercussão que a coisa teve na internet não obteve eco nenhum no ato em si mesmo.

E isso me chamou um segundo pensamento, que é a internet como falsa esfera pública. As pessoas entram nos blogs e conversam porque querem, e só lê um blog que pode ajudar uma consciência a se emancipar quem já tem, ao menos em parte, a “consciência emancipada”. Quer dizer, não atinge a mentalidade hegemônica, não interfere no senso comum dominante. É como uma sala de estar num condomínio com a porta aberta pra os outros moradores daquele condomínio. O que poderia ter um papel pedagógico, o ato público, fica pra os outros, fica para depois, é deixado pra lá. Vai quem é obrigado a ir, quem vai a trabalho: a militância profissionalizada das ongs. Talvez se possa pensar então que os cidadãos de “consciência crítica” estão terceirizando a participação política: na nossa época, o protesto é terceirizado, feito pelo terceiro setor.

Que ainda espera ser recebido com um tapete vermelho. Ou seja, não tem a mínima clareza de seu papel social educativo, do papel pedagógico da militância. Ou, ainda que tenha clareza, não tem um compromisso intrínseco e cívico, mas apenas um compromisso de trabalho – uma formalidade.

Talvez isso explique ao menos em parte o fato de que se questionem tão pouco e tenham tantas fórmulas prontas, e sejam tão portadores da verdade.

Uns dias depois, vi um protesto organizado pelos estudantes da UnB, em que foram à faculdade nus, ou com roupas curtas, ou sensuais. “Bom”, pensei, “pelo menos não estou tão sozinha”.

Talitha Lessa é professora de geografia e atuou por três anos na rede municipal de São Paulo. Atualmente desenvolve pesquisa de mestrado sobre burocracia e a autonomia escolar na teoria e na política educacional, na Faculdade de Educação da USP.

18 de novembro de 2009

Maracutaia nostálgica


Arte de Erich Baptista
"O cheiro inconfundível de maracutaia e grana alta empesteou ainda mais Brasília nos últimos meses. Anda rolando uma briga entre cachorros bem grandes e o prêmio é um osso suculento de US$ 1,4 bilhão, destinado a quem for escolhido para tocar um projeto para lá de ambicioso do governo federal chamado Sivam (apelido de Sistema de Vigilância da Amazônia). O Planalto quer montar uma extensa rede de radares e centros de controle aéreo para vigiar de perto, por terra e por ar, cada um dos 5,2 milhões de quilômetros quadrados da maior floresta do mundo e assim combater todo tipo de bagunça, inclusive desmatamentos, contrabando e tráfico de drogas.

A disputa pelo osso do Sivam atiçou dois rotweillers da indústria militar internacional: a francesa Thomson e a norte-americana Raytheon. Depois de uma longa briga de bastidores, o governo brasileiro anunciou em julho que pretende entregar o prêmio para o totó americano. O zé-povinho, ocupado demais com a Copa, ainda não tomou conhecimento de como rolaram as negociações, mas o que se comenta nos orifícios quentes do poder, entre as festinhas sadomasoquistas do Lago Sul e as farrinhas com as meninas da Jeany, é que a escolha foi recheada com todo tipo de baixaria, de ofertas de propinas de todo tipo e até a ação de espiões da CIA e da NSA, a Agência de Segurança Nacional dos EUA. Leia o resto aqui
Abertura da matéria que fiz para o último número da Vice. Esta edição tem o tema 1994: cada texto foi escrito como se tivesse sido produzido há 15 anos, quando a revista foi criada, lá no Canadá. Para mim sobrou o tema Sivam. Eu preferia ter falado da combinação entre os pelos pubianos de Lilian Ramos e o topetão grisalho de Itamar Franco, mas já tinham entregado esse tema para o Arnaldo Branco e o Leonardo, que, claro, fizeram algo muito melhor do que eu faria. Mas, lendo um pouco sobre os bastidores do sistema de abelhudagem na Amazônia, descobri que aquela história tinha tanta sacanagem quanto o caso da sósia da Fafá de Belém sem calcinha.

O título da matéria é Orgia na Floresta. O meu chefe, André Maleronka, disse que queria ter colocado Suruba na Floresta, mas assim não cabia. Surubas ocupam muito espaço.

