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    Sigam-me os bons

    3 de fevereiro de 2010

    Internet is for porn porn porn

    Passar uma hora e meia discutindo internet e putaria: um bom programa para uma tarde de sexta-feira. A convite do Alexandre Inagaki, participei de um debate na Campus Party com o tema “Is internet for porn?” (referência a um clássico do YouTube, uma das canções do musical Avenida Q em que o monstro marrom, maldoso e violento prova para a marionete deslumbradinha que a Web serve mesmo é para sacanagem).
    Achei divertido, embora o bate-papo tenha sido dominado pelas mulheres: a Aline Gomes (a @lini) em sua roupa de látex preto, falando como gosta de dar sempre que pode e sobre como presentear as tias com bolinhas tailandesas, e a Alê Félix, que está para lançar um site de pornografia feminina chamado Não Não Para. Os outros homens, que eram o Gustavo Gitti, do Papo de Homem, e o Rodolfo Castrezana do Omedi, além de mim, falamos menos. Um debate sobre sexo em que as mulheres falam mais do que os homens? Isso só pode ser um bom sinal.

    Quem quiser saber sobre mais sobre o que rolou no debate pode ver o vídeo abaixo, cortesia do Castrezana, ou ler os ótimos relatos sobre o evento, um feito pelo Papo de Homem e outro pelo A Vida Secreta (parte 1 e parte 2).


    Quanto a mim, para não ejacular no gozado, vou descarregar aqui algumas idéias que me ocorreram sobre o tema.

     

    Internet is for porn
    É. E não só a internet. Uma nova mídia sempre se torna um canal privilegiado para a distribuição de sacanagens. E isso desde sempre. As pinturas rupestres dos homens das cavernas não mostravam apenas os homens cravando suas lanças em mamutes: alguns desenhos também revelavam o que os caras curtiam fazer após meter a clava na cabeça das suas mulheres. E, quando resolveu pegar um monte de barro para esculpir uma estátua, o homem primitivo foi logo moldando uma mulher enorme, de tetas e bunda gigantescas — era a Vênus de Willendorf, que gente como Rubem Fonseca considera a primeira obra pornográfica da história.

    Não foi diferente com a invenção de Guttemberg. Tudo bem que as primeiras obras impressas foram bíblias, mas não demorou para que o sexo explícito se enfiasse na nova mídia. Ainda no século XVI, o fantasma de um vasto mercado clandestino de textos e gravuras pornográficas já rondava vários cantos da Europa. E não estou falando de mulher pelada. Era pornografia no duro. Os “Sonetos Luxuriosos” de Pietro Aretino ("Para provar tão célebre caralho,/ Que me derruba as orlas já da cona,/ Quisera transformar-me toda em cona, / Mas queria que fosses só caralho"), por exemplo, vinham acompanhados de gravuras de Giulio Romano que não mostravam menos do que um número da Brazil ou da Private.


    Ainda que perseguida e clandestina, a pornografia daria uma força especial ao mercado de revistas e inspiraria punheteiros ainda no tempo do cinema mudo. Nos anos 80, quando o videocassete permitiu que a classe média pudesse ver em casa cenas de sexo filmado sem correr o risco de sentar nas poltronas gozadas de salas de cinema suspeitos, o pornô respondia por um quinto de todas as locações. Era impossível imaginar uma videolocadora sem espaço para pornografia. “VCR is for porn”, poderíamos dizer na época.

    E veio a internet. O pornô sempre à frente de cada inovação tecnológica. Uma matéria da PC World ("Thank You, Porn! 12 Ways the Sex Trade Has Changed the Web") já fez este balanço: o pornô já gemia em streaming antes do YouTube, e nas primeiras vezes em que alguém se arriscou num sistema de pagamento on-line foi para se masturbar


    Aprendendo com o pornô
    Falei sobre isso no debate, respondendo a uma pergunta do Gustavo. Tem gente que acha que pornografia é coisa de nerd punheteiro e não tem nada a ver com casais sexualmente ativos. Quem acredita nisso ignora como as pessoas modificaram seu jeito de fazer sexo ao longo das últimas décadas, quando a pornografia se disseminou. Sexo oral, por exemplo, muita gente não fazia. Conversando com homens que nos anos 60 frequentavam o Meia-Nove, tradicional puteiro vertical que funciona até hoje na rua dos Andradas, soube que bem poucas prostitutas aceitavam fazer boquete (imagine as esposas). Quem leu “A Casa dos Budas Ditosos”, de João Ubaldo Ribeiro, deve lembrar do trecho em que uma moça é espancada pelo namorado por tentar chupar o seu pau. Vem daí uma das causas do impacto de “Garganta Profunda” nos anos 70. Hoje pode parecer tosca a história de Linda Lovelace com seu grelo na garganta, mas é bom lembrar que, quando o filme foi parar na Justiça acusado de ato obsceno, o juiz que analisou o caso perguntou durante a audiência o que era clitóris. Ele não sabia. E não só o juiz. Charles Bukowski tinha mais de cinquenta anos e já havia sido casado quando ouviu falar em cunnilingus pela primeira vez na vida.