14 de novembro de 2009

E os inimigos eram elas

O dia em que a minissaia de Geisy entrou no
fogo cruzado entre mulheres e feministas


Feminista discute com alunas anti-Geyse
na porta da Uniban (foto Bianca Alves)


Final de tarde do último dia 9. É dia de luta, e elas estão preparadas. Carregam bandeiras púrpuras e vermelhas. Tocam tambores. Empunham cartazes com imagens de mulheres algemadas e amordaçadas. "Ditadura Uniban”, “Contra todas as formas de discriminação”, “Grite! Pra nunca mais ninguém tentar te calar”, “Mulher não é objeto” são os dizeres. Sobre o trio elétrico alugado, puxam a palavra de ordem:

— A violência / contra a mulher! Não é o mundo / que a gente quer!

Representantes de entidades feministas, partidos de esquerda e da União Nacional dos Estudantes. A maioria são mulheres, vestindo roupas largas e com pouca cor, sem batom ou maquiagem. Todas unidas para protestar contra a decisão da Uniban de expulsar Geisy Arruda pelo crime de caminhar rebolando numa minissaia rosa choque. É a luta das mulheres contra a opressão masculina, o movimento estudantil contra os reitores reacionários. A manifestação, cerca de 100 pessoas, estaciona em frente ao câmpus de São Bernardo de Campo e é logo recebida por uma muralha de estudantes irritados, enfileirados diante dos portões da universidade, que distribuem vaias, xingamentos e bate-bocas. Aí vem a surpresa.

Os inimigos mais exaltados da manifestação feminista, aliados da opressão masculina, são justamente as mulheres — algumas até exibindo decotes, saias curtas e blusas de alcinha. Estão na linha de frente da força anti-feminismo em defesa da Uniban, ao lado dos homens, gritando suas contra-palavras de ordem:

— Uh, fora! Uh, fora!

— Vão lavar roupa!

— Vão arrumar o que fazer!

— Vão para um bingo!
Cleoni Santos: "chocada" com a
postura das alunas (foto Bianca Alves)


São minoria, coisa de uma centena. A maioria dos estudantes observa a aglomeração de longe, dá risadas e, depois de algumas tentativas de aparecer na frente das câmeras de TV, deixa a muvuca para trás e vai para as salas de aula. Mas é uma minoria barulhenta.

— Vocês não estavam aqui — diz uma das alunas. — Não sabem o que aconteceu naquele dia.

— A menina foi atacada e humilhada pelos colegas. Isso... — responde um manifestante.

— Ela se exibiu. Desfilou. Ofendeu a moral dos outros.

— Que moral é essa que leva a agredir uma mulher?

— Existe uma ética. A pessoa não pode vir nessa universidade usando uma roupa daquele jeito.

E a discussão prossegue sem fim. Algumas militantes estão perplexas. Carregando um cartaz com a imagem de uma mulher amordaçada, Cleoni Santos, 51 anos de idade e 18 de luta política, hoje à frente da Pastoral da Mulher Marginalizada, está impressionada:

— Estamos todas chocadas. A gente ver mulheres jovens com uma posição tão ditadora, tão... eu não tenho nem palavras. O movimento feminista ficou surpreso.

O embate mistura os avatares do eterno game das lutas sociais. Defensoras de mulheres batem boca com mulheres. E o movimento estudantil? Onde estão os revolucionários dos diretórios acadêmicos, vestindo camisetas de Che Guevara, reclamando contra o fascismo da reitoria e exigindo democracia no câmpus? Aqui não há nada disso. Não na Uniban.

— Desde que aquele aluno foi assassinado no Calabouço, os estudantes sempre lutaram a favor dos estudantes. E as mulheres sempre lutaram a favor das mulheres — compara Vanda Nunes Santana, 45, militante da Marcha Mundial de Mulheres. — É a primeira vez que vejo isso: aluno contra aluno.

Sabrina Sato em vestido provocante, mas
sem gritos de "puta, puta" (foto Bianca Alves)


Perto dali, estudantes se espremem dentro dos ônibus azul, vermelho e branco da EMTU a caminho da universidade. Os celulares não param de tocar.

— Ah, que baixaria... — diz uma delas para o telefone. E depois, para as amigas, sorridente: — Gente, diz que o Pânico está lá na entrada. A Sabrina Sato chegou com uma roupa rosa igual à dela. Podia ser o CQC, né? Pelo menos eles são gatinhos.

— Deu em tudo lugar. Até no New York Times. Chique!

— E ela saiu bem na foto do site. Ficou parecendo até que ela era bonita.

— Mas a Uniban cagou, hem? Expulsar a menina da faculdade? Nada a ver. Deixa a menina estudar, gente.

— Eu acho que a Uniban está até gostando dessa mídia toda.

— Fica de olho para ver que hoje eu vou aparecer na televisão, tá bom? Tchau — e desliga o celular. — Vou aproveitar e distribuir meu currículo para o pessoal da televisão. Quem sabe não consigo alguma coisa?

Cartazes do protesto (foto Bianca Alves)

Estudantes da Uniban, uma galera que costuma sair do trabalho e ir direto para a faculdade de ônibus, arrastando-se em meio ao trânsito atulhado da avenida Anchieta. Daí desembarcam e dão de cara com uma pequena multidão de militantes que, diante de câmeras, flashes e microfones, dispara ataques como:

— A Uniban não é uma universidade. Não serve para educar ninguém.

— A Uniban não forma estudantes. Forma animais.

Não admira que o protesto não tenha conseguido a simpatia dos alunos.

— Não gosto de ver o nome da minha faculdade ser jogado no lixo — reclama uma aluna de 57 anos, que se identifica apenas como Maria. — Ainda mais por causa de uma menina como a Geisy.

O que Geisy fez?

— Ela subiu a rampa rebolando e mostrando a bunda. Ela tinha que se colocar no lugar dela de mulher.

Não que a marca Uniban fosse sinônimo de credibilidade antes de a universidade resolver queimar numa fogueira o vestido rosa choque de Geisy e suas redundâncias. Acostumada a frequentar a lanterna das avaliações do MEC, os cursos da Uniban sempre foram daqueles que os alunos escolhiam unicamente pelo preço, um diferencial que a universidade explora descaradamente: o chamariz "Cursos a partir de R$ 199" é o primeiro que salta aos olhos de quem acessa o site da empresa, sem qualquer menção a qualidade dos cursos ou dos professores. A Uniban é o equivalente educacional dos pratos feitos dos botecos, dos salgadinhos de isopor e dos empréstimos extorsivos das financeiras. Pode não ser grande coisa, mas é o que você pode pagar, certo? Nessas condições, não dá para esperar que os estudantes queiram mudar o mundo ou que encarem o saber universitário como algo além de uma ferramenta que pode ajudá-los a conseguir um trampo melhor. Pelo contrário: é um ambiente bom para o cultivo de conformismos, a adequação a padrões estabelecidos, o espírito de manada.

Uma das únicas manifestantes de batom (foto Bianca Alves)
 
— Quanto vocês receberam para estar aqui? — pergunta um aluno para uma feminista, sem esperar a resposta. (Mas é claro: alguém só iria até a universidade e faria aquele escarcéu de gritos e bandeiras se estivesse rolando grana na parada. Que motivação alguém pode ter para agir se não for grana?)

Muitos dos alunos ficaram contra a decisão de expulsar Geisy, mas ninguém se animou a fazer algum tipo de reclamação formal contra a reitoria. Para quê? Esse assunto já deu. Quem liga para essa menina? O que eles querem é estudar, conseguir logo o diploma e arrumar um emprego que justifique o dinheiro gasto para comprar o canudo.

— A imprensa não tem assunto! A imprensa não tem assunto!

Era outra das palavras de ordem dos estudantes, revoltados com a cobertura sensacionalista da mídia.

— A imprensa nem quer saber do que aconteceu. Eles só querem mídia — reclama Marcia de Paula, 25 anos.

Como ela é uma estudante de Rádio e TV, pergunto se ela terá uma postura diferente quando estiver no mercado de trabalho.

— Não. Vou fazer igual vocês estão fazendo. Vou fazer o meu trabalho.

Nada de desafinar coros, remar em contracorrente. Muito menos desertar do pelotão de apedrejamento da Geny da Uniban

— A Geisy mereceu ser discriminada como foi — afirma Paula, com convicção. — Porque ela levantou a saia. O vestido dela não ia até os joelhos, como apareceu na Record. Ela estava provocando.