    Se hoje sexo oral, anal e sadomasoquismo são assuntos debatidos sem eufemismos nos programas da tarde na TV aberta, devemos agradecer ao pornô, que ajudou a quebrar tabus ao expor massivamente uma série de práticas sexuais que até então eram consideradas “exóticas” .
    Pornovariedade
    É um aspecto em que os redatores do Fleshbot sempre batem: o pornô não é um, são muitos. Quem diz que o pornô é machista, repulsivo e violento provavelmente só conhece uma das facetas do pornô. Não é possível julgar um mercado que despeja anualmente centenas de milhares de títulos mundo afora como se fosse uma massa uniforme. Por isso, não dá para avaliar a pornografia atual apenas pelos filmes de locadora do pornô brasileiro — pobres produções em vídeo que de bom só têm as atrizes, uma repetição de cenas de sexo absolutamente idênticas repetidas ao infinito. Existe, sim, pornô feminino, e mesmo aí a variação é grande, dos filmes mais “mulherzinha” de Candida Royalle e Erika Lust até o delírio hard e quase escatológico das produções lésbicas de Belladonna.

    E a pornografia japonesa? Um mundo à parte dentro do gênero, com todo tipo de enredo imaginoso e artifício erótico, sejam bizarrices de tentáculos e bukkakes, sejam hentais tão delicados que parecem novelas das seis entremeadas por trepadas. Pouca coisa disso chegou ao mercado brasileiro, mas dá para achar toneladas de material na Web — afinal, é para isso que serve a internet. No ramo dos gibis, até que há boas opções. Da Conrad, há o pornô grotesco à la Marquês de Sade de Suehiro Maruo e, pela JBC, o pornô didático-para-casais da ótima série Futari H, ainda nas bancas. Vai lá.

    Pornô agonizante
    Não faça como os jornalistas: não se deixe enganar pela máquina de lorotas comandada pelas produtoras pornô brasileiras. Esqueça quando a Sexxxy diz que “estamos negociando com a última celebridade boqueteira do momento”, porque os contos sobre cachês milionários não passam de lendas. Pouca gente fala sobre isso, mas a verdade é que a produção de filmes pornôs brasileiros está à beira da morte. O faturamento do mercado brochou e vem encolhendo ano a ano (entre 2006 e 2007, caiu de R$ 450 para R$ 300 milhões, segundo a Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico; não fui atrás de dados atualizados, mas tudo indica que deve estar bem pior). O motivo é simples: as produtoras se acostumaram a produzir apenas para o mercado das videolocadoras, o qual nos últimos vem abrindo mão dos pornôs, já que os punheteiros preferem baixar os filmes no computador em vez de passar pelo constrangimento de encarar a moça do caixa. E não é tão fácil faturar com putaria na internet. A oferta é imensa e a muitos internautas não vêem motivo para pagar por pornografia, especialmente um produto tão descartável e sem imaginação quanto o pornô nacional. Um dos poucos que consegue faturar com sacanagem pela internet de maneira consistente é o Dreamcam, pois há anos oferece o diferencial da putaria 2.0: o internauta pode ver as peladas ao vivo e interagir com elas por telefone ou chat.

    Do jeito que a coisa vai, a pornografia audiovisual brasileira corre o risco de morrer pela segunda vez. (A primeira morte ocorreu nos anos 90, também por incapacidade de adaptação às novas mídias: a indústria dos filmes de sexo explícito brasileiros feitos para o cinema não conseguiu se adaptar ao mercado de vídeo e desapareceu, deixando as locadoras dominadas pelos norte-americanos). Do jeito que a coisa vai, o Brasil corre o risco de abandonar a produção de filmes pornôs para se tornar apenas um fornecedor de matéria-prima, ou seja, atrizes, para o exterior.