Engraçado como ninguém culpa os homens que criaram o tumulto na universidade. Eles não eram responsáveis pelo que faziam, apenas respondiam a uma provocação. Para a Uniban, Geisy é a Piranha Suprema, a serpente da Babilônia que enlouqueceu centenas de homens ao balançar suas coxas endiabradas mal cobertas pelos véus de pomba-gira rosa choque.
 Cenas do protesto  (foto Bianca Alves)

 E não foi exatamente por causa do vestido curto. Outras meninas da Uniban também usam roupas curtas, blusinhas, decotes. Pelo que os alunos contam, o delito de Geisy foi ir contra os padrões considerados aceitáveis pelas outras alunas. No seu perfil do Orkut, em que adota a identidade de **Loirão* tenta quem sabe vc consegue, Geisy integra comunidades como Sou Loira,Perua e Amo Rosa, *Eu ñ ando, desfilo!*, Sou Gostosa!Fazer oq?Eu posso! e TE INCOMODO?? Que peeena!. É o retrato em pixels da menina que gosta de provocar os homens, ser desejada, chamada de gostosa e que não liga para a opinião da maioria. Uma postura que pode ser perigosa em alguns ambientes. Afinal, quem gosta de mulheres livres? Nem as feministas — pelo menos, algumas delas.

— Quando um homem chama uma mulher de "gostosa" na rua, está dizendo que aquela mulher é inferior a ele — proclama uma das feministas de microfone em punho sobre o trio elétrico.

Então, um homem chamando uma mulher de gostosa está no mesmo nível de barbárie da turba que fez Geisy se trancar numa sala sob os gritos de "Puuuta, puuuta"... Duvido que a própria Geisy, motivo do protesto, concordasse com uma sentença dessas.

Cenas do protesto (foto Bianca Alves)

Às oito horas, o clima é de fim de festa. Sabrina Sato e seu vestido rosa já foram embora. O trio elétrico e a maior parte dos manifestantes, também. Os alunos voltam para a sala de aula. Quem ficou na calçada rodeia a equipe da Record, para fazer a dança do siri ou gritar "GOSTOSA!" para a repórter que tenta fechar uma passagem.

— Quer ouvir o que ninguém contou sobre a Geisy? — um grupo de alunos, meninos e meninas, me rodeia, ávidos para compartilhar segredos.

Gravador e bloco de notas em punho, me preparo para ver desvelados os mais constrangedores segredos de alcova. Pronto para conhecer detalhes de orgias envolvendo Geisy ao lado de porco-espinhos xifópagos, madres superioras com falos portáteis e malabaristas com priapismo crônico, peço:

— Claro. Conta aí.

E eles me revelam:

— Ela tinha foto no Orkut com a perna cruzada e sem calcinha.

— Naquela noite, ela desfilou com a minissaia. Teve hora que levantou o vestido de propósito.

— Depois que a confusão começou, uma menina ofereceu uma calça legging para ela colocar no banheiro, mas ela não quis.

— Um dia antes, sabe o que ela faz? Foi num barzinho toda agitada, toda alegre. Tirou a blusinha e ficou só de top.

Hum, tá.

Era isso?

As mais chocantes histórias sobre a Devassa da Uniban se resumem a isso aí. Na Uniban, é currículo mais do que suficiente para alguém perder qualquer direito à dignidade.

Do outro lado da rua, a menos de cem metros dali, carros continuam a entrar e sair sob o letreiro em neon vermelho do MOTEL TREVO. Discussões sobre minissaias, tops e moralidades ficam do lado de fora.

10 de novembro de 2009

Free Geisy

Libertem as baleias, Mandela, Winona, Paris Hilton, até o Maroni... Agora é a vez do movimento free Geisy. O logo é uma criação dos designers Jean Takada e Paula Brandão (clique para ver em alta resolução). Uso liberado em camisetas, imãs de geladeira, minissaias rosa choque e passeatas feministas.

9 de novembro de 2009

Uniban traduzida


Como uma universidade conservadora contemporânea, a Uniban se exprime numa linguagem própria, que nem todos podem compreender com facilidade. O Boteco Sujo resolveu dar uma força e vai traduzir os trechos mais obscuros do anúncio em que a universidade comunica a expulsão da aluna Geisy Arruda, condenada pelo crime de ser xingada de "puta, puta" por uma multidão enfurecida. Aí vai, do unibanquês para o português coloquial:

"A educação se faz com atitude e não complacência"
No dicionário da Uniban, atitude é o que a universidade adota quando expulsa uma estudante agredida e complacência é quando livra a cara de centenas de alunos que a agrediram.
"A sindicância apurou que, no dia da ocorrência dos fatos, a aluna fez um percurso maior que o habitual aumentando sua exposição e ensejando, de forma, explícita, os apelos dos alunos que se manifestavam em relação à sua postura, chegando, inclusive, a posar para fotos. Novamente, a aluna optou por um percurso maior ao se dirigir ao toalete, o que alimentou a curiosidade e o interesse de mais alunos e alunas, tendo início, então, uma aglomeração em frente ao local."
A Uniban entende que um corpo feminino é a fonte de todo mal e, portanto, deve ser restringido ao máximo. Seu raio de movimentação deve ser restrito (nunca fazer percursos maiores do que o habitual!) para não aumentar sua exposição e fotos de tais indedências devem ser terminantemente proibidas.
"Depoimentos de colegas indicam que, no interior do toalete feminino, a aluna se negou a complementar sua vestimenta para desfazer o clima que havia criado."
Complementar a vestimenta = adequar a indumentária da aluna aos padrões contemporâneos. Contemporâneos aos do Afeganistão nas regiões pró-Taleban, é claro.
"Foi constatado que a atitude provocativa da aluna, no dia 22 de outubro, buscou chamar a atenção para si por conta de gestos e modos de se expressar, o que resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar."
Cuidado para um erro comum. Em unibanquês, defesa do ambiente escolar não signfica, por exemplo, lutar contra a direção de uma universidade que mantém cursos não reconhecidos pelo MEC, Defesa do ambiente escolar significa filmar as coxas de uma loira com o celular, ameaçá-la de estupro e gritar "PUTA, PUTA" a plenos pulmões, dentro o ambiente esperado de uma universidade como a Uniban.
"Nesse sentido, cabe aqui registrar o estranhamento da UNIBAN diante do comportamento da mídia que, uma vez mais, perde a oportunidade de contribuir para um debate sério e equilibrado sobre temas fundamentais como ética, juventude e universidade."
Estranhamento diante do comportamento da mídia = não entender por que é que não puxaram nosso saco e divulgaram só o que a nossa tão bem treinada assessoria de imprensa tinha a dizer?
ética = dinheiro
juventude = dinheiro
universidade = dinheiro
"Para tanto, convida seus alunos e alunas, professores, funcionários, a comunidade e a mídia para um ciclo de seminários sobre cidadania em data a ser oportunamente informada."
E vejam algumas das palestras deste ciclo de seminários:
Mahmoud Ahmadinejad e Avigdor Lieberman - Respeito à diversidade
Hugo Chávez e Roberto Micheletti - Liberdade de expressão
José Sarney e Yeda Crusius - Ética na política
Eduardo Azeredo e Daniela Cicarelli - Liberdade de expressão na era digital


Falando nisso, aliás, é bom dar uma olhada em alguns comentários que os gringos fizeram sobre o caso Geisy no site Huffington Post. Cito alguns:

Wow, had to check that this wasn't in a midwest school or in Colorado or something. Guess hypocrisy has no national borders.

What a bunch of women-hating HYPOCRITES.

Brazil.....isn't that where they run around naked at the beach? Didn't know they were such prudes.

Seems like the Republicans migrated south.

On a scale of stupid ragning from 1 to 10, with ten being the stupidest, these Brazilians certainly rate a 10.


Logo os americanos, tido como tão conservadores, parecem ter mais juízo do que a gente.


E, para quem ficou indignado com o caso Geisy, o programa de hoje é o seguinte: Protesto em frente à Uniban, na Avendida Dr Rudge Ramos,1701, em Sao Bernardo Do Campo (SP), a partir das 18h. Vá e, se for mulher, não esqueça de vestir sua minissaia. Rosa choque, de preferência.

Veja mais detalhes aqui e assine o abaixo-assinado.

3 de novembro de 2009

"Quem é maior?"