    Visão de negócios o brasileiro pode não ter, mas mulher gostosa a gente tem. Para dar e, principalmente, vender.

    Recomendação final
    Vou repetir aqui o que falei no final do debate, porque acho que é um lembrete sempre bom. Sobre sexo, blogs e internet, a melhor dica é aquilo que a minha mulher sempre me diz: "Vê se escreve menos e pratica mais".

    10 Metendo a boca:

    sergio disse...

    Opa.

    Achei a ideia da mesa MUITO boa. Afinal, a pornografia foi pioneira em muita coisa na internet. Nao sei se ela ainda consegue ser.

    Achei uma pena porque metade do tempo foi tomado pelos comentários, opiniões e esperiências pessoais da doidinha da esquerda (foto). Se eu quiser saber isso leio o blog dela. Nada contra ela (etc e tal), mas não era esse o propósito da mesa, certo?

    Diálogo de Pedras disse...

    Muito bom cara. Aprendi e me diverti muito com seu texto e comentários. O que seria da Web sem a punheta? O pornô brasileiro é muito ruim mesmo. Valeu!

    Victor Lee disse...

    Fala Fausto! Excelente texto!

    Você tinha comentado no debate e reiterou aqui que a indústria brasileira vai mal - não sabia que a coisa estava tão ruim assim!

    Aqui na Europa de vez em quando eu vejo DVDs originais da Brasileirinhas, o que me dava a impressão que o export brasileiro estava funcionando. Me enganei?

    Abraços
    Victor Lee

    b disse...

    Isso sim foi uma aula de putaria. Adorei, este texto vai para os anais 9oooooooops) da pornografia webzística. Obrigada por colocar aquele link dos 12 motivos que devemos agradecer à pornografia, pela tecnologia nossa de cada dia. Tinha procurado em tudo aqui e não achava.

    PS - Sua mulher tem razão, falar/escrever menos e fazer mais é o que tudo blogueiro putanheiro precisa. E eu bem sei disso...

    Admin Secreto disse...

    Fausto. Muito bem colocada a comparação com Gutemberg e as bíblias impressas à época.

    E lembre-se:

    - que os antigos "catecismos" IMPRESSOS de Carlos Zéfiro tornaram-se os tantos flashs e blogs sobre o assunto.

    - que nos primeiros capitúlos do Genesis, conta-se a estória de Adão e Eva, sua nudez, sua inocência e seu pecado. Ou seja, mesmo a bíblia, lida com o assunto desde o começo.

    - que, não a toa, existe a expressão "conhecer no sentido bíblico".

    :-)

    "E desta vez: É bíblico!" (Bart Simpson num dos episódios de Dia das Bruxas)

    'braços

    Celso Bessa / Admin Secreto no AVS.

    Fausto Salvadori disse...

    É, Celso, o Antigo Testamento é uma coletânea de sacanagens. As filhas de Lot embebedam o pai para transar com ele e Abraão banca o gigolô da própria mulher em mais de um trecho do Gênesis, sem que nenhum destes comportamentos seja mostrado como imoral ou ofensivo. Sem falar do poema erótico que são os Cantares de Salomão.

    "Conhecer", na Bíblia, é usado como eufemismo para sexo. Para dizer que é virgem, Maria fala: "Como posso engravidar, se não conheço homem?". Para dizer que Davi deitou com uma mulher, mas não rolou sexo, o texto adverte: "...mas ele não a conheceu". Daí o "conhecer no sentido bíblico".

    Fausto Salvadori disse...

    Victor, não estou por dentro das investidas da Brasileirinhas no mercado externo, mas tenho impressão de que apenas uma fração das cenas produzidas por ele tem condições de competir no mercado internacional.

    Renata disse...

    Essa é a sua mulher, ehehe!

    Ubirajara Rodrigues disse...

    A indústria pornográfica internacional está falida. Em 2009, somente nos EUA, foram extintas mais de 40 produtoras e umas centenas de franquias. Para o web-punheteiro pornô é algo tão descartável quanto o papel higiênico que ele usa para limpar a gosma do teclado. O sistema é o baixou, bateu, deletou. Com a internet não tem perdão, vai tudo pro ralo mesmo.

    Birajara disse...

    Esta entrevista com o Leandro Moran, da Sexxxy World profetiza o 2012 da putaria.

    http://www.abril.com.br/noticias/comportamento/produtor-porno-acredita-pirataria-levara-ao-fim-filmes-eroticos-510715.shtml