Charge chupada do site Mau Humor, de Arnaldo Branco

A história da loura da Uniban trouxe para este boteco alguns comentários tão toscos e preconceituosos (ao lado de outros bem bacanas, é verdade) que quase resolvi ceder ao José Sarney que existe dentro de mim e censurar vários. Mas resolvi deixá-los, porque são uma aula de sociologia (removi só dois ou três que não passavam de um coro de "puta, puta" em forma de comentário de post).

O pior, claro, veio por e-mail. Um anônimo que diz ter algum tipo de ligação com a Uniban (a qualidade do texto faz pensar num aluno, mas com essas universidades não dá para descartar que seja um professor) faz algumas ameaças bem ao estilo de quem gosta de atacar louras de vestido curto.

Segue.

Primeiro e-mail do Anônimo
de: opaopa Sou correto (sacmeu@hotmail.com)
29 de outubro de 2009 12:34
Assunto: UNIBAN

Amigo, entrei no seu site e vi o "caso Uniban".

Toma cuidado para não levar processo da Uniban. Vc estava no local para saber o que ocorreu? Tentativa de estupro? ela foi cercada? hahahahahahahahaa

Estou encaminhando essa sua noticia para o juridico da Uniban. Vou fazer um resumo bem rápido para vc entender, pq se escrever muito vai confundir a sua cabeça:

Ninguém quis estuprar ela não, ficaram ofendendo ela devido aos trajes da garota
E devido ao fato de ela ter feito de propósito pra provocar um professor, o pessoal começou a "pesar na dela" e meninas chamaram a policia por ela estar semi-nua... Tanto que ela estava desfilando nas rampas de acesso as salas de aula!


Sem mais para o momento!

Primeira resposta do boteco:
para: opaopa Sou correto (sacmeu@hotmail.com)
2 de novembro de 2009 02:50
Assunto: Re: Assunto UNIBAN

Obrigado por fazer um resumo para eu entender. Não sou o cara mais esperto do bairro e algumas coisas não consigo entender, mesmo. O que leva um monte de filhinhos de papai a ofender uma garota e chamar a polícia por ela estar seminua são algumas delas. Jurídico da Uniban? Estou morrendo de medo. Num país um pouco mais decente, alguém como você estaria escondido num canto, apavorado com a idéia de ser preso ou expulso por conta do abuso cometido em bando contra uma menina, e não ameaçando por e-mail quem denunciou o que vocês aprontaram.

Espere. Eu disse que você "estaria escondido"? Retiro o que disse. Esse é um e-mail anônimo. Você está escondido, sim, distribuindo e-mails anônimos. É fácil ser corajoso assim. Tão fácil quanto atacar uma menina ao lado de outras 700 pessoas.

Réplica do Anônimo:
de: opaopa Sou correto (sacmeu@hotmail.com)
3 de novembro de 2009 08:31
Assunto: RE: Assunto UNIBAN

Estou apenas exigindo a VERDADE no que você postou. Você postou que houve tentativa de estupro, ou seja, sua fonte está furada. Por isso, ate o site virgula postou o mesmo e usou você como fonte. Vc não seria responsável por tal mentira? Fique tranquilo, a Uniban está sabendo de tudo... Aguarde novidades! Nesse caso, muita gente vai rodar, pode esperar. "apavorado com a idéia de ser preso ou expulso por conta do abuso cometido". Cuidado para vc não ficar apavorado por publicar mentiras!

Quem é maior: vc ou a Uniban??

hahahahahahahahahahahahaha

Minha última resposta:

para: opaopa Sou correto (sacmeu@hotmail.com)
3 de novembro de 2009 09:52
Assunto: Re: Assunto UNIBAN

Caro Anônimo,

a afirmação de que seus amiguinhos "ameaçaram estuprar a moça", como aparece no meu texto, foi confirmada por outras testemunhas, não só para mim como também para outros jornalistas. Veja a matéria da Folha de S. Paulo, por exemplo. Ah, a ameaça não era séria, era só "gozação", como alguns estão dizendo? A piadinha obrigou a menina a se trancar na sala e sair de lá com escolta da polícia. Deve ter gente que não sabe brincar.

"Quem é maior?"

Essa obsessão fálica com o tamanho explica muita coisa.

PS - Não vou responder outras mensagens suas, a menos que use um e-mail real e se identifique de cara limpa, como eu faço no meu blog.